Publicado 04 de Setembro de 2015 - 17h41

Por Adagoberto F. Baptista

Fotos: César Rodrigues

Gustavo Abdel

DA AGÊNCIA ANHNGUERA

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Manuel de Jesus da Silva fica sentado em seu banquinho branco e da porta de seu cantinho observa o movimento da Rua São Carlos - paralela à Avenida João Jorge, e aguardando a clientela. Todas as manhãs, o volume do seu rádio no noticiário local dá para ser ouvido da calçada. O avental azul claro puído e os óculos escuros o fazem uma figura curiosa, e destacada, entre as casas de cores desbotadas e tombadas como patrimônio histórico de Campinas.

A Vila Industrial exala história por ser o primeiro bairro de trabalhadores, e Manuel compõe esse cenário com uma aura que nos remete ao começo do século passado. Apesar de sua mercearia ocupar um espaço de 5 metros de comprimento por dois de largura, a história desse imigrante de 78 anos segue para mais de quilômetro, de tantos causos que vai pavimentando ao longo da conversa. E, ele sabendo disso, a todo o momento faz questão de lançar o desafio: “Mas você quer saber tudo mesmo?”.

Se não tudo, pelo menos uma parte da trajetória desse senhor apelidado pelos fregueses de “português”, mas quando na verdade sofreu, e muito, igual a um brasileiro. Por exemplo: perdeu tudo com os efeitos do Plano Collor. Foi então que Manuel “quebrou”, e foi viver nas ruas de Campinas em 1993.

Mas até chegar nesse ponto o português de Figueiró dos Vinhos fez de tudo um pouco, em muitos ramos comerciais. Esse é seu tino, vender. A primeira e única vez que trabalhou como empregado foi inesquecível, segundo ele. Tinha acabado de chegar ao Brasil, em 1963, e por dois anos trabalhou como motorneiro (piloto) de bonde.

“Quando vim para o Brasil não foi para passear, e sim trabalhar. Bati na porta da empresa de bonde e consegui o emprego de motorneiro. Fazia todas as linhas, e como eu precisava trabalhar entrava às 4h da manhã e tinha dias que eu saia às 17h. Às vezes me chamavam de madrugada para trabalhar, mas eu gostava”, conta.

Para Manuel aquela rotina era melhor do que servir à “tropa” portuguesa. “A vida no exército naquela época dos anos 60 não era fácil. Foi decisão acertada vir para o Brasil”, lembra. Então aos 26 anos, deixou para trás toda a família e embarcou no navio argentino Corrientes.

Depois do bonde foi trabalhar em uma barraca na feira, depois no Mercadão e engrenou no ramo de venda de automóveis. Teve dois estacionamentos, no Centro, e um posto de combustíveis em Valinhos. Tudo ia bem até que com o Plano Collor (congelamento da moeda) fez com que muitos brasileiros, inclusive o português Manuel, perdesse um apartamento, três casas e carros. “Um período em que fui parar na rua”, lembra, com lágrimas nos olhos. Pais de duas filhas e viúvo ficou à deriva.

Um Gol 1984 era o que lhe restava, e sem condições de banca-lo, deu a um conhecido que tinha a incumbência de pagar as sete parcelas restantes. “No dia 31 de junho de 1994 fui preso por causa do carro. Ele não pagou as prestações e fui levado para a extinta carceragem do 4º Distrito (Policial)”, conta, sem qualquer vergonha. Mas Manuel não ficou junto com os presos durante os 30 dias, e sim “solto” pela delegacia, já que era muito conhecido do delegado. “Tinha morado com uma parente do delegado na Vila Costa e Silva. Era chegado dele e ele entendeu a situação”, sorriu.

Manuel saiu da cadeia com uma bíblia debaixo do braço dada por um pastor. O livro é lido diariamente em seu cantinho, alugado, chamado Monte Sinai. “O lugar do senhor é no Monte Sinai”. O cheiro de queijo meia cura toma o ambiente, apesar de as rodelas brancas estarem embrulhadas em um plástico sobre o balcão, junto com os diversos tamanhos de frascos com mel puro. “Me recuperei na vida, me casei de novo e hoje tenho dois carros na garagem. Passei por muitas dificuldades, e além do comércio me dedico ajudar o próximo”, finalizou.

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Adagoberto F. Baptista