Publicado 08 de Setembro de 2015 - 22h37

Por Marita Siqueira

Dona Ivone Lara, que aos 94 anos continua compondo seus sambas; artista é considerada uma das mais importantes da música brasileira

Divulgação

Dona Ivone Lara, que aos 94 anos continua compondo seus sambas; artista é considerada uma das mais importantes da música brasileira

Cantora, compositora, pioneira no samba-enredo, enfermeira atuante por 37 anos, em suma, uma grande mulher brasileira chamada Dona Ivone Lara. Aos 94 anos e com cinco décadas de produção artística singular, é considerada uma das maiores melodistas da música brasileira e ganhou o apelido de Primeira-Dama do Samba, subtítulo da biografia escrita pelo jornalista Lucas Nobile que foi lançada na última semana.

As páginas percorrem cronologicamente a trajetória da sambista que compôs a primeira música com apenas 12 anos e hoje coleciona grandes parcerias com Delcio Carvalho, Silas de Oliveira, Hermínio Bello de Carvalho, Nei Lopes, para citar alguns, com os quais nasceram sambas antológicos como Sonho Meu, Acreditar e Alguém me Avisou.

“Na minha opinião, ela é maior compositora do Brasil, uma mulher que conseguiu quebrar inúmeras barreiras do machismo. Infelizmente, a história sempre foi regida pelo machismo e 50 anos atrás ela conseguiu ser a primeira compositora de um samba-enredo para escola do grupo especial”, diz Nobile referindo-se a Os Cinco Bailes da História do Rio, composto por ela, Bacalhau e Silas de Oliveira, para a Império Serrano, em 1965.

Além do pioneirismo dentro das escolas carnavalescas, o autor ressalta a qualidade da obra. “Ela conquistou o espaço porque suas músicas são de uma qualidade indiscutível, algo muito singular.” E, neste sentido, exalta a parceria de Dona Ivone com Delcio Carvalho colocando-a entre as mais importantes da música popular brasileira. “Os dois definiam a parceria como mediúnica. Muita gente diz que é uma das maiores da história do samba. Eu vou além, é uma das maiores da música brasileira. Está no peso de Aldir Blanc e João Bosco, Vinícius de Moraes e Tom Jobim, Vinícius e Baden Powell. As pessoas sempre tendem a colocar o samba numa redoma, mas é música popular brasileira", opina.

Dona Ivone teve dezenas de parceiros, mas pouco se sabe de uma trabalho com parceira mulher. “Sei de um apenas, com Teresa Batista, que a Marisa Monte gravou, mas ela não. Chama-se Pétalas Esquecidas”, afirma. Informações como essa foram colhidas durante o processo para elaboração do livro, que marca a estreia do jornalista na literatura. “Foi um convite do projeto com o qual fiquei muito feliz. É uma responsabilidade imensa escrever de uma artista com a história de Dona Ivone, um personagem muito rico, tanto na música quanto na vida” , afirma.

Nobile teve cinco encontros com Dona Ivone, conversou com 60 pessoas e garimpou cerca de 10 mil edições de jornais e revistas. “Não queria que o livro virasse um monólogo, quis contar de maneira polifônica” , afirma. Entre as descobertas, está o fato de Dona Ivone ter sido porta-bandeira da escola Acadêmicos da Serrinha antes de ter ido para Império, sua escola de coração e vida inteira. “Nem a família sabia. Sempre se falou que ela era de uma escola só. E, na verdade, é sim, da Império, mas teve essa passagem pela Serrinha. Ela também foi a responsável por levar o que chamamos atualmente de musicoterapia a doentes terminais quando trabalhava como enfermeira.”

Apesar dessas e outras descobertas, Nobile diz que a maior de todas ainda é sua obra musical. “A cada audição você encontra um grande canção dela. No segundo disco solo, de 79, Sorriso de Criança, tem dois sambas que são primorosos: Quisera e Meu Amor Tem Preço.

Para mim, Dona Ivone está no mesmo patamar de João Nogueira, Batatinha, Nelson Cavaquinho, Geraldo Pereira, Paulinho da Viola, Noel Rosa, Cartola e outros. E sua obra continua muito reveladora. Como disse Wilson das Neves, daqui 200 anos, ela vai ser lembrada pela grande obra que deixou", afirma, revelando que ela continua compondo. “É algo muito espontâneo e intuitivo para ela” .

Dona Ivone Lara: A Primeira-Dama do Samba aborda a trajetória pessoal, mas o foco está na produção artística, como foram feitas nas edições anteriores do projeto Sambabook, produzido pela Misikeria, cujos homenageados foram João Nogueira, Martinho da Vila e Zeca Pagodinho.

SAIBA MAIS

O projeto Sambabook, produzido pela Misikeria, pelo qual foram publicados em junho a discobiografia da cantora em outras plataformas: dois CDs, DVD, Blu-ray, especial de TV no Canal Brasil, fichário de partituras, ambiente web com portal e redes sociais e aplicativos para smartphones e tablets.

Gravado no final de 2014, na Cidade das Artes (RJ), e lançado em junho, os discos reúnem clássicos do repertório da compositora — Sonho Meu, Acreditar, Alguém me Avisou, Minha Verdade, Força da Imaginação, Enredo do Meu Samba e Força da Imaginação estão entre as 26 faixas. Com participação especial de Caetano Veloso, Vanessa da Matta, Maria Bethânia, Adriana Calcanhotto, Elba Ramalho, Zélia Duncan, Wilson das Neves, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Diogo Nogueira, Teresa Cristina, Hamilton de Holanda, Mariene de Castro e a portuguesa Carminho.

FICHA TÉCNICA

- Livro: Dona Ivone Lara: A Primeira-Dama do Samba

- Autor: Lucas Nobile

- Editora: Sonora

- Preço Sugerido: R$ 45,00

Escrito por:

Marita Siqueira