Publicado 05 de Setembro de 2015 - 9h57

Por João Nunes

Revisitando Blade Runner

João Nunes

Revisitando Blade Runner

O projeto Clássicos em Cena, da Rede Cinemark, exibe Blade Runner neste sábado (5), domingo (6) e quarta (9). O jornal me pediu um texto sobre. Revi o filme e escrevi o texto abaixo. Difícil falar de um trabalho do qual se falou tanto. E, mesmo limitado pelo espaço do jornal impresso, tentei captar um pouco do espírito da obra de Ridley Scott.

Por que Blade Runner, o Caçador de Androides (Blade Runner, Estados Unidos, 1982), de Ridley Scott, sobreviveu ao tempo? Poderia não ter sobrevivido. A Los Angeles de novembro 2019 – daqui a quatro anos – se supõe, não será igual ao mundo retratado pelos roteiristas Hampton Fancher e David Peoples (livremente baseado no romance Do Androids Dream of Electric Sheep?, de Philip K. Dick.

A chuva que nunca para, a convivência forçada (num espaço restrito) de tantas etnias, a insegurança, as naves no papel de carros sobrevoando uma estranha cidade, a anticomunicação dos onipresentes outdoors em movimento, a multidão se acotovelando em lugares inóspitos, a angústia que parece pairar naquele ambiente escuro e caótico.

Contudo, algo desse cenário virou profecia, como a superpopulação e a globalização; talvez a angústia e o caos em lugares específicos ou os choques de etnias e a insegurança – demonstração de que o filme envelheceu muito bem e por razões consistentes.

Outra é a questão filosófica relativa à morte e válida desde os nossos primórdios. E inquieta o porquê de os androides quererem ser humanos? Por que não, deuses? Deuses, eles teriam o poder sobre a morte? E por que querem uma sobrevida, igual anseio da humanidade, se todos nós vamos morrer?

Ao matar o criador, Rutger Hauer (Roy Batty) demonstra poder sobre alguém tão humano como nós e expõe o tamanho da finitude dele e da nossa, pois a duração máxima de um androide seria de quatros anos. A humana, passa dos oitenta, mas, segundo o salmista bíblico, depois disto é canseira e enfado. Então, por que a luta inglória por tentar superar a morte ou adiá-la?

A discussão sobre a transcendência sustenta o filme e o fez ultrapassar três décadas. Note a lucidez do diálogo entre criador e criatura. “Você não foi feito para durar, mas é o mais brilhante”, diz Tyrell (Joe Turkell) – e o chama de filho pródigo. “Eu quero mais vida, pai”, se desespera o androide. Ou a citação descartiana de Pris (Daryl Hannah): “Penso, logo existo”.

Mas há outras razões. Se o protagonista Deckard não fosse Harrison Ford, teria de ser Harrison Ford. Este encarna brilhantemente o sujeito que não suporta o trabalho que faz; com cara de tédio, aceita relutante uma missão para a qual não tem a menor simpatia, mas é o que faz dele um herói sem poderes sobrenaturais, porém, profundamente humano.

E, sim, há uma dívida com Rachel (Sean Young), mas a cumplicidade de Deckard desde o início com ela prenuncia o olhar humanista dele – belíssima a cena em que, tomando uísque sozinho, descobre-se atraído por aquela estranha mulher, como se dissesse: “me perdi”. Afinal, a missão era caçar androides.

E tem a trilha de Vangelis. As trilhas sonoras tom pastel dos blockbusters atuais parecem feitas dentro de uma fórmula milimetricamente pensadas e executadas. O resultado? Todas iguais. Ou quase.

Vangelis arrebata logo na abertura espetacular; a música cria atmosfera que casa à perfeição com o cenário futurista proposto por Scott. E tem espaço para as tão importantes pausas (respiros que também são música), e tons e instrumentos distintos como protagonistas – música com personalidade, com sentimento.

Blade Runnner foi um quase fracasso. Recebeu críticas ruins, teve pequeno lucro, foi esnobado nas premiações, mas alcançou outro status ao longo do tempo: virou cult absoluto. Difícil não revê-lo (e na tela grande) sem ser tocado por ele.

*Publicado no Correio Popular de Campinas em 5/9/2015

Escrito por:

João Nunes