Publicado 07 de Agosto de 2015 - 21h25

FOTOS DE ELCIO ALVES E ARQUIVO

TEM VÍDEO!!!!!!

íííÍíFábio Gallacci

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

gallacc[email protected]

Por essa, nem mesmo a equipe que trabalha há anos na Mata de Santa Genebra esperava. Maior área remanescente de Mata Atlântica da Região Metropolitana de Campinas (RMC) e segundo maior fragmento da fauna e flora nativos inserido em um perímetro urbano do Brasil, o lugar vibra com uma grata surpresa exatamente no momento em que celebra o seu 34º aniversário. Em 2013, um sistema de câmeras que capta movimentos dentro da mata flagrou uma fêmea adulta de onça-parda (também conhecida como suçuarana) naquela área. Era a primeira vez que aquele animal era filmado na mata e o Correio noticiou a novidade. No ano passado, o mesmo sistema registrou a fêmea acompanhada de um macho circulando por ali. Nos últimos meses, as surpreendentes imagens que surgiram foram as de dois filhotes. Como se não bastasse, foram gravadas cenas com uma jaguatirica, espécie que havia desaparecido dali, e lontras. O fato representa uma vitória de todos no local, já que é o indício de que a área está com o seu ecossistema equilibrado.

“A presença da onça é o sinal de um equilíbrio bastante grande do ecossistema local”, confirma Pedro Henrique Delamain Pupo Nogueira, presidente da Fundação José Pedro de Oliveira, que faz a gestão compartilhada da Mata de Santa Genebra com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). “Foi um presente para todos”, comemora Cynira Any Jovilhana da Silva Gabriel, diretora do Departamento Técnico-científico da área. “Avistamos uma onça e achamos que estava prenha. Depois de um tempo, vimos uma fêmea e um macho. Agora, as câmeras registram uma onça com dois filhotinhos. Há 18 anos que estou aqui e é a primeira vez que eu vejo isso. Mais recentemente nós passamos a ter esse recurso das câmeras e pode ser que ela já tenha andado pela mata, mas nunca havíamos registrado”, comenta a diretora, lembrando que a partir de agora será realizado um trabalho de conscientização da vizinhança para evitar que noções equivocadas sobre o animal possam gerar pânico na população mais próxima e possíveis reações indesejadas.

De acordo com Cynira, o que pode estar ocorrendo é a tentativa de fuga das onças de um avanço cada vez maior das zonas urbanizadas. “São desmatamentos, condomínios. Isso faz com que esses animais sejam espantados para outras áreas. Eles estão buscando refúgio. Então, a mata, para a onça, nada mais é do que um lugar para se esconder. O que queremos entender agora é se esses animais vão continuar vivendo aqui ou se o espaço é apenas uma passagem. Vamos avaliar se a mata tem um suporte para atender esses animais por um bom tempo”, explica a diretora.

Cães e gatos

Apesar de estar cada vez mais próxima da mata, a população também pode contribuir para a proteção das espécies silvestres. O simples controle de seus animais domésticos já seria importante. “Cães e gatos podem trazer uma série doenças para dentro da mata, além de serem possíveis predadores de uma série de espécies que ficam abaixo da onça na cadeia alimentar, como tatus e coelhos, por exemplo. Esses animais estão com uma frequência muito constante aqui”, conta Cynira, alertando para uma outra situação. “Muitos cães e gatos são abandonados aqui. O pessoal vem passear no final de semana, deixa o animal e vai embora. Nas férias isso acontece bastante, as pessoas não sabem o que fazer com os bichos. Muitos deles também estão doentes e os donos simplesmente abandonam”, lamenta a diretora. A atual Administração fez o cercamento com alambrados da parte urbana da mata justamente para impedir que os animais domésticos continuem entrando, mas o problema ainda existe por falta de consciência de seus donos.

SAIBA MAIS - A ONÇA

A onça-parda Puma concolor é o segundo maior felino do Brasil. Quando adultos, o comprimento total varia de 1,5 e 2,75 metros e o peso de 22 a 70 quilos. Este animal ocorre em uma ampla variedade de habitats, desde florestas até formações de savanas e aparece, eventualmente, em ambientes alterados como plantações e pastagens estando presente em todos os biomas brasileiros.

É um animal solitário, porém, na época reprodutiva casais podem ser vistos pareados. Eventos de pareamento podem também ser observados quando são encontrados irmãos jovens (com porte adulto a partir do 8º mês) em período pré-dispersão ou mãe com filhotes jovens. Nestes casos, podem ser observadas três ou quatro onças juntas. A alimentação é composta por uma grande diversidade de animais, incluindo desde presas grandes, como veados, até presas de pequeno porte, como roedores e invertebrados. No Brasil, a dieta é composta quase que exclusivamente de animais de pequeno a médio porte. Atribui-se isto à competição com a onça-pintada.

Em Campinas

Na região de Campinas, a onça-parda tem papel importante no controle das populações de capivaras, contribuindo para o controle da febre maculosa.

O padrão de atividades é tipicamente noturno, apesar de eventualmente ser observada em atividade em diversas horas do dia, principalmente ao entardecer. O período de gestação dura de 82 a 98 dias, nascendo de um a seis filhotes.

