Publicado 10 de Setembro de 2015 - 10h10

Movimentação policial no MP durante prisões do caso, em 2013

Cedoc/ RAC

Movimentação policial no MP durante prisões do caso, em 2013

Um réu no processo que julga o caso de corrupção e pagamento de propinas envolvendo policiais civis e traficantes confirmou nesta quarta-feira (9) à Justiça de Campinas a existência do esquema de extorsão e apontou o envolvimento de agentes da Delegacia de Narcóticos de São Paulo (Denarc) e ao menos três delegados nos crimes.

O acusado assinou um acordo de delação premiada e revelou detalhes do esquema. Ele atuaria como “ganso”, o que na gíria na policial define uma pessoa que ajuda informalmente os agentes em operações. O delator falou também sobre a possibilidade de um plano arquitetado pelos agentes para matar o promotor do Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), Amauri Silveira Filho, um dos responsáveis pela investigação da quadrilha.

Durante o depoimento, que durou cerca de três horas, o réu colaborador citou o deputado estadual e delegado do Denarc à época, Antonio Assunção de Olim (PP). Segundo ele, o parlamentar sabia da existência de “gansos” que trabalhavam para o Denarc. Em entrevista ao Correio, Silveira Filho explicou que Olim não é réu no processo e informou não haver provas de que o político sabia da existência do esquema.

Ele, tampouco, é objeto de uma investigação. Segundo o promotor, só foi relatado que Olim foi visto em um almoço com outros delegados que trabalhavam na delegacia. O réu colaborador afirmou que as extorsões eram de conhecimento de ao menos três delegados do Denarc. As acusações são de omissão em relação ao esquema e recebimento de valores pagos por traficantes.

Na fala, o delator — que já foi alvo de um atentado e anda com escolta da Polícia Militar — explicou ainda que foi proprietário de uma loja de carros em Guarulhos, na Grande São Paulo, onde atuavam os policiais antes de migrarem para o Denarc, em 2011. Quando o negócio fechou, começou a ser chamado para alguns “serviços” e para atuar como se fosse um policial civil: portava armas, colete à prova de balas, qualificava testemunhas, fazia intercepções telefônicas e utilizava viaturas da delegacia, onde tinha acesso livre até 2013, quando foram instaladas catracas no local.

O grupo no qual trabalhava era formado por sete pessoas, entre eles quatro policiais e mais quatro “gansos”. O quartel-general funcionava na garagem de um hotel em Guarulhos, onde eles se reuniam diariamente às 10h. No local, segundo ele, ficavam estacionadas as viaturas e os equipamentos guardados em uma sala.

De lá, eram planejadas “operações” em diversas cidades do Estado onde traficantes eram extorquidos. Drogas apreendidas nessas ações muitas vezes ficavam com os próprios policiais. No lugar, eram apresentadas à Polícia Civil uma menor quantidade ou entorpecente de má-qualidade. Todas as ocorrências eram fotografadas ou filmadas pelo “ganso”, que depois entregou o material ao Ministério Público.

O alvo em Campinas era o Jardim São Fernando, onde todo dia 15 de janeiro de cada ano os traficantes seriam obrigados a dar R$ 200 mil para se verem livres dos agentes, segundo a investigação do caso. Também há informações de repasses mensais de R$ 30 mil.

Em 2013, no entanto, o acerto anual não teria sido feito no prazo e os policiais começaram a pressionar o chefe e o gerente do tráfico no bairro campineiro, conforme depoimento. Por causa disso, duas mulheres teriam sido sequestradas, agredidas e uma delas chegou a ser torturada com uma máquina de choque por cerca de dez minutos.

A quadrilha também teria passado a fazer visitas constantes ao bairro para forçar o pagamento, chegando até a se mobilizar para impedir temporariamente o trabalho em um dos pontos de venda de entorpecentes e sequestrar traficantes. Em 11 de abril daquele ano, uma operação ilegal foi montada para pôr fim à dívida e a equipe voltou novamente a Campinas. O réu confirmou que traficantes, mulheres e duas crianças chegaram a ser levados para um chácara, em Monte Mor, onde foram mantidos em cárcere privado.

