Publicado 06 de Setembro de 2015 - 5h30

Luis Carlos dos Santos e Dorival Marques de Oliveira não se conhecem, mas tomaram a mesma decisão para suas vidas. Ex-moradores em situação de rua de Campinas, hoje encontraram, principalmente na religião, o combustível que mantém acesa a vontade de queimar dia após dia os arquivos de um passado permeado pelas drogas. Luis tem 39 anos e viveu nas ruas durante quatro. Dorival completou 54, sendo dois deles no fundo do poço. Luis deixou as ruas de Campinas há seis meses e hoje rege uma orquestra com mais de 80 integrantes em uma igreja de Pedreira, cidade onde está internado. Dorival chegou da Bolívia há poucos dias, onde ficou mais de três anos desempenhando um trabalho como missionário de uma comunidade evangélica, convencendo mais pessoas a deixarem as ruas.

O primeiro a ser encontrado pelo Correio foi Dorival. A reportagem fazia matéria sobre a quantidade de moradores que voltaram a frequentar a Praça Felipe Selhi, ao lado do Terminal Central, quando um senhor de cabelo grisalho, com andar ágil, caminhou até a equipe e perguntou que assunto estava sendo abordado. Logo que descobriu, disse que precisava dar seu testemunho e por que estava a caminho da praça naquela manhã.

Dorival vestia uma camiseta cujo símbolo no peito era uma família de mãos dadas, e nas mãos levava uma Bíblia. “Sou um ex-morador de rua.” Foi a primeira frase que pronunciou. “Morei nesses arredores durante dois anos da minha vida. Minha moradia era debaixo da ponte da Avenida Aquidabã, onde passa a General Carneiro”, indicou com um dos braços. O ex-morador de rua não foi viver longe de onde trabalhou durante 15 anos. Vendedor do comércio informal e dono de uma das mais frequentadas barracas do camelódromo, ao lado do Terminal Central, Dorival despencou no crack assim que seu casamento chegou ao fim.

Relembra que tragou pela primeira vez uma pedra ali mesmo na Felipe Selhi, que na época era chamada de Quebra Ossos, poucos dias depois de sua ex-mulher o ter deixado. Sua barraca no camelô foi ficando para trás, e de repente fechou. Filhos do casamento, Sara e Samuel ainda eram pequenos e não compreendiam o momento pelo qual o pai passava. “Usava crack nessa escada”, apontou para a entrada da Ceasinha. “Passei dois anos nas ruas. Uma verdadeira depressão profunda, piorada pelo grande consumo de crack”, relembra.

Naquela época, Dorival acreditava que a família não iria resgatá-lo de uma condição que somente ele poderia sair, como diz. Segundo ele, uma outra “família” o encontrou na sarjeta, lhe estendeu as mãos e ele aceitou. Eram os missionários do Centro de Reabilitação e Integração Social Resgate de Vidas, comandado por uma igreja evangélica que desempenha um trabalho com dependentes químicos e população em condição de rua.

Dorival aceitou as regras do centro, firmou a cabeça e em pouco tempo ganhou a missão de integrar o grupo que partiria para a Bolívia, com a dura tarefa de retirar das ruas daquele país pessoas que viviam na mesma condição que ele.

“Fui muito bem recebido pelo pessoal da Casa de Oracion do Projeto Cerdas (Casa de Oração Deus é Amor) e durante três anos e meio realizei um trabalho com centenas de moradores de rua naquele país, contando minha experiência de vida e os chamando para saírem daquela condição”, disse Dorival.

Com a colaboração de uma empresa de ônibus parceira do projeto Cerdas, de Corumbataí (SP), chegou a Campinas para rever como estava o reduto onde morou por dois anos. “Triste ver essas pessoas. Mas na condição alcoolizada em que estão é difícil uma abordagem de convencimento. Eu sei porque já passei por situação igual, não queria escutar nada. A pessoa tem que estar com um pouco de sobriedade para manter um diálogo”, reconhece Dorival.

