Publicado 08 de Setembro de 2015 - 5h30

A experiência do professor Rodrigo Neris, no Centro Municipal de Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos (Cemefeja) Pierre Bonhomme, na Vila Industrial, mostra que é possível envolver os conteúdos da disciplina de artes com inclusão social e a discussão sobre o respeito às diferenças. Trabalhando o conteúdo sobre grafite como expressão artística, ele acabou envolvendo a turma num projeto muito maior que abordou a experiência da deficiência visual, a partir da necessidade de uma estudante.

A princípio, a abordagem sobre inclusão não estava no roteiro. O objetivo inicial era só trabalhar com os alunos – que, como estão no ensino de jovens e adultos, têm idades muito variadas – a diferença entre fazer pichação e grafitagem e como essa segunda forma de expressão está presente na história da arte desde o período das cavernas, já que encontra semelhança, no suporte que utiliza, com as pinturas rupestres.

No entanto, bastou a entrada da aluna Aline Rodrigues dos Santos, cega congênita, para os planos serem alterados. “Eu já tinha uma experiência com uma estudante com deficiência visual, para quem dei aula em 2013. Na época, trabalhei muito com a adaptação de materiais e isso serviu para impulsionar o trabalho desenvolvido agora”, relata o professor. Entre as experiências que naquele momento marcaram o trabalho de Neris, ele conta a tentativa de transformar tudo em alguma forma de textura para que, dentro do universo da cegueira, a aluna pudesse compreender as manifestações artísticas. “Lembro-me de que precisei criar alguma maneira de mostrar, por exemplo, o que era uma árvore e sua representação imagética numa pintura. Mas como fazer isso se um cego jamais pode tocar a planta por inteiro por causa do tamanho? Então, levei bonsais de dois tipos para que a aluna pudesse tocá-los e perceber o que era uma árvore e também que havia diferentes formatos”, conta o professor, referindo-se às miniaturas de plantas, cultivadas de acordo com técnica oriental milenar.

Passo a passo

O trabalho começou com música. Neris explicou à turma que existe uma relação grande entre as manifestações em espaços populares, como é o grafite, e gêneros como o rap e o funk. Como essas atividades, em geral, são marginalizadas ou alternativas aos padrões consolidados socialmente, a discussão conseguiu dar conta também de temáticas como a relação do artista com a mídia e o mercado, além da questão da liberdade de expressão. A trajetória pela história da arte para falar do desenvolvimento do grafite envolveu nomes como o brasileiro Cândido Portinari (1903-1962) e o mexicano Diego Rivera (1886-1957), famosos também pelas pinturas em espaços públicos. “Abordando a história, foi possível mostrar como o grafite teve diferentes funções e inspirações durante os diversos períodos”, explica Neris.

Mesmo sendo uma turma de alunos já adultos, a chegada de Aline, de 25 anos, gerava, ao mesmo tempo, curiosidade e preocupação. O primeiro sentimento era devido à diferença, o interesse dos colegas em saber como seria estudar artes plásticas com alguém que nunca enxergou. Como seria falar sobre cores? Essa era apenas uma das muitas perguntas que se faziam. Já a preocupação derivava da dificuldade de os alunos em saber como agir com a aluna que acabara de chegar.

Em contato com a professora de educação especial da escola, Márcia Maria de Castro, Neris teve a ideia de falar sobre deficiência visual à turma, contar a experiência que havia tido dois anos antes com outra aluna na mesma condição e pediu à própria Aline que falasse sobre autonomia e o que ela entendia por arte. Com a atividade, começaram a surgir vários desdobramentos. Numa das aulas, os alunos foram vendados e Aline os auxiliava a se locomover, tatear imagens e percebê-las, exatamente para que experimentassem algumas das sensações habituais para ela.

Depois, começou um período de produção tridimensional, com releitura de obras de arte, feitas com materiais como barbantes para os contornos e, para isso, a equipe ganhou mais um reforço, a professora Cássia Freitas Alves, responsável por uma sala específica para os recursos pedagógicos diversos na escola e especialista em trabalhos como pessoas com deficiência visual. “Tudo isso foi muito interessante, pois houve uma troca de experiências entre a minha forma de enxergar as coisas e as dos colegas. Aprendemos todos com essas diferenças”, conta Aline.

Para o professor, a atividade só fez crescer a proposta inicial. “A experiência foi super-representativa para a sala de aula e para mim, como educador, pois houve um diálogo entre universos culturais, sem reducionismo. A certa altura, estávamos tentando fazer relações entre as sensações oferecidas por uma cor a quem enxerga e o que formas e texturas materializam para quem é cego. Tudo isso a partir de uma discussão inicial sobre grafite. Pela necessidade de descrever as obras que avaliávamos, os alunos também ficaram mais atentos aos detalhes”, avalia Neris.

Morador de bairro afastado tem dificuldade em ser atendido

Mesmo com o número de médicos acima de muitas capitais, a população sofre com a carência de profissionais, principalmente nas regiões mais afastadas. O tempo de espera nos hospitais municipais e prontos atendimentos é alto e obriga a população a passar horas aguardando na fila para ser atendida. Para agravar a situação, hospitais como Ouro Verde e Mário Gatti são instituições “portas abertas”, portanto, absorvem a demanda da Região Metropolitana de Campinas (RMC). É comum que moradores de cidades vizinhas venham até a cidade passar por atendimento médico. Moradora do DIC, a estudante Kelly de Freitas, de 17 anos, passou mais de três horas para ser atendida por um ortopedista na última sexta-feira no Hospital Ouro Verde. “Eu acho que faltam médicos, porque demora muito para ser atendido. Não é suficiente, às vezes preciso ir no posto de saúde, tem dia que não tem remédio”, disse.

Já a aposentada Emiliana Joana da Silva, de 78 anos, também passou por atendimento de emergência no Ouro Verde na sexta-feira. Apesar das horas que esperou por atendimento, ela elogiou o médico que a atendeu. “O atendimento foi rápido, mas ele examinou direitinho. Fui no pronto-socorro, mas só davam um remedinho e tinha que voltar”, afirmou.

O clínico-geral Diogo Vinicius dos Santos, de 29 anos, trabalha há seis meses no Hospital Ouro Verde e acredita que a quantidade de médicos nos prontos-socorros da rede municipal tem crescido, mas defendeu uma mudança no modelo, valorizando a atenção básica. “Tivemos um aumento de médicos nos prontos-socorros. Temos uma demanda extremamente alta de pacientes, não é questão de faltar médicos. Temos quatro médicos, mas são três consultórios. Essa população vem para cá porque a rede básica não consegue dar conta da demanda. Nosso modelo de saúde, muito hospitalar, não é resolutivo”. (Colaborou Janaína Ribeiro).