Publicado 05 de Setembro de 2015 - 5h30

A Operação Lava Jato tem trazido uma nova dimensão para a cultura brasileira, que já estava acostumada a se indignar contra as manobras predatórias de políticos que avançam sobre o erário, mas não conseguiam transformar isso em um novo padrão moral para o Brasil. A quebra da corrente de impunidade representa um grande avanço sobre o que já se considerava natural, a corrupção deslavada e a desfaçatez dos criminosos. Surpreende a forma como empresários, políticos e lobistas atuam abertamente, como entes que se pretendem imunes à ação da lei. Ou, pelo menos, agiam, até sentirem a força de uma operação que mudou os rumos da nação.

Em meio a essas transformações, a figura da delação premiada surgiu como uma novidade promissora, pois permitiu o desenredamento de toda a trama que envolvia o pagamento de propina a partidos políticos e seus representantes, tudo com dinheiro público. A pronta ação da Polícia Federal e a determinação do Judiciário no Paraná foram determinantes para inverter a corrente da espoliação.

Nesta semana, o empresário Marcelo Bahia Odebrecht, preso desde o dia 19 de junho por envolvimento no esquema de corrupção, depôs a integrantes da CPI da Petrobras em Curitiba. Tratado com certa reverência pelos parlamentares, expôs uma chocante presunção moral, ao afirmar que seus valores pessoais não incluíam a delação. Para exemplificar sua posição, chegou a afirmar que educa suas filhas nesse sentido e, no caso de uma apontar alguma atitude errada de outra, repreenderia a primeira por ter “dedurado” a irmã. Para ele, o pacto de confiança se impõe acima da razão e da honestidade (Correio Popular, 2/9, A13).

Essa confissão revela muito do padrão moral de pelo menos um dos envolvidos no maior caso de corrupção já apurado no País. Qual um acordo digno de relação mafiosa, o criminoso empreiteiro busca a censura de quem entrega o crime, mas perdoa os criminosos envolvidos na trama. Uma forma torta de falar em valores morais, que privilegia a proteção de quem está errado, sem considerar o interesse maior da honestidade, no caso o direito de todos os milhões de brasileiros ludibriados, espoliados, enganados em sua boa-fé. Se esse é o padrão de moral onipresente nas relações entre os partidos políticos e seus comparsas, é preciso que eles reflitam mais sobre o que realmente é uma questão de honra e hombridade. O tempo gasto na prisão pode ser um bom motivador para uma reavaliação de valores pessoais.