As duas casas, carro, moto e um terreno que conquistou com o trabalho de comerciante informal foram para as mãos dos filhos. E, após sua visita à Praça Felipe Selhi naquela manhã, disse à reportagem que visitaria a filha na sua banca de camelô, retomada por ela e mais funcionários. “É um reencontro que prefiro ter a sós com ela”, pediu. Em todo esse tempo, o contato com os filhos não foi estabelecido e ele tenta agora uma reaproximação após o exílio espiritual.

Glória

“A vida é baseada em escolhas. Fui parar nas drogas porque não soube fazer escolhas para minha vida. Eu acreditava que pedir e obter as coisas era mais fácil. Mal sabia que eu só estava perdendo com isso.” O relato de Luis Carlos dos Santos, de 39 anos, revela hoje a profunda análise que faz de si mesmo. Até seis meses atrás era impensável ele se autoavaliar, quando foi resgatado das ruas de Campinas em situação lamentável. Foram longos quatro anos embrenhados no crack, vivendo debaixo da ponte da Rodovia Anhanguera, na Avenida das Amoreiras, e perambulando atrás do sustento do vício.

A reportagem foi ao encontro do ex-morador em condição de rua em Pedreira, cidade onde desde o início do ano vive na instituição filantrópica Carisma. Com 16 quilos a mais, Luis está vencendo a cada dia a batalha da recuperação, e talvez não saia tão breve do local que abriga 29 moradores de rua e dependentes químicos. Luis, que em vez do antigo apelido “Magrão” hoje é chamado de “O Glória”, tornou-se monitor da instituição, e se considera um espelho para os demais que chegam com o propósito de mudar de vida.

Além disso, lá dentro do Carisma, Luis descobriu como a música pode transformar o homem. Tocador de saxofone no passado, hoje Glória rege a orquestra do Carisma na Assembleia de Deus Ministério Belém de Pedreira, com 80 músicos. Como aprendeu a técnica, Luis dá a sua sincera explicação: “Não esperava que um dia iria reger, mas um mês de casa e comecei a obter esse tipo de influência. Reger é algo em que você se deixa transparecer. Deus me deu essa graça de poder passar pelos meus gestos carinho, amor, benignidade para as pessoas. Um dia me falaram que eu poderia se eu quisesse. Isso é o querer”, disse.

Luis trabalhou como motorista de ônibus, de caminhão e como avalista de joias de um banco durante seis anos. Foi nessa época como bancário que, segundo ele, encontrou o crack. “Estava em um restaurante, passaram dois adolescentes que eram conhecidos e disseram que iriam usar crack. Fui com eles e experimentei. Naquele momento, mal pude ver que seria o início do meu fim”, relembra. Perdeu o emprego, segundo ele, porque foi pego furtando um anel avaliado em R$ 11 mil e mais uma quantia em dinheiro. Foi então para as ruas alimentar o vício pela pedra. “Já cheguei a consumir dez pedras em um único dia”, lembra

O irmão de Luis é guarda municipal em Campinas (leia texto na página ao lado) e buscou ajuda junto à coordenadora municipal da Mulher da cidade, Paula Selhi, que já desenvolve há anos um trabalho junto a moradores nessas condições. Paula, que acompanhou a entrevista com Luis, chorava na mesma proporção do ex-morador, à medida em que lembravam das histórias de convencimento de saída das ruas até chegar ao Carisma. “Não adiantaria amarrar o Luis em uma clínica. Ele teve o tempo dele e sentiu a hora em que não daria mais para viver nas ruas e estendi as mãos”, disse Paula.

A coordenadora perdeu o filho Felipe em 2010, assassinado a facadas aos 17 anos por dois homens que estariam sob efeito o crack, nas imediações onde está a praça com seu nome, no Centro. Desde então, conta que já ajudou a retirar das ruas 15 moradores, e conseguiu, através de suas amizades, locais para reabilitação em Pedreira, Amparo e Bragança. “Em Pedreira, temos cinco vagas sociais para os moradores que eu trouxer”, garantiu.

“Hoje eu sei o significado da frase ‘viver a vida’. Meu irmão me viu dormindo e entrou em contato com a Paula. Ele levou Paula até mim”, chora Luis, que possui dois filhos e não os vê há anos. “Ainda não é o momento do meu reencontro (com os filhos). Quero me fortalecer ainda mais para aparecer para eles”, finaliza.