Publicado 11 de Setembro de 2015 - 8h01

Por Sheila Vieira

Em valor recorde: rebaixamento da nota de risco do Brasil fez o dólar disparar nas casas de câmbio, com a moeda passando dos R$ 4,00 nesta quinta-feira (10)

Janaína Ribeiro/ Especial a AAN

Em valor recorde: rebaixamento da nota de risco do Brasil fez o dólar disparar nas casas de câmbio, com a moeda passando dos R$ 4,00 nesta quinta-feira (10)

Os setores produtivos, de serviços e comercial de Campinas temem os efeitos do agravamento da crise econômica após o novo abalo causado pelo anúncio do rebaixamento da nota de risco do Brasil - que complicou ainda mais a situação do câmbio e forçou o governo a falar com mais ênfase em aumentar impostos para cobrir o déficit previsto no Orçamento do ano que vem.

Representantes do setor industrial estão apreensivos e preveem mais desemprego na região em função da redução dos investimentos e da forte queda da demanda. As atitudes adotadas até agora pelo governo são consideradas recessivas - e complicam ainda mais a situação para as industrias, independentemente de seu porte ou ramo de atividade.

No período de abril a agosto deste ano 4,35 mil postos de trabalho foram fechados nas empresas do ramo industrial na Região Metropolitana de Campinas (RMC) e cidades vizinhas, aponta o diretor do Centro das Industrias do Estado de São Paulo (Ciesp) local, José Nunes Filho.

No comércio, as projeções são igualmente desanimadoras. De acordo com o economista da Associação Comercial e Industrial de Campinas (Acic), Laerte Martins, as taxas de juros e a inflação devem subir ainda mais, prejudicando o poder de compra da população e consequentemente afetando a atividade comercial.

A perspectiva é de uma retração ainda maior para outubro, com os bancos segurando empréstimos. “Tudo indica que o consumo irá despencar em função da insegurança no mercado de trabalho, enfraquecimento da moeda e baixa confiabilidade nas medidas do governo”, avaliou.

Os efeitos da crise no setor de serviços, como a área bancária, vão implicar em aumento nas taxas e no custo do dinheiro para empréstimos, válvula de escape da população em tempos de desemprego e arrocho econômico. A busca por alternativas para o aumento de receita também vai pesar no bolso do contribuinte.

“O governo está seguindo o caminho que a economia indica: aposta no alongamento da receita e possivelmente vai mexer nas taxas do Imposto de Renda. É uma solução ruim para nós. O que deveria ser priorizado é a diminuição dos gastos públicos”, analisou Martins.

Prefeito

O prefeito de Campinas, Jonas Donizete (PSB), também está preocupado com o desdobramento das medidas que serão implantadas pelo governo - que devem gerar enfraquecimento da atividade econômica, queda no consumo e desemprego, agravando o ciclo da recessão.

O chefe do Executivo, que é contra o aumento da carga tributária, esteve na última quarta-feira (9) em um evento com a presença do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e contou que o discurso agora é de convencimento da necessidade do aumento dos impostos.

“A todo momento o ministro justificava que a medida era necessária para que o País não perdesse o grau de investimento. Entretanto, o rebaixamento foi anunciado no mesmo dia”. O prefeito disse ainda que o enfraquecimento político do Governo provavelmente afetará o lançamento da terceira fase do programa Minha Casa Minha Vida, prejudicando a diminuição do déficit habitacional na cidade, que hoje é de 60 mil unidades.

Ajuste pesado

O Brasil passa por um pesado ajuste fiscal, que somado a uma recessão profunda coloca todos os setores em situação difícil. O conjunto de medidas para cortes de despesas e controle das contas públicas, que terá que ser adotado pelo governo, vai prejudicar especialmente a população mais pobre - e é visto com preocupação pelos economistas.

“Do ponto de vista técnico, essas são medidas que deveriam ter sido adotadas desde 2006. Uma alternativa viável para aumento de receita é a reforma tributária com aumento progressivo sobre a renda, ou seja, cobrar mais dos mais ricos", sugere o professor do Instituto de Economia da Unicamp, André Biancarelli.

Ele ressalta a gravidade da situação lembrando que a inflação deste ano só deve perder para a de 2002, quando encerrou a 12%, e que haverá uma retração entre 2% e 3% do Produto Interno Bruto (PIB) - resultado pior do que todas as crises desde meados da década de 1990.

Escrito por:

Sheila Vieira