Publicado 08 de Setembro de 2015 - 22h31

Por Marita Siqueira

Chico Lobo reúne em novo álbum e livro, 30 anos de pesquisas inteiramente dedicados à cultura caipira

Divulgação

Chico Lobo reúne em novo álbum e livro, 30 anos de pesquisas inteiramente dedicados à cultura caipira

Importante expressão da cultura caipira, o violeiro Chico Lobo lança, simultaneamente, o CD Cantigas de Violeiro e o livro Conversa de Violeiro — Viola Caipira: Tradição, Mistérios e Crenças de um Instrumento com a Alma do Brasil, ambos pela Kuarup (gravadora e editora). O disco reúne 16 canções, sendo duas inéditas autorais, Breu e Simpatia da Cobra Coral, uma releitura, o canto de folia de reis Cálix Bento (domínio público), e 13 canções revisitadas dos 30 anos de carreira.

A obra soma-se as outras dezenas já lançadas, enquanto o livro marca sua estreia na literatura. Conversa de Violeiro - Viola Caipira foi gestado por dez anos, em parceria com o pesquisador carioca Fábio Sombra, e apresenta contos, causos, realidade e fantasia. Uma de muitas curiosidades cultivadas no Interior, segundo os escritores, é a palavra “Diabo”, que tem mais de 200 variações no vocabulário popular e revela porque alguns violeiros usam o guizo da cobra cascavel dentro da viola ou, ainda, como é feito o pacto com o “coisa ruim” para adquirir destreza no instrumento.

“São coisas que aprendemos nas andanças, construindo contatos de confiança e de amizade com os mestres. O processo de pesquisa foi feito com um resgate da nossa memória de algo de enorme valor imaterial”, afirma Lobo, que é mineiro de São João Del Rey, hoje radicado em Belo Horizonte, e viajante pelo mundo com sua música.

Segundo o violeiro, o lançamento duplo amarrou os laços confeccionados ao longo deste período no qual esteve (e está) imerso na cultura regional. “Foi a certeza da escolha de contar o Brasil profundo, pelo qual sou encantado e onde a viola é muito presente. Ela cumpre um funcionalismo regional que são as folias de reis, as catiras, guaiano, fandango, danças de palmeado, entre outras manifestações populares pelo País”, diz.

Além da temática, o elo entre música e literatura é firmado pela compreensão e o conhecimento da cultura caipira. “A moda de viola é uma linha direta com o trovadorismo”, conta. A faixa Boi Carreador (gravada em Viola Popular Brasileira) também exemplifica um pouco isso. “Fala sobre um boi que é levado ao matador, mas que o garoto acredita que ele foi para lua mesmo depois de adulto. É a riqueza da fantasia”.

Entre as folias, batuques, catiras e até uma ode ao Brasil, que revela os caminhos traçados por Lobo e as cordas de sua viola (no caso, Brasil Violeiro, uma parceria com Tadeu Martins, do CD Viva a Viola - Viva a Cantoria), o músico buscou novidades para tecer o repertório do CD. “Ai veio a minha versão de Calix, uma música que gosto muito, mas nunca tinha gravado. Breu e Simpatia da Cobra Coral fazem conexão com o livro, falando do lado místico do violeiro e a paixão pela cultura caipira” , afirma.

Breu fala da dramática história do pactário, aquele que, para conseguir o dom de tocar a viola, faz um o pacto com o Capeta. A segunda, Simpatia da Cobra Coral, como convidado recitando uma simpatia muito usada no Interior para o violeiro adquirir agilidade no toque da viola. Outros destaques do disco são as participações especiais de Rolando Boldrin, que recita Simpatia..., Tavinho Moura, em Breu, Xangai, em Boi Carreador, Pena Branca, em Tropa, e do pai, Aldo Lobo, em Criação. Esta última, inclusive, integra o show e o DVD comemorativo dos seus 50 anos de carreira de Maria Bethânia.

O futuro da cultura caipira

Ao falar sobre as tradições e a viola, Chico Lobo demonstra otimismo quanto à permanência futura da cultura. “Vejo que os jovens querem aprender a tocar a e saber mais. Hoje você tem a viola dentro da universidade, tem aula em escolas e muita informação na internet. Antes, se aprendia na oralidade. Apesar de manter a carreira ao lado da viola por três décadas, Chico ainda demora para se considerar um mestre. “Seria muita pretensão. Sem dúvida, trabalhar com a cultura caipira é uma missão que estou cumprindo, mas não acho que posso ser chamado de mestre das novas gerações. Me chame de violeiro que está bom demais da conta”, considera sem deixar as mineirices pra trás.

SAIBA MAIS

CD Cantigas de Violeiro

Gravadora: Kuarup

Preço sugerido: R$ 24,90

Livro Conversa de Violeiro - Viola Caipira: Tradição, Mistérios e Crenças de um Instrumento com a Alma do Brasil

Editora: Kuarup

Preço sugerido: R$ 45,00

Páginas: 143

DVD Arte de Pontear a Viola

Gravadora: Independente

Preço sugerido: R$ 79,90

Escrito por:

Marita Siqueira