Publicado 09 de Setembro de 2015 - 22h15

Por Marita de Siqueira

O cantor e compositor Oduvaldo Cunha

Leandro Ferreira/ AAN

O cantor e compositor Oduvaldo Cunha

A química perdeu um profissional, mas a noite campineira ganhou. Prestes a fazer a matrícula para a faculdade, o cantor e compositor Oduvaldo Cunha, mais conhecido como Doc Miranda, resolveu que queria mesmo era se dedicar à música.

O garoto que chegou a integrar o time juvenil da Ponte Preta, ganhou o apelido Miranda por jogar com a mesma técnica e habilidade do jogador Mirandinha, é louco pelo timão — Vai, Corinthians! — mas foi vencido pela música. Conhecido na pelo repertório de MPB, no final dos anos 1980, se voltou para o reggae e criou a primeira banda do gênero do Interior do Estado, que se mantém em atividade até hoje. Em entrevista ao Caderno C, Doc fala de sua opção de vida, da carreira e do cenário musical de Campinas.

Caderno C — Você criou a primeira banda de reggae do Interior do Estado de São Paulo, como surgiu a ideia da Reggae Spirit?

Doc Miranda — Eu tocava todos os estilos e, de repente, bateu aquela coisa de fazer algo que não tinha na cidade. Não sabia que estava, naquele momento, criando a primeira banda de reggae do Interior, o que para mim, é um grande prazer, especialmente por continuar até hoje com a banda em atividade.

Quando nasceu a Reggae Spirit?

A banda foi criada em 1987, no movimento pró-moradia da Unicamp. Eu morava na universidade e na época cursava Técnica Vocal e Impostação de Voz no Instituto de Artes, e integrava o movimento pró-moradia estudantil. Fazia o curso e morava no ciclo básico, onde surgiu a proposta da moradia. A banda nasceu ali dentro do movimento Taba, que resultou no que hoje é a moradia da Unicamp, uma realidade que está ai para quem quiser ver.

Quais suas referências no reggae, Bob Marley?

Claro, Bob Marley é a referência principal. Digo melhor, a única referência, porque se existe alguma banda de reggae digna de ser chamada assim e não foi inspirada por Bob Marley, está faltando alguma coisa.

Você disse que tocava todos os estilos. O reggae fazia parte desse repertório ou surgiu com a banda?

O reggae surgiu mais com a banda. Eu tocava outros estilos, compunha com outras tendências, como chorinho, samba e rock. Tinha um trio de samba e me apresentava com o trio ou solo.

MPB de forma geral?

Isso mesmo, MPB em geral. Não tinha ainda definido qual seria o meu trabalho musical. Estava buscando, e descobri o reggae.

Você falou sobre composição. Tem também um trabalho autoral?

Eu componho, agora mais reggae, mas também outros ritmos. Minhas composições são inclinadas às questões sociais, que é a visão e a filosofia que o reggae prega. O reggae tem a incumbência de passar uma mensagem, de ser um veículo que propõe uma reflexão.

Quando você resolveu que ia viver de música e se dedicar integralmente a essa carreira?

O momento crucial da minha decisão foi quando eu prestei vestibular para Química na Faculdade Oswaldo Cruz, em São Paulo. Eu morava lá na época. E tive a felicidade de ser aprovado. No momento da matrícula é que decidi. Se tivesse feito a matrícula acho que hoje eu seria um químico e não um músico e, tampouco, seria o vocalista da primeira banda de reggae do Interior do Estado de São Paulo (risos).

Mas essa ligação com a música já vinha de antes?

Desde a infância. Na verdade, desde os sete anos. Meu avô tocava violão muito bem e a música sempre foi presente na minha casa. Minha mãe era poetisa, Maria Benedicta Cunha, com livro lançado. Teve um projeto muito bonito feito pelo TC (Antonio Carlos dos Santos Silva) e Casa de Cultura Tainã e umas poesias da minha mãe entraram na coletânea, chamada Alma de Poeta. Tinha essa atmosfera artística dentro de casa. Meu avô, pelo que soube, tocou com Nelson Gonçalves e com um famoso violonista chamado Canhoto. Enfim, a música sempre foi presente na minha vida.

