Publicado 09 de Setembro de 2015 - 19h05

Leo Gandelman homenageia o saxofonista mineiro José Ferreira Godinho Filho, conhecido como Casé, no disco Velhas Ideias Novas: O Sax da Gafieira ao Sambajazz, terceiro e mais recente trabalho do artista, cuja intenção é publicar uma mostra do sax brasileiro. Este projeto começou em 2007, com os CDs Radamés e o Sax — celebrando o instrumentista Radamés Gnattili (1906-1988) —, seguido por Ventos do Norte (2013), que exalta a contribuição dos saxofonistas nordestinos para a linguagem do sax brasileiro.

Em Velhas Ideias Novas, a abordagem remete as décadas de 1950 e 1960, quando houve no Brasil o fortalecimento do sambajazz oriundo do samba instrumental das gafieiras e influenciado pelo jazz norte-americano, embora não tenha se limitado a este período para compor o repertório. “Comecei com quatro músicas que Casé havia gravado, procurando reproduzir o ambiente sonoro dele, mas com liberdade, uma recreação livre”, afirma, referindo-se a Feitiço de Oração, Feitiço da Vida (ambas de Noel Rosa e Vadico), Se Acaso Você Chegasse (Lupicínio Rodrigues) — as três são da década de 1930 — e Menina Moça (Luiz Antonio), de 1959.

As quatro canções citadas por Gandelman foram gravadas por Casé. As demais possuem sua importância histórica, como Linda Flor (Henrique Vogeler e Luis Peixoto), considerado o primeiro samba-canção, e/ou gosto pessoal do artista. “Minha escolha é muito sentimental. Não sou pesquisador acadêmico. A escolha do repertório se deu muito pelo emocional, músicas que eu gostaria de tocar. Dentre desse espectro, eu teria várias opções, mas não quis ser ‘xiita’' na escolha.”

Gandelman revela alguns fatores a mais que conduziram a elaboração do álbum. “Meu pai era produtor de discos e, quando eu nasci, ele fez um que se chamava Velhas Ideias Novas, na década de 1950, lançado pela Plaza Discos, que era a empresa dele. Eu sempre adorei a capa e, por isso, tem no encarte do meu disco uma reprodução dela. Era um disco comemorativo dos 30 anos do samba, mas eu nunca entendi muito bem a razão dessa data, já que não era nada preciso. Mas, enfim, no ano que vem vamos para 100 anos do samba. Então, essa foi mais uma razão,” conta.

O músico recebeu de presente de Alexandre de Barros seu livro Como Toca esse Rapaz, que fala sobre o Casé, o que o despertou para ideia de homenageá-lo. “Eu sou um músico de orquestra, numa época muito rica em orquestra, no qual ele é um ídolo, embora tenha pouca visibilidade. É considerado nosso Charlie Parker (1920-1955). A homenagem é extremamente válida. Acho que ele é o criador do bip bop brasileiro, o que seria uma visão brasileira de tudo que estava acontecendo no mundo”, explica. Para o instrumentista, a falta de notoriedade de Casé se deu pelo fato de o músico fazer arte alternativa. “Vários músicos eram seus seguidores, mas ainda é um nicho muito pequeno. Ele morreu cedo, de forma inesperada. Foi encontrado morto dentro do quarto de seu apartamento na Rua Augusta (São Paulo). Ninguém sabe o dizer o por quê dessa tragédia. Nada mais justo do que colocar agora uma luz sobre ele” .

Leo Gandelman continuará a mapear a linguagem do sax no Brasil e mostrar ao público, em discos, sua pesquisa sem o rigor acadêmico. Ele afirma que o projeto, inciado com Radamés e o Sax (vencedor do Prêmio da Música Brasileira de melhor disco instrumental), não terminará neste terceiro trabalho. Porém, o instrumentista faz mistério sobre a sequência. “Tenho mais outras ideias que procuro viabilizar, mas nada certo ainda”, afirma.

Música Popular Brasileira

Para o saxonofista, o sambajazz nasceu em um tempo rico da música brasileira que foi internacionalizada. “O sambajazz faz parte de um momento em que a música popular brasileira foi consagrada uma das melhores do mundo, na época da criação da bossa nova. Essa música se espalhou pelo mundo, surgindo como uma maravilhosa opção para nós. Tanto que hoje, nosso repertório faz parte do repertório internacional”, explica.

Depois disso, a cena artística mudou negativamente, segundo ele. “Misteriosamente, a partir do início da Ditadura Militar, todo o movimento artístico mudou muito. Essa época reflete um Brasil criativo em todos os setores e hoje, o cenário é completamente diferente. De uma maneira geral, a visibilidade da arte alternativa é muito difícil, porque as pessoas estão ligadas aos oligopólios de comunicação, na mídia massiva e agora na internet, com coisas que são ultrapopulares. Como o espaço democratizou na internet, a visibilidade também se tornou difícil”, avalia.