Publicado 08 de Setembro de 2015 - 5h30

Quando requeri minha aposentadoria, um burocrata de plantão exigiu a apresentação de um determinado papel. Para me defender recorri a uma velha crônica de Rubem Braga na qual ele conta um fato ocorrido na Câmara de Vereadores de São João de Meriti.

Morreu um vereador e seu suplente quis tomar posse. O presidente exigiu dele a certidão de óbito do falecido. O suplente pediu para apresentar o documento depois, mas o presidente foi inflexível: posse só depois de provada a morte. — O morto foi velado neste recinto, o enterro saiu desta sala, Vossa Excelência segurou uma das alças do caixão, argumentou o suplente.

Todos os argumentos eram afastados pelo presidente que repetia a mesma frase: — A prova do falecimento é a certidão de óbito!

Alguns servidores públicos amam o papel, mas meu recurso foi provido.

As crônicas de Rubem Braga continuam atuais e, em uma outra, disse ele: “Conhece o vocábulo escardinchar? Qual o feminino de cupim? Qual o antônimo de póstumo? Como se chama o natural do Cairo? O leitor que responder não sei a todas essas perguntas não passará provavelmente em nenhuma prova de Português de nenhum concurso oficial. Mas se isso pode servir de algum consolo à sua ignorância, receberá um abraço de felicitações deste modesto cronista, seu semelhante e seu irmão. Porque a verdade é que eu também não sei. Confesso que escrevo de palpite, como outras pessoas tocam piano de ouvido. De vez em quando um leitor culto se irrita comigo e me manda um recorte de crônica anotado, apontando erros de português. Um deles chegou a me passar um telegrama, felicitando-me porque não encontrara, na minha crônica daquele dia, um só erro de português; acrescentava que eu produzira uma página de bom vernáculo, exemplar. Tive vontade de responder: — Mera coincidência, mas não o fiz para não entristecer o homem.”

Assim era Rubem Braga e quando ele confessa que escrevia de palpite, como outras pessoas tocam piano de ouvido, lembro-me do Lula, quando era presidente. Ele tocava violino de ouvido e de uma forma muito engraçada. Segurava o instrumento com a esquerda e tocava com a direita. Algumas notas ele não conseguia produzir em razão da falta do dedinho que perdeu no único emprego que teve.

Quem vive de escrever tem que saber o vernáculo, mas às vezes isso também não funciona. Certa vez eu usei a expressão “experto”. Tenho dois amigos que são expertos, o Athaide e o Dourado que exercem a profissão de peritos. Todavia, o revisor trocou a expressão por “esperto”. Nem reclamei, porque eu me referia ao Lula e a frase ficou muito mais perfeita.

Os gramáticos desejam tornar a nossa língua portuguesa odiosa; não alguma coisa através da qual as pessoas se entendam, mas nem por isso devemos aceitar que o feminino de presidente é presidenta.