Publicado 06 de Setembro de 2015 - 10h44

Por Gustavo Abdel

Quando tinha 26 anos, o faz-tudo embarcou no navio argentino Corrientes rumo ao Brasil: "Já fui parar na rua"

César Rodrigues/ AAN

Quando tinha 26 anos, o faz-tudo embarcou no navio argentino Corrientes rumo ao Brasil: "Já fui parar na rua"

Manuel de Jesus da Silva fica sentado em seu banquinho branco e da porta de seu cantinho observa o movimento da Rua São Carlos — paralela à Avenida João Jorge, e aguardando a clientela. Todas as manhãs, o volume do seu rádio no noticiário local dá para ser ouvido da calçada. O avental azul claro puído e os óculos escuros o fazem uma figura curiosa, e destacada, entre as casas de cores desbotadas e tombadas como patrimônio histórico de Campinas.

A Vila Industrial exala história por ser o primeiro bairro de trabalhadores, e Manuel compõe esse cenário com uma aura que nos remete ao começo do século passado.

Apesar de sua mercearia ocupar um espaço de cinco metros de comprimento por dois de largura, a história desse imigrante de 78 anos segue para mais de quilômetro, de tantos causos que vai pavimentando ao longo da conversa. E, ele sabendo disso, a todo o momento faz questão de lançar o desafio: “Mas você quer saber tudo mesmo?”.

Se não tudo, pelo menos uma parte da trajetória desse senhor apelidado pelos fregueses de “português”, mas quando na verdade sofreu, e muito, igual a um brasileiro. Por exemplo: perdeu tudo com os efeitos do Plano Collor. Foi então que Manuel “quebrou”, e foi viver nas ruas de Campinas em 1993.

Mas até chegar nesse ponto o português de Figueiró dos Vinhos fez de tudo um pouco, em muitos ramos comerciais. Esse é seu tino, vender. A primeira e única vez que trabalhou como empregado foi inesquecível, segundo ele. Tinha acabado de chegar ao Brasil, em 1963, e por dois anos trabalhou como motorneiro (piloto) de bonde.

“Quando vim para o Brasil não foi para passear, e sim trabalhar. Bati na porta da empresa de bonde e consegui o emprego de motorneiro. Fazia todas as linhas, e como eu precisava trabalhar entrava às 4h da manhã e tinha dias que eu saia às 17h. Às vezes me chamavam de madrugada para trabalhar, mas eu gostava”, conta.

Para Manuel aquela rotina era melhor do que servir à “tropa” portuguesa. “A vida no Exército naquela época dos anos 60 não era fácil. Foi decisão acertada vir para o Brasil”, lembra. Então, aos 26 anos deixou para trás toda a família e embarcou no navio argentino Corrientes.

Depois do bonde foi trabalhar em uma barraca na feira, depois no Mercadão e engrenou no ramo de venda de automóveis. Teve dois estacionamentos, no Centro, e um posto de combustíveis em Valinhos. Tudo ia bem até que com o Plano Collor (congelamento da moeda) fez com que muitos brasileiros, inclusive o português Manuel, perdesse um apartamento, três casas e carros.

“Um período em que fui parar na rua”, lembra, com lágrimas nos olhos. Pais de duas filhas e viúvo ficou à deriva.

Um Gol 1984 era o que lhe restava, e sem condições de bancá-lo, deu a um conhecido que tinha a incumbência de pagar as sete parcelas restantes.

“No dia 31 de junho de 1994 fui preso por causa do carro. Ele não pagou as prestações e fui levado para a extinta carceragem do 4° Distrito (Policial)”, conta, sem qualquer vergonha. Mas Manuel não ficou junto com os presos durante os 30 dias, e sim “solto” pela delegacia, já que era muito conhecido do delegado.

“Tinha morado com uma parente do delegado na Vila Costa e Silva. Era chegado dele e ele entendeu a situação”, sorri.

Manuel saiu da cadeia com uma bíblia debaixo do braço dada por um pastor. O livro é lido diariamente em seu cantinho, alugado, chamado Monte Sinai. “O lugar do senhor é no Monte Sinai”.

O cheiro de queijo meia cura toma o ambiente, apesar de as rodelas brancas estarem embrulhadas em um plástico sobre o balcão, junto com os diversos tamanhos de frascos com mel puro. “Me recuperei na vida, me casei de novo e hoje tenho dois carros na garagem. Passei por muitas dificuldades, e além do comércio me dedico a ajudar o próximo”, finaliza.

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Gustavo Abdel