Publicado 06 de Agosto de 2015 - 19h08

Por Adriana Leite e Silva

Adriana Leite

Da Agência Anhanguera

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A conjuntura mundial e interna no Brasil influenciam a economia no País. Mais do que o ajuste fiscal e a alta dos preços administrados, a mudança no modelo econômico da China e os desdobramentos da Operação Lava Jato impactam o desempenho do Brasil neste ano. A análise é do diretor-executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI), Otaviano Canuto.

Ex-professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ele esteve na cidade na última segunda-feira, no Instituto de Economia (IE) da universidade, para proferir palestra com o título “Expansão e crise na economia global”.

Canuto afirma que o Brasil “não vive o fim do mundo”. Ele salienta que os números mostram que o País não retrocedeu nos ganhos que obteve no novo milênio. O diretor-executivo diz que a conjuntura é desfavorável, mas a perspectiva é de retomada do processo anterior pautado na expansão da economia em um futuro não muito distante.

Canuto argumenta que a Operação Lava Jato traz reflexos fortes na dinâmica econômica do País ao impactar o fluxo de investimentos públicos e privados. Entretanto, ele ressalta que os desdobramentos das investigações trarão mais transparência nas relações entre governo e os fornecedores.

Leia abaixo entrevista com o diretor-executivo do FMI.

Correio Popular - O País passa por um momento que deixa os brasileiros assustados. Como o senhor vê o cenário atual do Brasil?

Otaviano Canuto - Não é o fim do mundo. O debate interno dá uma certa intenção de que o País retrocedeu ou perdeu os ganhos que obteve no novo milênio. Isso não aparece nos números que analisamos. A conjuntura atual é desfavorável, mas o que não quer dizer que o processo anterior (de crescimento econômico) não possa ser retomado no futuro não muito distante.

Qual a avaliação do senhor da crise política que afeta a economia?

Não vou falar sobre crise política. A conjuntura desfavorável deste ano, em termos de baixo crescimento do PIB e de emprego, é uma combinação de um ajuste necessário no plano fiscal e no plano de preços relativos porque os preços administrados estavam fora do lugar.

E no momento em que são ajustados têm se um choque de inflação. Mas o importante não é o choque e, sim, evitar a propagação dele e isso o País está conseguindo. A inflação sobe a 9%, mas as projeções apontam para baixo.

Mas o grosso da desaceleração decorre, principalmente, não da política macro e do ajuste fiscal, mas de um fenômeno de uma outra correção que é no plano microeconômico.

O que se assiste como desdobramento da Operação Lava Jato tem um lado benigno, cujo fruto econômico vai amadurecer, principalmente no médio prazo, com o aumento da concorrência na provisão de serviços para o setor público, na melhora na relação gasto resultado no investimento público e assim por diante. Tem ainda o lado positivo de ver as instituições independentes funcionando.

Agora no curto prazo haverá um período dolorido porque essas estruturas de mercado que existiam se desmancharam. As empresas que tinham participação em todo o plano de investimentos públicos, por exemplo, estão em crise. Secou a fonte de financiamento.

E como tinham e têm responsabilidade por uma boa parcela de financiamento dos investimentos públicos pesados o sistema está sofrendo os efeitos de sua crise. E os novos entrantes ainda estão esperando para ver o que vai acontecer.

Tem uma conjuntura de desaceleração de investimentos públicos e privados que explica a desaceleração do PIB não é o ajuste fiscal.

Quanto mais rápido o País conseguir separar as investigações da saúde das empresas, haverá uma resposta na economia. Hoje, não há estabilidade da estrutura e os agentes privados não retomaram o investimento.

Como o FMI vê hoje o Brasil?

O FMI vê dessa maneira como eu disse. Vê o ajuste na direção correta e torce, evidentemente, para que o cenário fique claro para o programa de concessão, investimentos e outras reformas estruturais que possam levantar novamente o crescimento do Brasil.

Como o hoje o FMI vê a América Latina?

A América Latina são três coisas diferentes. Tem a parte da América Central e México que depende muito da recuperação da economia americana. A América do Sul têm em comum que está passando pela fase de menor dinamismo dos preços das commodities. A diferença entre os países da América do Sul está na capacidade maior ou menor que cada um desses países têm de responder a desaceleração decorrente da queda dos preços das commodities.

E nesse caso tem diferenças enormes de um lado com Chile, Peru e Colômbia e, de outro lado, Argentina e Venezuela.

Quais são os riscos dos efeitos que a instabilidade nas economias de China e Grécia podem produzir sobre as economias emergentes como o Brasil?

O efeito Grécia é localizado. De certa maneira, para o bem ou mal da Grécia, os outros países da zona do euro foram se adaptando e se preparando para eventuais dificuldades na Grécia.

Hoje o risco sistêmico da Grécia é bem baixo em relação há três ou quatro anos atrás. Certamente, não para o bem de gregos, que poderiam ter imaginado usar isso como alavanca negociatória. O fato é que o resto do mundo se preparou.

E os sobressaltos na economia chinesa?

A China é importante pelo seu peso crescente não apenas para o mundo, mas para outras economias em desenvolvimento, especialmente para o Brasil. O fato se deve pelo impacto da China nos preços de commodities e também pelo dinamismo da parcela do mundo que passou a interagir mais fortemente com os chineses.

A China está passando por um trânsito entre padrões de crescimento diferentes. Não está, muito pelo contrário, à beira de nenhum colapso. O que ocorre é que o país está atravessando a dificuldade de um modelo extremamente exitoso, que permitiu, do ponto de vista de crescimento econômico, que a China atravessasse as três últimas décadas com taxas de crescimento de dois dígitos.

