Publicado 08 de Setembro de 2015 - 23h07

Por André Fernandes

André Fernandes

Cedoc/RAC

André Fernandes

Assistimos aos desdobramentos da guerra civil na Síria. As estatísticas crescentes de mortos, desaparecidos e refugiados oscilam, mas todas estão na macabra casa dos seis dígitos. O papa Francisco já convocou até um dia de jejum e de oração pelos mortos civis e pelo fim da luta fratricida que por lá campeia. Parece que isso não sensibilizou muito as vontades dos membros das facções em luta. Continuam a se digladiar como se não existisse o amanhã.

Não quero falar sobre guerras, embora acredite que elas são e serão inevitáveis, porque, como assinala Tucídides, o primeiro “repórter de guerra” da história, “a natureza humana permanece sendo a mesma”. Não quero falar sobre esse pacifismo de moda, a brandir cartazes com slogans “Nunca mais a guerra!” ou coisas do gênero. Não evitaram e continuarão não evitando conflitos armados.

Também não quero falar sobre ditaduras políticas, mas sugiro aos ditadores e tiranetes de plantão que mudem suas posturas, renunciando e submetendo-se à Corte de Haia ou, simplesmente, matem-se. A humanidade agradece ao favor feito. Quero falar sobre o pequeno Aylan Kurdi, o menino refugiado sírio de três anos, egresso de uma cidade que, no seio do conflito sírio, fora tomada por indivíduos que mereceriam estar no sétimo círculo do inferno dantesco.

Sua morte por afogamento consternou o mundo, não só pelo forte simbolismo da imagem em si, mas pelas circunstâncias que se deram. Ele, por intermédio de seus pais, teve que optar entre a barbárie da guerra e o calvário mirim da fuga. Uma fuga motivada, à semelhança de muitos outros sírios, pela vida, porque, atrás dele, só havia morte. Morte patrocinada por uma liderança política que nunca leu Agostinho: sem justiça, qual a diferença entre um governo e uma quadrilha de assassinos?

Imagino, daqui, toda a invencível trajetória da viagem. Ameaçada a família, a “Europa” virou sinônimo de “segurança”, mas, até lá, era preciso atravessar um mar, que havia se transformado em sinônimo de “cemitério”, por meio de um bote, que poderia atender pelo sinônimo de “caixão”, onde, graças à ganância do traficante, que poderia ser sinônimo de “coveiro”, carregaria cinco vezes mais pessoas, com base num bilhete de ida, que poderia ser sinônimo de “atestado de óbito”. Ao cabo, virado o bote e depois do afogamento, o cadáver insepulto seria sinônimo de “delicatessen” marinho.

Lênin, certo e erradamente, disse que a morte de uma pessoa é uma tragédia e, a de milhões, uma estatística. Errado: a morte de milhões é um drama. Drama em escala estatística. Certo: a morte de um só é uma desgraça. Desgraça pela comoção de uma narrativa de vida suprimida abruptamente. No caso de Aylan, estupidamente. Toda morte de uma criança inocente é sempre um supremo roubo de Deus.

E, por falar em números, quanta estatística carrega uma criança morta na praia, porque fugia de uma guerra civil alimentada por um bando de insanos com uma cosmovisão político-religiosa historicamente caduca, por um ditador fratricida e por uma indiferente diplomacia ocidental no trato dos refugiados? Desconfio que a resposta passa pela estatística incomensurável da impotência e da miséria da condição humana.

Há pouco nos referimos ao simbolismo da imagem do cadáver do pequeno Aylan estirado na areia do quebra-mar, justamente onde crianças costumam divertir-se com seus pais em dias de verão. Nessa mesma imagem chocante, notamos também que ele estava tão bem vestido naquela camiseta vermelha com calça azul e sapatinhos com meias, que parecia ter se aprontado para a festa de uma vida nova. Até Poseidon revoltou-se com o fato dele ter sido barrado no baile, ao devolvê-lo à areia dura, para que nos despertasse dessa hybris que provocamos.

Paul Ricoeur, de quem tive a grata satisfação de estudo no doutorado, recorda-nos que o simbolismo é algo que nos conduz ao pensar e um imaginário repleto de elementos simbólicos é requisito fundamental para pensarmos e agirmos no mundo com a consciência daquilo que fazemos. O pequeno Aylan já fez, involuntariamente, sua parte. Resta, agora, saber se queremos fazer a nossa, sob pena de, nas palavras do papa Francisco, continuarmos a trilhar pela “globalização da indiferença”. Com respeito à divergência, é o que penso.

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