Publicado 06 de Setembro de 2015 - 5h00

Por João Nunes

Ricki and the Flash - De Volta pra Casa

Divulgação

Ricki and the Flash - De Volta pra Casa

Meryl Streep pode. Na verdade, pode tudo. Ela tem créditos suficientes (18 indicações ao Oscar, três estatuetas, a maior atriz viva do cinema) para fazer um filme médio, com alguns momentos de brilho, e ainda continuar a ser grandiosa.

Foi depois de vê-la cantar (muito bem), pular e mergulhar no Mediterrâneo em 'Mamma Mia' (Phyllida Lloyd, 2008), que eu descobri do que Meryl é capaz. Portanto, nenhuma surpresa se em 'Ricki and The Flash – de Volta para Casa' ('Ricki and The Flash', Estados Unidos, 2015), de Jonathan Demme, ela faça uma roqueira.

E com atitude, postura, cantando de verdade e bem e assumindo o papel em plena idade madura — é preciso coragem e autoconfiança suficientes para encarar o papel; o que não lhe falta. O filme é de Meryl Streep — livremente inspirado na vida da sogra de Diablo Cody, autora do roteiro, e que cantou rock por muitos anos.

Ricki tem banda de covers e de músicas próprias e se apresenta em bares. Como se imagina, vive sem grana e, para pagar as contas, trabalha no caixa de supermercado. Atrás dessa história, há um passado com três filhos deixados com o ex-marido, Pete (Kevin Kline) e a segunda mulher dele.

Um dia, Pete liga para Ricki dizendo que a filha Julie (Mamie Gummer, filha de Meryl na vida real) se separou, entrou em depressão e precisa dela. Ricki deixa tudo e vai passar uma temporada na casa do ex-marido. Começa aí um doloroso reencontro com a família.

Imagina-se, aqui, um dramalhão, mas tanto o roteiro quanto a direção aliviam a narrativa de um modo descontraído, tentando fazer graça com situações e diálogos ágeis e bem-humorados. “Quando você conheceu o noivo?”, alguém pergunta a Ricki. “Quando fiz cesariana”.

Com diálogos nessa linha e com a própria protagonista levando pouco a sério os dramas familiares, o filme consegue fugir do dramalhão que seria uma senhora, roqueira, que deixou três filhos no passado para realizar o sonho de ser músico.

E, com pitada de ironia e até ressentimento, ela faz até piadas sobre. “Mick Jagger tem sete filhos com quatro mulheres, mas nunca se preocupou com a criação deles; as mães fazem essa tarefa. Mulheres, ao contrário, não podem abandonar os filhos pela carreira”, discursa durante um show.

É o único momento em que o filme assume uma bandeira em defesa das mulheres. Fora isso, a personagem tenta levar a vida numa boa. A reaproximação com os filhos é só um jeito de se reconciliar com ela mesma e conciliar o papel de mãe com o de roqueira.

Poderia dizer que não há mais nada a ressaltar, mas há sim. A presença de uma atriz luminosa, Audra McDonald, que vive a segunda mulher de Pete, e responsável por criar os três filhos de Ricki. Que baita atriz — ganhadora de sete Tony, o Oscar do teatro americano.

Esse encontro-desafio entre as personagens serve também de embate entre as atrizes. É uma das duas melhores cenas – na outra, Ricki embala o sono da filha cantando uma canção. O filme não tem mesmo muito mais, porém, vale por Meryl Streep e Audra McDonald.

Escrito por:

João Nunes