Publicado 05 de Setembro de 2015 - 19h05

Alguém achar determinada mulher absurdamente linda não implica que esteja, necessariamente, apaixonado por ela. Mas é possível também que, em tal situação, o admirador acabe por ficar numa espécie de limite que pode ser contido pelas circunstâncias da vida. Dentro deste contexto, sempre que Pawcon depositava os olhos sobre Jacylene sentia que todos os seus neurônios fremiam. Fazendo com que depositasse sobre a fascinante criatura olhares úmidos, encharcados, gotejantes da mais total e absoluta fascinação. E certamente o limite que fazia essa admiração ficar contida em consistentes barreiras era o fato da bela criatura ser casada com Norbertino, o melhor amigo de Pawcon.

O fato aconteceu numa dessas tardes não programadas em que os dois parceiros se encontraram por puro acaso no Centro de Convivência e resolveram derrubar uma cervejinha no City. Faziam exatamente isso quando, na mesa do lado, sentam algumas pessoas, entre elas duas moças. Foi então que, inesperadamente, Norbertino murmurou entredentes, colocando a mão em concha no canto da boca:

— Você viu que figura linda? Como outro vacilasse ao olhar, veio o detalhe:

— A loura. Viu que beleza?

Esse episódio simples, corriqueiro, comum, mixuruca, fez, porém, detonar algo dentro de Pawcon. Pois ali mesmo, diante dos copos cheios e suados, teve ímpetos de dizer ao amigo algo como “enlouqueceu, cara? Com a maravilhosa esposa que tem dentro de casa você fica aqui olhando para outra mulher que não chega sequer nos calcanhares da sua”?

Daí em diante, como se uma bactéria emocional tivesse sido inoculada dentro do seu cérebro, o rapaz passou a desenvolver raciocínios exóticos quanto ao comportamento de Norbertino relativamente à esposa. Acentuando-se, até, espécie de aversão a que o camarada sequer olhasse para alguma beldade que por acaso passasse.

Foi dentro deste contexto que estando certa manhã de sol no clube, Pawcon viu o amigo chegar com Jacylene. Mal colocou os olhos sobre ela, sentiu-se tomar pelo fascínio que o inundava sempre que a observava. Pouco depois, quando ela foi ao vestiário e voltou a envergar um fio-dental mínimo, exíguo, quase diria microscópico, nosso amigo segurou com as duas mãos as bordas da cadeira em que estava sentado, como se temesse, de repente, primeiro flutuar; para, depois, subir ao espaço como um foguete faminto daquele céu a cobrir instante divinamente ensolarado. E pensou, pela primeira vez: ”Se um dia esse camarada trair essa mulher, eu o mato. É meu amigo, mas eu o mato!”

Numa outra ocasião, no Shopping Galeria, viu de longe Jacylene encostada a um balcão na espera do cafezinho. No que para ela se dirige, outro sujeito chega primeiro e começa a trocar algumas palavras com a criatura. Sentindo o corpo fremir, Pawcon vai com tudo em cima do camarada, com os punhos cerrados para dar um murro na cara do que supunha ser um desses paqueradores de esquina. Arqueja, dirigindo-se ao fulano:

— O que é isso? Não está vendo a aliança? Não está vendo que a moça é casada?

— Mas... – O moço, espantado, arregala os olhos.

Jacyrene, porém, intervém:

— Calma lá, calma lá, gente, o Jayminho é apenas o vendedor que sempre me atende ali na livraria...

Assim ia correndo a vida até que, certa manhã, o celular de Pawcon toca. Era Norbertino, com a voz alteradíssima:

— Preciso falar com você.

— O que aconteceu?

— Só posso te dizer pessoalmente. É uma questão de vida ou morte.

— Mas estou no escritório... É hora de expediente...

— Preciso de você. Vá àquele barzinho da árvore, na Chácara da Barra, por favor... Agora! Já!

Meia hora depois, quando Pawcon chegou, o amigo estava sentado diante de uma dose de uísque e foi logo contando, antes que o outro sentasse:

— A Jacylene me deixou. Me abandonou.

— O que?!?! Você enlouqueceu?

Dito isto senta, com a boca entreaberta e a vista subitamente turva. Pega, com as mãos trêmulas, a dose que acabaram de servir; dá um gole. Arfa:

— E como foi isso, rapaz?

— Apenas – a voz de Norbertino sai embargada – o perigo estava na casa ao lado e eu nunca percebi.

— Não me diga que ela fugiu com o vizinho?...

— Não, foi com a vizinha, a mulher dele... Que, aliás, é a cara da Daniela Mercury...

— Nesse instante, em prantos, com lágrimas correndo em catadupas, os dois se abraçam. Pintando, de repente, um longo, interminável beijo na boca. No dia seguinte, já estavam morando juntos. E todos, rigorosamente todos, foram felizes para sempre...