Por fim, os agentes conseguiram receber o pagamento, feito em um posto de combustível. Segundo o delator, uma média de 40% de valores arrecadados ficavam com delegados — dois são réus no processo — e o restante era dividido com a equipe.

Avaliação

“A verdade é que a prova que já existe nos autos e é robusta, coerente e mais do que suficiente para sustentar a condenação de todos. O relato do agente colaborador trouxe ainda mais elementos do que já era de nosso conhecimento”, avaliou o promotor no fim da audiência, que contou com o depoimento de seis testemunhas de defesa. Silveira Filho disse também que as novas informações colhidas “serão objeto de apurações específicas”.

A prisão dos traficantes e dos agentes foi possível depois que os telefones deles foram grampeados e escutas telefônicas mostraram como funcionava a operação da quadrilha. Além do pagamento aos policiais da Capital, em Campinas, os traficantes ligados à quadrilha de Wanderson Nilton de Paula Lima também faziam um suposto “acordo” com dois investigadores do 10º Distrito Policial de Campinas, região que compreende os bairros próximos ao Jardim São Fernando. O objetivo era que a venda da droga fosse facilitada.

Sem queixas

O delegado do Denarc à época e deputado estadual Antonio Assunção de Olim, citado pelo delator, disse que desconhecia a presença de gansos na delegacia e que não sabe quem é o réu colaborador. Na época em que era delegado, segundo ele, era “apresentado a dezenas de pessoas toda semana”. O réu disse ter visto Olim em um almoço com delegados supostamente envolvidos no esquema.

O deputado também afirmou que não tem do que se queixar dos policiais réus do processo. “Sempre trabalharam direitinho. Faziam várias apreensões. Não sei o que faziam da delegacia para fora”, afirmou. O promotor Amauri Silveira Filho explicou que não há uma investigação contra ele até o momento. “Nem há elementos no momento para tanto. Se aparecer algo relacionado à pessoa com fatos que escapem da atribuição do Ministério Público em primeira instância, vai ser dado conhecimento às autoridades competentes. Mas não é o caso no momento”, explicou.

Como tem foro priveligiado, o deputado estadual só poderia ser investigado pela Procuradoria-Geral de Justiça. Ele é cotado para ser candidato a vice-prefeito de São Paulo em uma chapa que seria encabeçada pelo apresentador José Luiz Datena.

Promotores receberam ameaças após prisões

Os promotores do Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) passaram a receber ameaças de morte após a prisão de 23 pessoas na operação em julho de 2013. Em uma correspondência endereçada ao promotor Amauri Silveira Filho, entregue em setembro do mesmo ano na sede do MP de Campinas, estavam fotos das fachadas de imóveis onde moram familiares dos promotores.

Na audiência nesta quarta-feira (9), o delator contou que a quadrilha começou a receber informações de que haveria um promotor que tinha detalhes sobre a operação criminosa e que os telefones utilizados por eles estariam grampeados. Era Silveira Filho, que chegou a ser apelidado de “Rambo” pelos acusados.

A morte ou sequestro de Amauri, familiares dele, ou de membros do Gaeco, chegou a ser ordenada, mas o tema foi objeto de discórdia na quadrilha e nenhuma ação foi arquitetada. “As ameaças foram constantes desde que a investigação se tornou de conhecimento deles. Foram cartas, telefonemas, a promotores do Gaeco e familiares. Desde então isso tem acontecido com uma certa frequência”, explicou o promotor. Segundo ele, cada ameaça é objeto de um procedimento de investigação específico.

Saiba mais

Ao todo, 23 pessoas são réus no processo. Entre eles, estão 12 policiais, 10 traficantes e o “ganso”, delator do esquema. Todos respondem em liberdade, exceto os que estão presos por outros crimes — o número de detidos não foi confirmado.

Quando a operação foi deflagrada pelo Gaeco, em julho de 2013, os promotores já investigavam a quadrilha há um ano. Procurada para falar sobre o caso, a Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP) afirmou que não iria se pronunciar, pois ele já se encontra na Justiça.