Publicado 08 de Setembro de 2015 - 6h30

Por Bruno Bacchetti

O médico Diogo Vinícius dos Santos, clínico geral do Hospital Ouro Verde, em Campinas

Janaína Ribeiro/ Especial a AAN

O médico Diogo Vinícius dos Santos, clínico geral do Hospital Ouro Verde, em Campinas

A proporção de médicos por habitante trabalhando na rede municipal de saúde em Campinas supera a quantidade de profissionais em 18 capitais brasileiras, segundo o estudo Perfil dos Municípios Brasileiros, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no final de agosto.

De acordo com o levantamento, Campinas tem 1.303 médicos nas unidades municipais, equivalente a um profissional para cada 886,12 habitantes.

O município perde somente para Campo Grande (448,70), Brasília (572,88), João Pessoa (617,18), Vitória (768,78), Cuiabá (782,96), Belo Horizonte (874,07) e São Paulo (879,03), superando cidades como Rio de Janeiro (1.301,41), Curitiba (937,83) e Porto Alegre (1.073,28).

Duas cidades não informaram os dados — Fortaleza e Goiânia. Segundo o estudo, Campinas ainda tem 320 médicos atuando no Programa de Saúde da Família, que oferece assistência básica em unidades básicas de saúde.

Em números absolutos, o índice de médicos de Campinas no programa é inferior apenas a São Paulo (1.196), Rio de Janeiro (889) e Belo Horizonte (507).

A proporção de médicos de Campinas está dentro dos parâmetros da Organização Mundial de Saúde (OMS), que preconiza como ideal de atenção à saúde da população a relação de um médico para cada mil habitantes.

No entanto, a população que frequenta os hospitais municipais relata demora no atendimento e avalia que a quantidade está longe do ideal. A própria Prefeitura admite que há deficit de médicos no município.

O secretário de Saúde de Campinas, Carmino de Souza, destacou o bom desempenho alcançado por Campinas em comparação com outras cidades do País.

“Esse resultado do IBGE mostra que estamos no caminho certo. Temos feito um esforço muito grande para completar o quadro de médicos e vem melhorando. Teve um problema lá atrás com as demissões do Cândido Ferreira, mas temos feito concursos e a situação global melhorou bastante”, afirmou.

Para o neurologista Luiz Antonio da Costa Sardinha, conselheiro do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), em Campinas, a situação da rede pública de saúde na cidade registrou melhora nos últimos anos. No entanto, ele avalia que a distribuição dos profissionais não é homogênea e faz com que regiões periféricas tenham carência de médicos.

“O número de médicos é suficiente para a população da cidade, mas é mal distribuído. Talvez tenha muito médico no Centro e falte na periferia. Mas melhorou nos últimos anos e a saúde está sendo mais valorizada na sociedade”, avaliou.

Sardinha ressalta que as condições oferecidas na rede pública precisam melhorar para que os médicos se interessem em atuar nas unidades municipais. “É preciso dar segurança, condições de trabalho e um plano de carreira para o médico optar pela rede pública. O médico não consegue ir a congressos e se tiver mestrado ou doutorado não muda sua situação. Nos últimos anos diminuiu muito o número de leitos do SUS, de exames secundários (como ultrassom e ecografia) disponibilizados pelo SUS”, explicou.

Carmino reconheceu que a rede municipal de saúde ainda possui carência em algumas especialidades, como ginecologia e obstetrícia e pediatria para atendimento de emergência aos finais de semana.

Segundo ele, até o ano que vem será lançado um novo concurso para o preenchimento de 130 vagas, que vão completar o quadro.

"Reconheço que existem necessidades, temos dificuldades pontuais, como de pediatras aos finais de semana no Campo Grande e Pronto Atendimento da Vila Padre Anchieta. Talvez abrindo outras unidades tenhamos que ter mais médicos. Por ora, são esses 130”, enfatizou.

Morador de bairro afastado sofre com falta de profissionais

Mesmo com o número de médicos acima de muitas capitais, a população sofre com a carência de profissionais, principalmente nas regiões mais afastadas.

O tempo de espera nos hospitais municipais e pronto atendimentos é alto e obriga a população a passar horas aguardando na fila para ser atendido.

Para agravar a situação, hospitais como Ouro Verde e Mário Gatti são instituições “portas abertas”, portanto, absorvem a demanda da Região Metropolitana de Campinas (RMC). É comum que moradores de cidades vizinhas venham até a cidade passar por atendimento médico.

Moradora do DIC, a estudante Kelly de Freitas, de 17 anos, passou mais de três horas para ser atendida por um ortopedista na última sexta-feira (4) no Hospital Ouro Verde. “Eu acho que faltam médicos, porque demora muito para ser atendido. Não é suficiente, às vezes preciso ir ao posto de saúde, e tem dia que não tem remédio”, disse.

A aposentada Emiliana Joana da Silva, de 78 anos, também passou por atendimento de emergência no Ouro Verde na sexta-feira. Apesar de horas de demora para concluir seu atendimento, ela elogiou o médico que a atendeu. “O atendimento foi rápido, mas ele examinou direitinho. Fui ao pronto-socorro, mas só davam um remedinho e tinha que voltar”, afirmou.

O clínico geral Diogo Vinicius dos Santos, de 29 anos, trabalha há seis meses no Hospital Ouro Verde e acredita que a quantidade de médicos nos pronto-socorros da rede municipal tem crescido, mas defendeu uma mudança no modelo, valorizando a atenção básica.

“Tivemos um aumento de médicos nos pronto-socorros. Temos uma demanda extremamente alta de pacientes, não é questão de faltar médicos. Temos quatro médicos, mas são três consultórios. Essa população vem para cá porque a rede básica não consegue dar conta da demanda. Nosso modelo de saúde, muito hospitalar, não é resolutivo”, destacou. (Colaborou Janaína Ribeiro).

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Bruno Bacchetti