Publicado 10 de Setembro de 2015 - 5h30

O drama da família síria que vive em um apartamento alugado praticamente vazio no Centro de Campinas, mais uma vez, mostrou que o coração solidário das pessoas é maior do que os horrores de uma guerra. Muitos leitores entraram em contato com o Correio ontem para oferecer todo o tipo de ajuda.

A reação ocorreu após a publicação de uma reportagem sobre a difícil situação dos refugiados na cidade. São oito sírios dividindo o mesmo espaço, entre eles duas crianças pequenas. Todos sem trabalho. Na próxima semana, quando o contrato de locação vence, o grupo terá que deixar o lugar porque não tem condições de bancar a conta de R$ 1.275,00 mensais apenas com a moradia. Eles buscam, acima de tudo, oportunidades de emprego e um local com aluguel mais barato.

Entre os estrangeiros ainda há uma grávida no sexto mês de gestação. Engenheira agrônoma em sua terra natal, a síria Mays Arade tem feito o acompanhamento pré-natal no Centro de Saúde da região central, mas não tem peças de roupas, fraldas, berço e outros utensílios para quando chegar a menina que espera. Ela veio há quatro meses e desembarcou com o marido, Fadi Alturk, e com a simpática filha de 3 anos, Lina Fadi Alturk, que mesmo pequena e com pouco tempo na região, já arrisca palavras em português e serve como uma “intérprete” dos pais por aqui. Essa família já encontrou um novo endereço para viver — com um valor mais acessível — a partir dos próximos dias, mas os outros ainda não.

Issa Alturk e Roula Barbar, que tiveram no Brasil o pequeno Diego, de 11 meses, chegaram ao País no ano passado apenas com a roupa do corpo e também sem falar uma palavra em português. Hoje, já conseguem se comunicar melhor, mas sofrem com a incerteza do desemprego. Dois primos — Jouny e Elias — também procuram uma chance para sobreviver com as próprias pernas e aprender a língua local o mais rápido possível.

Todos ali fugiram da morte quase certa na Síria, destruída por um conflito que se desenrola desde 2011. “Queremos, principalmente, trabalho. As outras coisas, como comida e móveis, são importantes, mas é um emprego que vai nos sustentar de verdade aqui”, comentou Issa.

Vagas

A sorte do grupo pode mudar nas próximas semanas. Algumas pessoas, como o empresário Gilson Gomes de Oliveira, sócio regional da rede de restaurantes Outback Steakhouse no Interior paulista, se mostrou interessado em absorver a mão de obra, se não de todo o grupo, de pelo menos boa parte dele. Ele responde por todas as casas que a marca tem em Campinas. “Vamos conversar e ver o que é possível. A princípio, pela quantidade de casas na cidade, temos condições de receber todos aqui”, afirmou, em um contato inicial, mas muito bem-vindo.

O aposentado Miguel Elias Aquim e sua mulher, Cleusa, que ajudam os filhos a administrar a Cantina do Zuza, no Bosque, também ofereceram trabalho, principalmente para Issa, que é auxiliar de cozinha. “Sou filho de imigrantes sírios e temos muito contato com a comunidade árabe daqui, por isso, quando vimos a reportagem no jornal, decidimos oferecer apoio”, disse Aquim.

De Valinhos, Rodrigo Daniel Almeida, diretor-comercial da empresa Carton Box, especializada na produção de embalagens de papelão, foi outro que acenou com oportunidades de emprego. “Estamos com dificuldade em manter funcionários por um longo tempo e se pudermos contar com pessoas que tenham interesse em se dedicar à empresa seria muito bom para nós também. Podemos tentar, se não for possível que eles trabalhem aqui, posso fazer contato com amigos de outros lugares”, adiantou Almeida.

Outras pessoas fizeram contato oferecendo cestas básicas e móveis, por exemplo. Todos com o coração aberto e a vontade de mostrar para esse grupo de sírios que o Brasil também é a sua casa.