Publicado 06 de Setembro de 2015 - 8h00

Por Thaís Jorge

Ligia Sommers

Divulgação

Ligia Sommers

Foto: Divulgação

"Todo mundo diz que o processo é demorado, mas só é se você quer um bebê branco, de olhos claros. Se você quer uma criança apenas, sem buscar padrões, é muito mais fácil. Vai muito além da parte burocrática, e é preciso que as pessoas queiram ver isso"

"Todo mundo diz que o processo é demorado, mas só é se você quer um bebê branco, de olhos claros. Se você quer uma criança apenas, sem buscar padrões, é muito mais fácil. Vai muito além da parte burocrática, e é preciso que as pessoas queiram ver isso"

Quando uma história parece ter todos os elementos para um final não dos mais felizes, eis que a atitude de coragem de alguém traz um outro panorama ao enredo por meio de persistência e amor. É sobre esses sentimentos que a empresária Lígia Sommers fala em seu livro O Caminho das Cores (Miró Editorial), que conta sua experiência ao adotar quatro irmãos já crescidos, na obra chamados de Azul, Lilás, Verde e Vermelho. “Gosto de chamar o encontro com meus filhos de sincronicidade. Aliás, essa palavra sempre norteou muita coisa nas nossas vidas.”

As crianças, que na época tinham de quatro a seis anos, foram aprendendo com Lígia sobre cada um de seus valores, potencialidades e força – tudo construído com carinho, respeito e de modo a fortalecer cada vez mais os vínculos familiares, deixando as muitas dores do passado para trás. “As pessoas partem de um princípio preconceituoso de que, se adotarem um bebê, ele será livre de problemas porque será criado integralmente por elas. Mas isso não existe. Sendo seu filho ou adotivo, nenhum bebê é livre de problemas, de dificuldades”, opina.

Para a autora, a adoção dos quatro irmãos (duas meninas gêmeas e dois garotos) foi um aprendizado gratificante, que ocorreu de maneira mágica. “Tudo foi acontecendo de forma a mostrar que, sim, eles eram meus filhos. Talvez existam outros por aí e, se as pessoas derem uma chance, o destino, ou como você queira chamar, vai poder mostrar”, completa Lígia, que conversou com a Metrópole sobre o lançamento do livro e estendeu a prosa sobre família, adoção e entrega.

Metrópole – Como surgiu a ideia de publicar sua experiência com a adoção? Como foi essa decisão?

Lígia Sommers – Resolvi colocar a história no papel para que nunca mais esquecêssemos. Na época, meus filhos não queriam que o livro fosse público e nem era minha intenção. Era algo nosso, pessoal. Mas, com o passar do tempo, eles começaram a achar que talvez parte de toda essa sincronicidade que nos uniu tivesse como um de seus objetivos ajudar outras pessoas que estivessem em situação parecida. Uma amiga estava lendo o conteúdo e alguém da família dela trabalhava no mercado editorial e gostou muito. Começamos a conversar e resolvemos publicar, revertendo toda a renda para uma instituição que cuida de pessoas com necessidades especiais.

Em que momento você decidiu que adotaria uma criança? Como foi o processo todo, na prática?

Sempre quis ser mãe, mas tinha uma rotina corrida e o tempo foi passando. Aí chegou uma época em que tive a ideia de adotar. Quando cheguei no orfanato, não fui procurar uma criança maior, mas um bebê, como a maior parte das pessoas faz. Em pesquisas, já vi que existem 31 mil casais dispostos a adotar e apenas cinco mil crianças a serem adotadas. Só que esses casais querem bebês apenas. E aí a conta não fecha, pois a grande maioria é de crianças mais velhas. Na época, as meninas estavam prontas para adoção, mas os pais biológicos lutavam para ter os meninos de volta. Como as crianças foram vítimas de maus-tratos, a justiça negou. Mesmo assim, tudo isso contribuiu para tornar o processo dos meninos um pouco mais lento, por isso as meninas foram para minha casa antes deles. Um dos meus filhos, o Verde, ao saber que as irmãs tinham sido retiradas do orfanato, não falava mais, não comia. Procurei um amigo advogado para me ajudar a agilizar o processo. Ele pediu para um conhecido do tribunal fazer uma pesquisa e, acredite ou não, o tal conhecido era exatamente o juiz que estava com o processo deles. Sincronicidade de novo. Uma semana depois que o juiz liberou, os meninos estavam prontos para adoção.

Como seus filhos cruzaram seu caminho?

A assistente social me disse que havia gêmeas no orfanato que eram a minha cara, mas que tinham um pouco mais de idade. Uns dias depois, ela me chamou de volta e disse que as meninas tinham dois irmãos. Eu não queria separá-los, mas fiquei um pouco assustada, afinal, eram quatro crianças. Conversei com meu marido e, mesmo achando loucura, vimos que tínhamos condições de criá-los. Pedi para conhecê-los e tinha uma missa acontecendo. Pedi que se ali estivessem meus filhos, que eu recebesse um sinal. Foi quando o padre pegou alguns pedaços de pão e pediu para as crianças compartilharem. Uma delas, a Azul, não dividiu o pão com ninguém. Um tempo depois, ela veio e compartilhou comigo. E eu decidi que aquele era o sinal. Tudo foi acontecendo de forma a mostrar que, sim, eles eram meus filhos.

Como se deu a adaptação deles à nova rotina em família, considerando as experiências anteriores pelas quais cada um havia passado?

As meninas vieram antes, então elas já estavam adaptadíssimas. Eu, ingenuamente, pensei que quando os meninos chegassem seria moleza. Mas parece que as meninas tinham esquecido tudo. O menino Verde precisava ser operado, o Vermelho chegou com alguns problemas de pele. Foi uma época complicada. A casa virou tamanho tumulto que no fim do dia ninguém sabia mais falar, pentear o cabelo, tomar banho. Um dia sentei no chão e comecei a chorar. Aí meu filho Verde, que tinha cinco anos, me perguntou o porquê do choro. Falei que era porque tinha dado tudo errado e ele disse: “Vamos começar tudo de novo?”. E foi assim que a gente fez, sempre que foi preciso.

E com relação à carga emocional que eles já carregavam?

Quando o Verde veio para casa, ele dizia: “Mamãe, meu coração ainda está preto de tristeza”. Então, começamos a fazer sessões de meditação, em que eu colocava aroma e luz e imaginávamos que uma chuva de prata levava tudo embora. Tentava criar uma atmosfera especial e fazer com que eles se sentissem amados, como realmente estavam sendo ali. Num desses momentos, a Azul falou: “Mãe, você se lembra da missa no orfanato? Eu dividi o pão com você porque olhei nos seus olhos e vi que você era minha mãe”. Não teve preço ouvir isso.

Como você avalia a adoção, atualmente, no Brasil? Que barreiras ainda existem?

Na verdade, as pessoas falam muito do processo que é burocrático, que deve ser mudado. E pode até ser que haja coisas a melhorar. Mas acho que o que precisa mudar primeiro é a visão das pessoas na hora de adotar. O processo só é demorado se você quer um bebê branco, de olhos claros. Porém, se quer uma criança apenas, sem buscar padrões, é muito mais fácil. Vai muito além da parte burocrática e é preciso que as pessoas vejam isso.

Qual é o seu sentimento quando você olha para os quatro, hoje?

É o sentimento de que cumprimos nosso papel. Esse era o destino e a gente o cumpriu. Mais do que isso: ganhamos vidas novas. 

Escrito por:

Thaís Jorge