Publicado 11 de Setembro de 2015 - 5h00

CECILIO

CEDOC

CECILIO

Diz-se que os revolucionários e resistentes de ontem transformam-se nos conservadores de hoje. Felizmente. Conservar é preservar. E apenas se preservam e se conservam valores importantes.

Mais cuidadosamente do que “conservamos” a carne na geladeira — ou medicamentos em ambientes favoráveis, ou preservamos os filhos de males que possam alcançá-los — temos o dever de preservar e conservar princípios e valores pétreos. Pois — embora valores possam mudar — há aqueles que são pétreos, que têm a dureza da pedra. O respeito é um deles.

Sinto-me à vontade para abordar tal assunto, pois sempre estive entre os contestadores, os que lutaram por causas. Errei e acertei. Na juventude, acreditei pudesse mudar o mundo, sem saber porquê, para quê.

Precisei viver — e viver muito e apanhar e sofrer — para adquirir um mínimo, um poucochinho de sabedoria e, enfim, entender que há, na sociedade humana, o sagrado que precisa ser preservado, conservado.

E —  diante dos vendavais e temporais que sacodem essa nossa era de perplexidades — não tenho qualquer receio de afirmar que, em relação a princípios e direitos inalienáveis, tornei-me um conservador. Mas pronto a mudar aquilo que for preciso mudar.

Nesse sentido, desconheço uma reflexão mais oportuna do que a do teólogo estadunidense Reinol Niebuhr: “Que Deus me dê serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar; coragem para mudar as que posso; e sabedoria para distinguir entre elas.” Tão oportuna é, e tão atemporal, que foi adotada por John Kennedy em seu discurso ao assumir à Presidência dos Estados Unidos.

Pois bem. Por volta de 1965/66, fui levado, por homens vicentinos, a ver uma daquelas cenas dantescas, insuportáveis de olhar e de admitir fosse real. Ao sopé de um viaduto, estava uma família literalmente miserável, o homem sem uma perna, a mulher tuberculosa e crianças que, para poderem comer, pediam esmolas nas ruas.

A Polícia espantava os meninos. E, naquela noite de frio dolorido e de chuva fina, eles estavam, sob o viaduto, como que à espera da morte. Os vicentinos — vigilantes da caridade – haviam-nos encontrado e pediam ajuda. Ao ver aquilo, ajudei a abrigá-los e escrevi um artigo em que, ao final, desabafei: “Esse mundo é uma merda!”

Creio ter sido um dos primeiros palavrões na imprensa, já que anterior a “O Pasquim”. Aquela simples palavra chula causou escândalo na cidade, onde e quando puritanos e fariseus se importaram mais com a expressão do que com a realidade da família desamparada. Houve um debate inacreditável.

E, em minha defesa — numa missa dominical — saiu D.Aníger, então, Bispo Diocesano de Piracicaba – com o qual, declarando-me ateu, eu tinha divergências. Do púlpito, numa missa de domingo, defendeu-me: “Ele usou a expressão certa para o momento.” A então pequena cidade não se conformou.

Éramos, pois, assim. Recatados, com pudores, com senso de respeito. A simples palavra “merda”, escrita em um órgão de comunicação, foi pedra de escândalo. Atualmente, quase todos os meios de comunicação eletrônicos — com uma que outra exceção — usam e abusam do total e amplo desrespeito, sem limites e sem freios, invadindo as casas de ouvintes e de telespectadores que, desnorteados, acreditam seja este o natural das coisas. Não é. Estamos ao nível da incivilidade total. E civilidade é uma das maiores conquistas do ser humano.

Tais reflexões, faço-as — sem me considerar puritano ou falso moralista — diante de um vídeo que percorre a internet, mostrando um grupo supostamente musical que se auto-intitula Putinhas Aborteiras. Elas — com espantosa naturalidade — defendem o indefensável, propõem o inaceitável. Não se trata de liberdade de expressão, porque também esta é relativa.

Liberdade plena é a de pensamento, a da imaginação. A de expressão é subordinada a valores e princípios assumidos por uma determinada sociedade. Alguém pode pensar em atear fogo no Congresso Nacional, mas não tem o direito e a liberdade de expressar seu propósito. Se as moças querem ser putinhas e aborteiras, elas têm o direito à escolha. Mas não à propagação vulgar, medíocre e insultuosa pelo menos ao bom senso de uma sociedade que se pretenda saudável.

O alarmante é que elas tiveram espaço na TV Educativa gaúcha, o veículo de sua promoção. Emissoras de rádio e tevê são concessões do Estado. E, portanto, concessões do povo. Se uma tevê educativa abriga a insanidade de “putinhas aborteiras”, ou a sociedade brasileira reage ou assume a responsabilidade de ir para o fundo do poço. E não se diga que regular os meios de comunicação de massa é censura. Não há liberdade para propagar a corrosão social.