Publicado 04 de Setembro de 2015 - 19h05

[CR_TXT_3LINH]João Nunes[/CR_TXT_3LINH]

[CR_TXT_PROCE]ESPECIAL PARA O CORREIO[/CR_TXT_PROCE]

Por que Blade Runner, o Caçador de Androides (Blade Runner, Estados Unidos, 1982), de Ridley Scott, sobreviveu ao tempo? Poderia não ter sobrevivido. A Los Angeles de novembro 2019 — daqui a quatro anos — se supõe, não será igual ao mundo retratado pelos roteiristas Hampton Fancher e David Peoples (livremente baseado no romance Do Androids Dream of Electric Sheep?, de Philip K. Dick.

A chuva que nunca para, a convivência forçada (num espaço restrito) de tantas etnias, a insegurança, as naves no papel de carros sobrevoando uma estranha cidade, a anticomunicação dos onipresentes outdoors em movimento, a multidão se acotovelando em lugares inóspitos, a angústia que parece pairar naquele ambiente escuro e caótico.

Contudo, algo desse cenário virou profecia, como a superpopulação e a globalização; talvez a angústia e o caos em lugares específicos ou os choques de etnias e a insegurança — demonstração de que o filme envelheceu muito bem e por razões consistentes. Outra é a questão filosófica relativa à morte e válida desde os nossos primórdios. E inquieta o porquê de os androides quererem ser humanos? Por que não, deuses? Deuses, eles teriam o poder sobre a morte? E por que querem uma sobrevida, igual anseio da humanidade, se todos nós vamos morrer? Ao matar o criador, Rutger Hauer (Roy Batty) demonstra poder sobre alguém tão humano como nós e expõe o tamanho da finitude dele e da nossa, pois a duração máxima de um androide seria de quatros anos. A humana, passa dos oitenta, mas, segundo o salmista bíblico, depois disto é canseira e enfado. Então, por que a luta inglória por tentar superar a morte ou adiá-la?

A discussão sobre a transcendência sustenta o filme e o fez ultrapassar três décadas. Note a lucidez do diálogo entre criador e criatura. “Você não foi feito para durar, mas é o mais brilhante”, diz Tyrell (Joe Turkell) — e o chama de filho pródigo. “Eu quero mais vida, pai”, se desespera o androide. Ou a citação descartiana de Pris (Daryl Hannah): “Penso, logo existo”.

Mas há outras razões. Se o protagonista Rick Deckard não fosse Harrison Ford, teria de ser Harrison Ford. Este encarna brilhantemente o sujeito que não suporta o trabalho que faz; com cara de tédio, aceita relutante uma missão para a qual não tem a menor simpatia, mas é o que faz dele um herói sem poderes sobrenaturais, porém, profundamente humano.

E, sim, há uma dívida com Rachel (Sean Young), mas a cumplicidade de Deckard desde o início com ela prenuncia o olhar humanista dele — belíssima a cena em que, tomando uísque sozinho, descobre-se atraído por aquela estranha mulher, como se dissesse: “me perdi”. Afinal, a missão era caçar androides.

E tem a trilha de Vangelis. As trilhas sonoras tom pastel dos blockbusters atuais parecem feitas dentro de uma fórmula milimetricamente pensadas e executadas. O resultado? Todas iguais. Ou quase.

Vangelis arrebata logo na abertura espetacular; a música cria atmosfera que casa à perfeição com o cenário futurista proposto por Scott. E tem espaço para as tão importantes pausas (respiros que também são música), e tons e instrumentos distintos como protagonistas — música com personalidade, com sentimento.

Blade Runner foi um quase fracasso. Recebeu críticas ruins, teve pequeno lucro, foi esnobado nas premiações, mas alcançou outro status ao longo do tempo: virou cult absoluto. Difícil não revê-lo (e na tela grande) sem ser tocado por ele.