Publicado 10 de Setembro de 2015 - 5h30

As autoridades sanitárias de Campinas registraram 869 ataques de animais peçonhentos (cobras, aranhas, escorpiões e taturanas) nos últimos três anos, o que dá uma média de 289 ataques por ano. Em 2014, a cidade registrou o menor número de acidentes envolvendo moradores da zona urbana dos últimos anos, com 239 registros. O recorde foi em 2012, com 370 casos. Comparados os números do ano passado com 2013, quando foram notificados 260 acidentes, a queda foi de 8,7%. De 2012 para 2014, a queda foi bastante expressiva, de 35%.

Para a chefe da Coordenadoria de Vigilância de Zoonoses de Campinas, Tosca de Lucca Benini Rezende, essa redução não expressa a realidade porque há muita subnotificação. Muitas pessoas são picadas e não procuram atendimento médico, situação comum em área rural. Tosca explica que, na lista de animais peçonhentos, estão até lagartas venenosas e abelhas. “É pouco comum que uma pessoa picada por uma quantidade reduzida de abelhas vá procurar o posto de saúde”, exemplifica.

Outro motivo apontado por ela para a expressiva queda das notificações é a grande estiagem que afetou a região no ano passado, o que fez com que houvesse menor circulação de peçonhentos. Especialistas apontam que nos meses mais chuvosos e de forte calor é maior a circulação desses animais, que buscam proteção e alimentos nessas épocas.

A coordenadora disse que, quando a pessoa sofre um acidente, procura uma unidade de saúde e é constatada a gravidade ou atenção no caso, o paciente é encaminhado para o Centro de Controle de Intoxicações (CCI) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para receber o soro e demais procedimentos médicos.

A chefe da coordenadoria informou que não dispõe de números tipificados por animais para se saber qual deles provoca o maior número de acidentes registrados oficialmente em Campinas. “Não temos esse levantamento, mas acredito que sejam os escorpiões, seguidos de aranhas e cobras”, estimou. A reportagem tentou obter os dados na CCI, porém, a assessoria informou que teria que fazer um levantamento para fornecer as informações.

Escorpiões

No caso de ataques de escorpiões, um dos mais temidos, há necessidade de evitar acúmulo de lixo, sujeira, ralos abertos, muita umidade no ambiente, janelas e portas abertas próximas a matas e restos de materiais de construção, além da presença de baratas, que é o alimento principal desse bicho.

A atenção, em caso de picadas de cobras, aranhas ou escorpiões, é redobrada para crianças abaixo de 7 anos, idosos e pessoas com doenças cardíacas ou outras patologias consideradas graves.

“As cobras, como cascavel e coral gostam muito de área de matas e são encontradas muito em APPs em Campinas. As aranhas armadeiras são encontradas em jardins e as lagartas adoram coqueiros e palmeiras. As picadas dessas lagartas são muito dolorosas e a atuação do veneno é equiparada a do escorpião, podendo haver necrose no tecido atingido”, alertou.

Cozinheira picada guarda ‘coleção’ com 40 escorpiões

Prova que os campineiros vivem correndo riscos de acidentes com animais peçonhentos em plena zona urbana é a história da cozinheira Márcia Roberta Freire, de 39 anos, moradora da Rua Abolição, perto do Cemitério da Saudade.

Ela, que reside num casa bem antiga nos fundos do sepulcrário, disse que já foi picada por um escorpião amarelho no Réveillon do ano passado e que a dor foi tão intensa que teve que buscar atendimento no CCI da Unicamp. “Não desejo isso nem para o meu pior inimigo”, disse, sobre a dor da picada. “Chorei muito e achei que iria morrer.”

A invasão de escorpiões na casa da cozinheira é tão grande que ela guarda 40 deles, todos mortos, num vidro com álcool, e disse que não vai juntar mais porque cansou. “Agora eu mato e jogo no lixo.” A vizinha da cozinheira, a técnica em enfermagem Andréia de Araújo, de 40 anos, afirmou que já encontrou escorpiões em seu quintal e sabe que é dificil o controle desses bichos. “Eles sobem o muro, mas graças a Deus ninguém ainda foi picado.”

O biólogo Fábio Terassini disse que as pessoas atacadas por animais peçonhentos podem vir a óbito se não buscarem atendimento médico adequado. O especialista orienta que não se deve manipular os animais peçonhentos com as mãos porque eles irão picar ou morder para se defender e, se tiverem veneno, podem levar à morte. “Se ocorrer um acidente, fique calmo, lave o local com água e

sabão e siga o mais rápido possível para o hospital,

pois o tempo é fundamentar para evitar o agravamento do acidente. Quanto mais rápido procurar atendimento, melhor. O que não se deve fazer é amarrar o local, fazendo o conhecido garrote porque isso só irá piorar ou agravar o acidente. Somente o soro que deve ser administrado por uma equipe médica no hospital irá salvar a vida do acidentado”, recomenda. (LS/AAN)