Você teve também um envolvimento com futebol?

Sempre gostei de futebol e no final dos anos 1960 jogava no juvenil da Ponte Preta. O técnico era o Zé Duarte. Ele chegou a cogitar minha participação na Seleção Brasileira Juvenil. Mas, num treino, um zagueiro me deu um tranco e machucou feio meu joelho esquerdo. Isso tirou a possibilidade de integrar a Seleção e acabou com uma possível carreira no futebol. Continuei jogando mas não profissionalmente.

Além da banda você mantém também um trabalho solo?

Faço trabalho solo porque a banda toca esporadicamente em Campinas. Eu toco todos os domingos, no horário do almoço, na Praça de Alimentação do supermercado Carrefour D. Pedro. E aos sábados, toco no almoço da Padaria Dom Pão, que fica na Avenida Carlos Grimaldi. Eventualmente, toco em bares noturnos, como o Vila Bambu, Bar do Jair, às vezes na Praça do Coco, na Banca Central, em Barão Geraldo. Aliás, gosto muito de tocar na rua. Tenho o trabalho com a banda e trabalho solo em paralelo.

E tem espaço para o reggae em Campinas hoje?

No momento não. Onde ainda abre espaço é o Kabana Bar. Inclusive dia 1º de outubro a Reggae Spirit se apresenta lá para comemorar o aniversário de 28 anos da banda. Antes, tinha vários bares que abriam espaço para o reggae e quem se apresentava com frequência na noite — vou me colocar na terceira pessoa —, era o Doc Miranda. Era bastante requisitado. Agora são poucos espaços, o que é uma pena. Campinas é rica demais, artisticamente falando, para ficar em silêncio culturalmente.

Há expectativa de retomar o movimento regueiro?

Sim. A banda Reggae Spirit participou da Virada Cultural, nos apresentamos na Estação Cultura no dia 31 de maio. Logo após a apresentação fui convidado pelo secretário da Cultura, Ney Carrasco, para encabeçar um movimento reggae aqui em Campinas. Devemos começar a partir de março de 2016, justamente para suprir essa carência.

A ideia é fazer eventos regulares?

Exatamente. Uma vez por mês, o Reggae Spirit se apresenta na Estação Cultura com atrações convidadas. A Regueira Campinas vai abranger o que tem de reggae na cidade e região. Isso é importante porque o reggae abrange questões importantes como a causa social.

A Reggae Spirit tem disco lançado?

Sim. Em 2006 lançamos Túnel Infinito, com músicas autorais — apenas uma é do Oganna Zambi. As demais são composições meio que contam a nossa história.

E tem planos de um segundo?

Sim, estamos trabalhando num segundo álbum, que possivelmente será lançado no início do ano que vem, antes de começar o movimento Regueira Campinas.

Você também já fez participações em espetáculos teatrais, não é mesmo?

Sim, no ano passado participei da peça Eternos Modernos, com direção e dramaturgia da Sara Lopes, sobre a Semana de Arte Moderna de 1922. Foi uma participação prazerosa, uma experiência única porque não só cantei, mas também atuei. Já tinha participado, há alguns anos, da peça Liberdade, Liberdade, com direção da Teresa Aguiar, mas apenas na parte musical. Em Eternos Modernos tive umas falas. Foi muito legal e gratificante.

Você também participou filmes?

Sim, o primeiro foi Topografia de um Desnudo, lançado em 2007, direção da Teresa Aguiar. E no final do ano passado, participei das gravações do longa O Crime da Cabra, com direção da Ariane Porto. O Crime ainda não foi lançado, deve sair este ano, possivelmente em outubro. Foram participações importantes, porque estou a fim de fazer um filme sobre a história do reggae em Campinas, sobre a intenção do movimento reggae. E essa experiência vai ser útil.

Escrito por:

Marita de Siqueira