Publicado 08 de Setembro de 2015 - 23h13

AQUILES RIQUE REIS, MPB4

Divulgação

AQUILES RIQUE REIS, MPB4

As estrelas estão no breu do céu. A elas não se avista, delas somente se sente a vida. A madrugada já vai indo pro alvorecer. O vaqueiro cavalga, que é pra mode vencer a saudade e a solidão. A morena deve já estar de pé, o café prontinho pra coar. Voa o boiadeiro pros mundão do sertão. Sente nas entranhas o frio do orvalho na mata. A fogueira de ontem ainda está na lembrança, e da janta ainda tem nas venta o cheiro. O riacho que lhe matou a sede corre mansinho, como corre o boi quando tangido pelo aboio do vaqueiro.

A pressa dá a vez, pois acolá, no recorte do morro, o cabra avistou a cobra-coral. E o medo perdeu a vez pro desejo de se fazer violeiro e cantadô. Sabedor da simpatia — quem se apegá nuns agarro com a danada, a viola por ele se apaixonará, e suas mãos calosas, seus dedos enrijecidos, logo serão mãos e dedos de violeiro, e seu gogó será de cantadô —, apeou e foi até lá.

Com os óio meio fechado, meio aberto, a testa franzida, enrugada como a rede que embalança amarrada no tronco do ingazeiro, o boiadeiro toca os dedos na pele da cobra-coral. E então, ele que já sabia aboiar, deu-se de cantar como canta os cantadô do mundão de Deus-dará. E se pôs a violar como viola os violeiros dali daquele lugar.

O vaqueiro, agora também violeiro e cantador, nem ligou pro final da simpatia, que ordena o felizardo a carregar pra sempre no embornal a maga, a tal cobra-coral.

“A Simpatia da Cobra-Coral”, causo bolado pelo violeiro e cantador Chico Lobo, tem suas palavras (bem)ditas por Rolando Boldrin na faixa que fecha Cantigas de Violeiro (Kuarup), CD do violeiro Chico Lobo. Não bastasse o CD, ele, mais seu parceiro Fábio Sombra, lançou ainda o livro Conversa de Violeiro (Kuarup).

É, mas vamos com o CD, que tem várias participações especiais, além de músicas só de Chico Lobo e outras com parceiros.

Brasil Violeiro, de Chico Lobo, tem letra ufanista de Tadeu Martins e inicia com o pontear da viola de Chico. Vem o cantador. Logo outro violeiro (Wilson Dias) se achega para junto versejar. As violas ponteiam. Os violeiros cantam, um a melodia, o outro, a terça.

Ciranda de Roda (Fábio Sombra) tem viola e tem rabeca (Léo Rudgero). O baixo (Ricardo Gomes) e a percussão (Mateus Bahiense), destaque para a caixa, dão clima pra ciranda cirandar.

Criação (Chico Lobo) tem apenas a viola e as vozes de Chico Lobo e Aldo Lobo. Cada cantador verseja, enquanto a viola ponteia e logo dá a dica para um novo verso. Belo é o uníssono da voz com as notas da viola.

Bela é a adaptação de Toninho Vaz para Calix Bento (domínio público), bem como bela é a cantoria de Chico.

Boi Carreador (Chico Lobo) tem ótima participação de Xangai. Também ótimas são as participações de Pena Branca em Tropa (Chico Lobo) e de Tavinho Moura em Breu (Chico Lobo e Mateus Lobo).

Sem eira nem beira, mais uma vez, vai ao mundo o violeiro. Sem jamais desgrudar, sua viola fez dos braços de Chico Lobo acessório, para ele melhor fazê-la chorar.