Publicado 10 de Setembro de 2015 - 5h30

Negão dá as patas para o dono Olívio Yamamoto e fica olhando fixamente para o seu rosto. A todo o momento lambe as suas mãos e se enrosca entre as pernas do vendedor. O cão parece estar querendo matar a saudade do dono, que ficou a semana passada internado na Santa Casa de Itatiba, após sofrer um enfarte. Yamamoto retribui os carinhos alisando a cabeça do animal, o chamando de herói a todo instante. E Negão pode ter contribuído, e muito, para que o senhor japonês de 68 anos esteja vivo, contando hoje essa história semelhante às retratadas nos filmes de Hollywood.

Negão está passando uma semana de notoriedade nacional. Afinal, ficou conhecido por ter ficado perambulando, em “vigília” no estacionamento do hospital, durante os sete dias em que Yamamoto permaneceu sob cuidados médicos. O cão, uma mistura de labrador com pitbull, “ajudou” duas vezes o comerciante a seguir adiante na estrada entre Bragança e Itatiba, enquanto Yamamoto sofria um enfarte, no dia 30 de agosto.

“Eu senti uma dor muito forte no peito. Parei o carro e abri a janela. Falei: Negão, vá embora, chegou a hora de você ir, estou morrendo”, lembra o senhor japonês, que mora sozinho e diz não ter nenhum parente. Mas, não. Em vez de fugir, Negão pulou para o banco da frente e, além de uivar muito, como se estivesse clamando por ajuda, lambia a face do dono e com as duas patas dianteiras batia em suas costas.

“Minha pressão subiu demais e fiquei com pouca visão. Depois da primeira vez que ele me lambeu, Eu dei uma despertada e continuei dirigindo”, recorda-se.

Yamamoto saiu da chácara onde vive de favor em Bragança Paulista, por volta das 20h, e no meio do trajeto até Itatiba sentiu as fortes dores no peito. Depois da primeira parada e reanimada estimulada pelo animal, tornou a parar o veículo Monza novamente, faltando 10km de Itatiba. “Não estava conseguindo dirigir. Negão de novo me empurrava e lambia. Passei um tempo estacionado e ele sempre comigo, sem sair do carro.”

De acordo com os médicos que o atenderam, saber que o cachorro de estimação estava ali perto pode ter ajudado na recuperação de Yamamoto. A recuperação, apontam, foi muito rápida. E para garantir a permanência de Negão no estacionamento funcionários do hospital improvisaram um cantinho onde deram água e comida para o animal. No dia da alta do dono, o cão correu ao seu encontro e o momento emocionou a todos.

Comoção

A história de Yamamoto e de Negão comoveu Itatiba. No hospital, por onde passam, os dois inseparáveis amigos recebem cumprimentos. Ontem, o senhor voltou à Santa Casa onde iria, junto com assistentes sociais, pleitear uma operação do coração em um hospital da Capital. Ele também aproveitou para uma consulta que analisaria seu problema de gota no joelho esquerdo, que o faz mancar muito.

Mas antes de entrar para ser atendido, passou boa parte da manhã no boteco da comerciante Maria das Graças Feritas, de 66 anos, que fica ao lado da Santa Casa. Yamamoto e Graça se conhecem há pelo menos dez anos.

O japonês teve um brechó de roupas vizinho ao boteco, e morou na sua loja durante 4 anos — tempo em que o animal também viveu os primeiros anos de vida ao lado do dono, de Graça e da cadela Belinha, hoje coadjuvante na história em que Negão roubou a cena.

“No período em que ele ficou internado, o Negão também vinha aqui no bar, porque já me conhece. A gente o alimentou bastante antes do Olívio Yamamoto deixar a cidade para ir morar na chácara”, contou Maria das Graças.