Publicado 07 de Setembro de 2015 - 19h05

Jovens sambistas escolados na noite e sem as amarras estabelecidas pelo mercado lançaram dois bons discos neste semestre. Ambos contemplam o samba tradicional: o Trio Gato com Fome, com repertório de sambas rurais paulistas pouco conhecidos de Raul Torres (1906-1970), e Simone Lial, com canções inéditas reverenciando a batucada do samba carioca suburbano dos anos 80. Samba rural paulista e samba suburbano carioca, cada qual com suas características, mas convivendo juntos dentro do grande caldeirão cultural que se convencionou chamar de samba.

O Trio Gato Fome, formado por Cadu Ribeiro (voz e pandeiro), Gregori Andreas (voz e cavaquinho) e Renato Enoki (voz e violão 7 cordas), apresenta o disco Em Busca dos Sambas de Raul Torres, cujo título já remete ao longo processo de pesquisa para elaboração do projeto. Isso porque a obra de samba de Torres — um dos principais nomes fundadores da música caipira — é (ou era) desconhecida até mesmo para os músicos, que dirá para os meros mortais. Demandou um ano de pesquisa.

Em entrevista ao Caderno C, Cadu revela os passos e os principais desafios do projeto. “O primeiro foi descobrir as músicas, depois ir atrás para ouvir. Edson Nogueira, de Botucatu, um pesquisador da obra dele, nos forneceu alguns CDs. Buscamos também na discoteca do Centro Cultural de São Paulo e no acervo de Assis Ângelo, importante pesquisador. Aí tivemos que ‘decifrar’ as letras porque a gravação naquela época era muito ruim. E a Magnólia Torres, filha de dele, nos cedeu letras e partituras”, conta.

A época a que o cantor se refere está situada entre as décadas de 30 e 40, quando o próprio Torres gravou tais canções. “Achamos algumas regravações dele mesmo, nos anos 50, tem A Cuíca Tá Roncando, que foi regravada por Caco Velho em 1960, e Malandro da Barra Funda, que Tião Carreiro regravou em 1979. As outras são bem desconhecidas. Tivemos a dimensão disso quando fomos fazer o documentário, conversando com outros músicos”, diz, referindo-se, principalmente, às participações especiais dos disco: Caçulinha (acordeon), Miltinho Edilberto (viola), Milton Mori (violão tenor), Nailor Proveta (clarinete), Oswaldinho do Acordeon, Paulo Dias (tambu) e Osvaldinho da Cuíca.

Este último requer atenção especial, pois foi ele quem levou ao conhecimento do trio a existência dos sambas. “Conhecíamos, através do Osvaldinho, a música A Cuíca Tá Roncando, que foi gravada em 1934 e virou sucesso em 35. E, conversando com ele, soubemos que Torres tinha outros sambas. Fomos descobrindo muitas músicas boas. Raul Torres era muito versátil. Também fazia samba-choro, sincopado, carioca. Carioca porque ele era um artista de rádio, onde recebia influência do samba do Rio, de Noel Rosa, Ismael Silva. E por outro lado tinha o samba rural paulista, da viola, do campo, como Mineirinha, Mariazinha Criminosa e Bananeira. Mário de Andrade aponta em seus estudos Bananeira como a melhor representante do samba rural”.

Para a regravação das músicas pelo Trio Gato com Fome, Cadu afirma que houve a preocupação em respeitar a melodia original, mesmo porque são “quase inéditas”, e colocaram sua identidade nos arranjos. “Respeitando o samba rural paulista”, afirma. Segundo ele, o esse gênero de samba não teve as transformações do carioca, que o tornaram um samba urbano com outras influências.

Samba (sub)urbano

É justamente nesse samba urbano carioca que o disco da “quase estreante” Simone Lial aposta. Apesar das músicas serem recentes, houve uma imersão na década de 80 para compô-las. Em seu segundo CD, E Toda Dor que Sofri Será Canção, a cantora carioca exalta as dores da vida reverenciando a batucada suburbana dos anos 80. São 11 faixas, todas da parceria Maurício e Leo Matuto. Isso porque eles a convidaram para fazer primeiro projeto do selo Alujá como artista exclusiva, e o projeto foi fechado tendo a produção de Fernando Brandão, que também forma a banda ao lado de Carlinhos 7 Cordas, Camilo Mariano, Eron Lima, Jefferson Lescowich, Marcio Hulk, Jorge André e Daniel Karin.

Nascida em Ramos, Simone adquiriu bagagem musical sob os arcos da Lapa, no Rio de Janeiro, e guarda consigo a relevância do antigo samba suburbano carioca que é evidenciado nesse trabalho. “Para mim, representa a resistência, a força, a luta, a vontade, o amor e o respeito à verdadeira história dos negros, dos “brasilíndios” (como foram chamados por Darcy Ribeiro), da miscigenação e do sincretismo realizados no Brasil, para a sobrevivência corajosa da raiz da formação do nosso povo”, diz a cantora, frisando que é preciso pesquisar e estudar história para entender estas representações. “Para quem se interessar aconselho o livro O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro, e Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro, de Roberto Moura.”

Segundo ela, a intenção do CD foi reverenciar a revolução estética da batucada suburbana dos anos 80, feita pelo bloco carnavalesco Cacique de Ramos, e que influenciou o Fundo de Quintal, grupo do qual saíram Arlindo Cruz, Luiz Carlos da Vila, Almir Guineto, Sombrinha, entre outros. “Quanto às letras, afirmo que é uma nova proposta, pra dar uma sacudida, uma chacoalhada, pra refrescar o mercado. Existem compositores da nova safra extremamente talentosos, e isso deve ser divulgado. O espaço é a gente que faz. Somos contadores de histórias, divulgadores da poesia, reverenciamos o que é belo e verdadeiro para cada um de nós, os artistas da vida”, diz Simone.

No caso, a escolha foi pelo tema da dor, do sofrimento e da superação. “Eu, no meu universo particular, afirmo que toda dor guarda um presente, uma libertação, um movimento, uma porta aberta, um sentido. A dor se transforma em muitos, é dela que se extrai a beleza de um verso, a inspiração para uma bela melodia. Felicidade também dói, porque este amor não cabe dentro do pequeno espaço de nós mesmos. A dor salva vidas. A dor é humor. A dor humaniza. A dor também é amor”, afirma.

Com letras que mergulham nos sentimentos humanos e melodias que também evocam tais sensações, E Toda Dor que Sofri será Canção figura entre bons lançamentos de samba feitos por jovens, cuja maturidade os faz valorizar os antigos, bem como os garotos do Trio Gato com Fome, de São Paulo, ao resgatar sambas rurais de Raul Torres. Ambos são artistas da nova geração que lutam para a consistência do samba, seja urbano ou rural, no alto nível.