Em nossa região, as maiores ameaças à sobrevivência desses felinos reside na fragmentação e isolamento das florestas, bem como na implantação de estradas e rodovias, responsáveis por um grande número de atropelamentos a cada ano. Uma característica biológica torna todas essas ameaças particularmente graves, pois a onça-parda tem tamanhos populacionais naturalmente baixos e a reposição de indivíduos é lenta, ou seja, a perda de indivíduos da população, por caça ou atropelamento, é extremamente impactante à espécie.

Tal fato reforça a necessidade e urgência em preservar os poucos

remanescentes florestais da região e em estabelecer corredores ecológicos

que permitam a circulação segura da fauna em sua busca por alimento,

parceiros reprodutivos, entre outras condições necessárias a sua

sobrevivência.

Equipe da Mata de Santa Genebra

RETRANCA

O presidente da Fundação José Pedro de Oliveira, que gere a Mata de Santa Genebra, Pedro Henrique Delamain Pupo Nogueira, ressalta o trabalho que tem sido feito por todos para a proteção da fauna e flora local, mas lamenta que o espaço ainda é um ilustre desconhecido para muitas pessoas. “A Mata é um patrimônio que o campineiro tem, mas que, lamentavelmente, muita gente não conhece de perto. Talvez, muitos até nem saibam da sua existência”, diz.

Para que o lugar seja uma referência cada vez maior, há vários projetos sendo adotados no local. Um deles é o da conexão dos fragmentos de mata nativa da região para criar um corredor ecológico que possibilite a migração de animais silvestres entre esses pontos, favorecendo até mesmo a reprodução de algumas espécies de forma natural. A chamada “passagem de fauna” é parte desse processo. São caminhos alternativos criados para que os animais não circulem pelas estradas da vizinhança. “Nós temos ali perto da (rodovia) D. Pedro I um dos maiores índices de atropelamentos de animais. Até o final do ano, as obras da passagem de fauna serão iniciadas. Temos um prazo de 90 a 120 dias para concluir tudo”, adianta Nogueira. “O mais importante é preservar a fauna e a flora porque é raro você ter hoje um fragmento de Mata Atlântica de 110 alqueires dentro do perímetro urbano. Isso é uma riqueza para a cidade. Temos um trabalho intenso de educação ambiental, recebemos escolas e entidades, fazemos visitas monitoradas todos os finais de mês para despertar a consciência das pessoas. Também, nesse momento em que vivemos uma crise hídrica, a Mata é importante em relação à retenção de água. São benefícios que a população tem indiretamente. Ela não percebe que está sendo beneficiada, mas está”, afirma o presidente.

Custo zero

Nogueira ressalta ainda que muita coisa que está sendo feita na Mata de Santa Genebra não tem custo algum para os cofres públicos porque é resultado da aplicação de Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) ou

Termos de Compromisso de Recuperação Ambiental (TCRAs). Outro dos projetos é o quase total monitoramento da área por câmeras. “Vamos conseguir flagrar pessoas que invadem o local, focos de incêndio, despejo de entulho e, inclusive, localizar de carros roubados, que é um problema seríssimo”, comenta ele.(FG/AAN)

SAIBA MAIS – HISTÓRICO DA MATA

Ainda pertencente ao que restou da propriedade originalmente conhecida como Fazenda Santa Genebra, a Mata de Santa Genebra teve seu nome derivado do nome da propriedade. A fazenda, cujo proprietário original foi o Barão Geraldo de Resende, era muito extensa, abrangendo o Distrito de Barão Geraldo e algumas áreas da Cidade de Campinas. O Barão era um homem visionário, e sua fazenda era considerada modelo em tecnologia na plantação de café. Porém, ao investir em novas tecnologias, o Barão foi à falência, e suas terras foram a leilão. Uma das famílias compradoras, a família Oliveira, manteve intacta a área de mata. O proprietário, Sr. José Pedro de Oliveira, após a sua morte, a fazenda foi dividida entre os herdeiros, e a viúva, Sra. Jandyra Pamplona de Oliveira, concretizou a doação da mata ao Município em 1981, enfatizando seu desejo de que fosse conservada. É a segunda maior floresta urbana do Brasil, atrás apenas da Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro.

O NÚMERO

150

Espécies de aves já foram catalogadas na Mata de Santa Genebra

VISITAS

A Mata Santa Genebra é aberta a visitas agendadas de estudantes, pesquisadores de várias instituições que com frequência estudam suas características, tanto da fauna como da flora, mas também promove eventos abertos à população em geral.

HOJE

Para celebrar o 34º aniversário da Mata de Santa Genebra, está marcada para hoje a realização da “3ª Corrida na Mata”, com inscrições já encerradas. O evento que une a prática esportiva à responsabilidade socioambiental acontecerá ao redor da área, em um percurso de 8 quilômetros. Todo o trajeto é feito na terra, o que diferencia a prova das demais corridas da região. São esperadas, entre participantes e visitantes, por volta de duas mil pessoas. Ao final, 150 mudas de árvores nativas serão plantadas ali.

Além da corrida, uma série de outras atividades estão programadas para celebrar o aniversário da Mata. Na próxima terça-feira, ocorre no campus 2 da PUC-Campinas, parceira do evento, diversas palestras e debates. Na quarta e quinta-feira serão possíveis visitas monitoradas à área verde. Mais informações podem ser obtidas pelo site www.santagenebra.org.br ou pelo telefone (19) 3749-7205.