Mas, ao mesmo tempo, os próprios chineses já sabiam que era um modelo que iria chegar à exaustão.

O modelo era baseado em taxas de investimentos com proporção do PIB estupidamente elevada, por isso que cresciam a 10% ou mais. O uso dessa estratégia só era possível com achatamento do consumo doméstico e de salários, e com o mercado mundial apto a absorver excedentes comerciais gigantescos da China.

Esse crescimento durante os últimos 30 anos da China também foi baseado na transferência de mão de obra de atividades de subsistência para atividades de manufaturas leves. Processo semelhante aconteceu na América Latina e Brasil até os anos de 1980; e que outras partes do mundo como os tigres asiáticos viveram nos anos de 1970 e 1980.

Não houve diferenças nesse processo visto que há diferenças entre a economia chinesa e a brasileira?

A diferença é que em vários aspectos os chineses fizeram muito melhor do que nós porque o processo deles foi muito mais inclusivo do que o nosso. A despeito do achatamento dos salários na China, houve um processo de melhora educacional da base da população; houve a exposição à concorrência do comércio exterior que induziu a um maior aumento de produtividade do que foi o nosso caso.

Mas o fato é que esse mesmo processo comum, da mesma forma que atingiu limites aqui precocemente, na China eles também sabiam que a partir de um certo ponto ia se esgotar o escopo de atividades de transferência fácil de mão de obra com tecnologia padronizada do Exterior.

Os chineses têm conhecimento de que a partir de agora precisam transitar para a ocupação de posições mais sofisticadas nas cadeias de valor e, portanto, uma competitividade baseada não apenas em salários de uma mão de obra não qualificada baixa.

O Banco Mundial fez um trabalho, na época em que eu era vice-presidente, em coautoria com o Tink Tank (ligado ao partido comunista) apontando os limites do modelo anterior e a necessidade de mudar para outro tanto por fatores domésticos quanto por fatores externos, com o desaparecimento do apetite do resto do mundo por segurar os saldos comerciais crescentes.

Qual o caminho para fazer uma mudança dessas em um país como a China?

A questão é que não se muda um modelo desse para outro da noite para o dia, porque as transformações exigidas no aparato institucional são profundas e o grande sonho chinês é fazer essa transição de modelos com um mínimo de solavancos, mas os solavancos eram esperados.

Os chineses ficaram muitos assustados, como nós todos, com a beira do abismo em 2008 com o Lheman Brothers. Como todos os outros emergentes, eles usaram políticas anticíclicas para segurar a onda. No caso dos chineses, foi de certa maneira fechar os olhos para uma grande bolha imobiliária financiada via mecanismos de um sistema financeiro paralelo. O mesmo processo foi usado para segurar o nível de financiamento no caso da construção. Essa estrutura entrou em parafuso nos últimos dois anos.

Os chineses estão tentando controlar para que não se transforme em um problema sistêmico maior. Mas o caminho é transitar para um modelo que vai ter um crescimento menor. Entretanto, ele será um crescimento menor, algo entre 5% e 7%, mas que paradoxalmente, pode ter um respaldo maior da população do que o anterior.

O apoio virá do fato de que agora será baseado no consumo e terá uma proporção maior de crescimento do PIB com o consumo. A sensação de melhora de poder de compra da população vai ser até provavelmente maior do que foi nos 30 anos gloriosos anteriores.

Contudo, para que as famílias chinesas consumam mais é preciso que elas tenham uma arcabouço mais desenvolvidos de sistemas de proteção social que hoje não existem. O paradoxo é que a Velha China comunista cresceu nos últimos 30 anos, principalmente, por liberar o que seria caracterizado por nós sul-americanos como capitalismo selvagem.

Aliás, o mote de um seminário que aconteceu entre o Tink Tank chinês e a Fundação Getúlio Vargas, do qual eu participei, foi, enquanto a China tem muito a aprender com o Brasil no sistema de proteção social, o Brasil tem muito a aprender de capitalismo com a China. É um paradoxo.

Então, a China deve ter um crescimento nos próximos anos abaixo dos dois dígitos?

A China está em direção a acomodar-se com um ritmo de crescimento em torno de 5% a 7%. O longo período de alta dos preços das commodities parou e não vai ser revertido. Desde o estouro da crise em 2008, os preços de commodities, inclusive as nossas, se seguraram até 2011. O petróleo só caiu no ano passado.

Mas nenhum desses preços de commodities voltou com patamares baixos dos anos 1980 e 1990, porque na verdade a estrutura da economia mundial mudou com um peso maior da demanda mundial vinda de países em desenvolvimento e com o mundo com menos pobreza.

Os hábitos de alimentação também mudaram. O peso de construção e de expansão industrial nos países não desenvolvidos têm levado a uma demanda mais elevada de recursos naturais.

Entretanto os preços das commodities também não voltaram a ficar tão elevados como em anos anteriores. O fato impacta o Brasil porque qualquer país rico em recursos naturais está fadado a viver o problema bíblico dos sete anos de vacas gordas e sete de vacas magras.

Mudou o cenário que não é desastroso, mas não tem a bonança que foi o longo período de subida de preços de commodities. Quando você é rico em recursos naturais, o período no qual há uma subida de preços você fica mais rico sem fazer nada. Isso acabou.

Escrito por:

Adriana Leite e Silva