Publicado 11 de Setembro de 2015 - 5h00

Por Pasquale Cipro Neto

O que é mesmo crase? Neste espaço, já afirmei inúmeras vezes que “crase” significa “fusão”, “mistura”. Em “Diga não à corrupção”, por exemplo, temos a fusão, ou seja, a crase da preposição “a”, exigida pelo verbo “dizer” (“dizer a alguém”), com o artigo feminino “a”, imposto pelo substantivo feminino “corrupção”. O resultado dessa fusão (a + a) é “à”. Não custa nada relembrar um velho artifício, o da troca do substantivo feminino (“corrupção”, no caso) por um masculino, como “fumo”. Que ocorre? De “à” passamos a “ao” (“Diga não ao fumo”), ou seja, em vez de “à” (a + a), temos “ao” (a + o).

Tome cuidado com esse “truque”: é preciso fazer a troca por uma palavra da mesma classe gramatical. Veja este exemplo: “Diga a ela que não gosto disso”. Nada de trocar “ela”, que é pronome reto, por “diretor” ou “garoto”, que são substantivos. A troca deve ser feita por um pronome reto (masculino), que, obviamente, só pode ser “ele”: “Diga a ele que não gosto disso”. O caro leitor certamente notou que o “a” não se transformou em “ao”, o que significa que não há aí preposição + artigo. O que há é apenas a preposição “a”.

Vamos ver agora como fica o trecho que está no título desta coluna (“De terça a quinta, das 11h às 18h”). Por que em “de terça a quinta” não se emprega o acento grave no “a”, mas em “das 11h às 18h” o bendito acento aparece? Os casos não são iguais?

Não são, caro leitor. Vamos ver por que isso é assim. Em “de terça a quinta”, não usamos artigo antes de “terça”, certo? Não dizemos “da terça”, mas “de terça”. A falta de artigo se explica pela ausência de determinação do substantivo “terça” (que na verdade é a redução de “terça-feira”). Sem o artigo, fala-se de qualquer terça-feira, de todas as terças-feiras. Ora, se não se usa artigo antes de “terça” (que, é bom repetir, é a redução de “terça-feira”), por que se usaria antes de “quinta”? É só levar em conta a simetria, o paralelismo: “de (sem artigo) terça a (sem artigo, portanto sem acento grave) quinta”.

Vamos usar o teste da substituição? Vamos lá: basta trocar “quinta” por “sábado” ou “domingo” (palavras masculinas). Que temos? Temos “de terça a sábado” ou “de terça a domingo”. Como se vê, não há artigo antes de nenhum dos substantivos, ou seja, as construções são simétricas.

Vamos agora ao outro caso, o das horas. Se dizemos “das 11h” (ou seja, das 11 horas), é mais do que evidente que colocamos o artigo antes dessa indicação de horário. Como sabemos, “das” é o resultado de “de” + “as”. A simetria nos leva a deduzir que, se empregamos o artigo antes do horário inicial, devemos empregá-lo também antes do horário final: “das (de + as) 11h às (a + as) 18h”. Vamos ao teste da substituição. Trocaremos “18h” (18 horas, expressão feminina) por “meio-dia”, expressão masculina. Que temos? Temos “das 11h ao meio-dia”. Percebeu a simetria, caro leitor? Se temos artigo de um lado, temos do outro. Moral da história: “Ele só trabalha de terça a quinta, das 11h às 18h”.

Escrito por:

Pasquale Cipro Neto