Publicado 05 de Setembro de 2015 - 5h30

Tainá Bernardes, de 10 anos, sentou na primeira poltrona do ônibus. Inquieta durante todo o trajeto, revelou que a sua flor preferida é a tulipa — simbolizada em um personagem da Expoflora, a maior exposição de flores e plantas da América Latina, em Holambra, e ponto final da viagem. Tainá e outras 17 crianças e adolescentes que fazem tratamento contra o câncer no Centro Infantil Boldrini tiveram ontem no local um dia sem pensar em hospital, voltado a passear com os familiares em meio às belezas coloridas da natureza.

Esse é o nono ano consecutivo que os pacientes passam um dia agradável, e de muita emoção, na mostra de flores. Toda a mobilização é organizada em grande parte por um grupo de voluntárias de Holambra, e que movimenta uma rede de 35 pessoas. “Temos todos esses parceiros que nos fornecem desde o transporte, o almoço, até os mimos que os pacientes ganham”, disse a coordenadora da brinquedoteca do Boldrini, Nina Mazzon. “Esse trabalho voluntário começou depois que uma das mães de Holambra teve seu filho tratado conosco”, completou. Também, em todos os dias das mães são entregue flores às mamães do Boldrini.

A visita de ontem foi para muitos deles a primeira. Não foi o caso de Helenilda da Silva Gomes, de 47 anos, e seu filho Welington, de 6. No ano passado, o garoto estava debilitado em função do tratamento contra a leucemia. “Ele teve muita febre no ano passado e não andamos pela exposição. Hoje ele está praticamente curado, e pronto para brincar muito, principalmente no parque de diversões”, disse a mãe, que mora em Santa Bábara d’Oeste.

Além de estar empolgada com o dia de passeio, a pequena Tainá também está tendo progresso em seu tratamento, que começou há dois anos. Diagnosticada com tumores no fígado, o longo processo de quimioterapia pode estar chegando ao fim. “O último exame estava aparentemente bem. Éramos para saber hoje, mas como ela queria muito vir passear, na semana que vem vamos ouvir o resultado”, contou o pai Tercílio Mota.

Já o jovem Maurício Rafael Lopes, de 19 anos, estava empolgado em sentir emoção nos brinquedos radicais do parque de diversão. Ainda que tenha uma doença incurável (anemia falciforme) no sangue, que ocasionou a necrose dos ossos de um dos joelhos, tornozelo e ombro, ontem empurrava uma colega na cadeira de rodas sem qualquer dificuldade. “É minha primeira vez na Expoflora, e estou achando fantástico”, disse Lopes, que desde que nasceu faz tratamento no Boldrini.

“Trazê-los para a exposição é um benefício enorme. A gente acredita que esse passeio fica guardado na memória deles para sempre. Também proporciona uma integração com a sociedade e estimula o sentimento de que jamais eles podem deixar de sonhar”, disse a coordenadora Nina.

Andrea Lima Andrade, de 44 anos, também avalia de maneira semelhante o passeio com a filha Sara, de 7. “Nesse passeio eles veem a pureza das plantas, as cores e o principal, a vida delas. As cores são uma referência de paz e de alegria”, acredita a auxiliar geral. Na sua visão, foi “Deus quem permitiu” que ela e as filhas fossem passear na Expoflora. “Consegui o encaixe ontem (quinta-feira) para poder vir passear e estou muito feliz por estar com minha filha aqui”, disse. A filha tem leucemia, e segundo Andrea, está com os níveis controlados.

O Boldrini há 37 anos atua no cuidado de crianças e adolescentes com câncer e doenças hematológicas. Atualmente, trata cerca de 10 mil pacientes de diversas cidades brasileiras e alguns de países da América Latina, a maioria (80%) pelo Sistema Único de Saúde (SUS). É considerado um dos centros mais avançados do País, que reúne alta tecnologia em diagnóstico e tratamento especializado, com índice de cura de 70% a 80% em alguns tipos de câncer.