Publicado 08 de Setembro de 2015 - 5h30

Políticos costumam ter verdadeira ojeriza por temas polêmicos e comprometedores de sua imagem perante os eleitores. A absoluta franqueza na defesa de suas propostas e pontos de vista é artigo raro nos parlamentos, onde os pronunciamentos costumam ser um interminável rame-rame de declarações otimistas e cuidadosamente preparadas para construir uma imagem aceitável pela sociedade. Daí que a discussão sobre os vencimentos a serem pagos aos políticos é sempre inconveniente, geralmente articulada fora dos holofotes da opinião pública e, em alguns casos, cercada de subterfúgios.

Na Câmara de Vereadores de Campinas o tema é tratado com todo cuidado. Nenhum parlamentar defende abertamente o reajuste de salários, mesmo admitindo considerar o pagamento injusto ou insuficiente. Certamente, todos estão devidamente vacinados com o episódio de quatro anos atrás, quando houve tentativa infeliz de reajuste de 126%, aprovada na Casa e depois retirada após a pressão da sociedade e a proximidade da eleição de 2012. Atualmente, cada vereador recebe R$ 9,2 mil de salário e mais R$ 52 mil de verba de gabinete. Existe uma predisposição de trazer o assunto à baila, como forma de corrigir os valores pagos, partindo de comparação com municípios do mesmo porte de Campinas (Correio Popular, 5/9, A8). Dos vereadores abordados, pode-se inferir que a crise política e econômica do País cria um ambiente insustentável para se levar a discussão a termo, todos preferindo uma oportunidade menos prejudicial à imagem pública.

É alvissareiro que os vereadores campineiros tenham a sobriedade de considerar a situação grave que a Nação vive, reconhecendo a impropriedade de trazer um tema que somente faria aumentar a rejeição pela classe política. Mesmo a conveniência de se fazerem pagamentos é questionada, até porque os parlamentares municipais sequer precisam se afastar de suas atividades profissionais, podendo exercer seu mandato conciliando seu trabalho particular e público.

É importante que atitudes com essa se sedimentem e comecem a determinar um novo padrão de gestão dos recursos públicos. São inaceitáveis os abusos que muitas vezes se cometem, com concessão de benefícios e mordomias indevidas — quando não imorais—, que se refletem na “profissionalização” do político brasileiro, de quem já não se pode esperar total desprendimento pessoal e compromisso com a seriedade do cargo exercido, em respeito ao voto de cada cidadão.