Publicado 05 de Agosto de 2015 - 11h03

Por Delminda Aparecida Medeiros

Obs: lembrar selo do vídeo

Papo C – Carlos Moreno

Delma Medeiros

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

[email protected]

Ao ouvir falar em Carlos Moreno, nem sempre as pessoas ligam o nome à pessoa, mas basta fazer referências ao garoto Bombril, para todos se lembrarem do emblemático personagem que por 30 anos emprestou seu rosto e talento para ser o garoto-propaganda da marca. A quantidade de filmes e caracterizações o colocou no Guinness Book, como a campanha que ficou mais tempo no ar na história da propaganda mundial. Formado em arquitetura e com pós-graduação em design gráfico nos Estados Unidos, em paralelo ele participava do grupo de teatro Pod Minoga quando foi “descoberto” por Andrés Bukowinski, que procurava um ator para os comerciais de Washington Olivetto e Francesc Petit. No período, Moreno fez trabalhos para a televisão e cinema, mas seu foco sempre foram os palcos. Na semana passada, o ator esteve em Campinas apresentando o espetáculo Florilégio Musical II – Nas Ondas do Rádio, e conversou com o Caderno C sobre a montagem e sua carreira.

Caderno C: Você se formou em arquitetura, fez pós-graduação em design gráfico, mas se tornou ator. Como foi isso?

Carlos Moreno: Não é que me tornei ator, as coisas foram acontecendo em paralelo. Já estava fazendo teatro, tinha um grupo em São Paulo. Entrei na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP) em 1972 e neste mesmo ano a gente fundou um grupo de teatro em São Paulo, que se formou a partir de um curso de artes plásticas. Continuei fazendo teatro e a FAU ao mesmo tempo.

Mas você nunca exerceu a arquitetura?

Arquitetura mesmo não. Meu trabalho de graduação foi em design gráfico, mesma área em que fiz pós-graduação depois. Trabalhei muito tempo com isso, fazendo teatro e trabalhos gráficos. Arquitetura mesmo, de projetos de edificação, nunca fiz. Inclusive não tenho a menor noção. Quando comprei meu apartamento e fui reformar precisei chamar um arquiteto de verdade.

O seu grupo era o Pod Minoga?

Isso mesmo. Pod Minoga foi um grupo que teve uma importância nos anos 1970. Aliás, muitos grupos aconteceram nessa época, foi uma fase, uma corrente.

Era teatro experimental?

Exatamente, experimental. E todo mundo tinha também formação em artes plásticas, então uma característica forte do nosso trabalho era a mistura de artes cênicas e artes plásticas. Era um grupo de criação coletiva, em que todo mundo participava de todas as funções e etapas, desde a ideia do espetáculo, fazer o roteiro, compor a trilha, produzir cenário, figurino, interpretar. Foi o nosso aprendizado, meu e de todos do grupo. A gente não teve uma formação acadêmica, não fizemos escola de teatro, nosso aprendizado foi na prática.

Quanto tempo você ficou no Pod Minoga?

O grupo durou oito anos, de 1972 até 1980. Depois acabou e cada um trilhou sua carreira solo na área de teatro, alguns escrevendo, outros como cenógrafos, eu mais ator. Mas nossa formação, nosso aprendizado foi nesse grupo.

Você deu vida ao garoto-Bombril por uns 30 anos. Como é ficar tanto tempo interpretando o mesmo personagem, apesar de fazendo coisas diferentes?

Por isso que é bacana, você mesma acabou de dizer. Durou tanto tempo, mas sempre se renovando, se atualizando, um mérito do Washington Olivetto, da equipe de criação que trabalha na agência dele, que sempre revitalizou o personagem, manteve atual, contemporâneo. Para mim era um trabalho de ator muito legal, em condições de criação e produção muito boas. Claro, tem esse lado de ficar conhecido no Brasil por esse personagem, mas tenho orgulho desse trabalho que foi tão importante na história da propaganda brasileira, de uma empresa idônea. Enfim, fico feliz de ter participado dessa história toda.

Você começou seu contrato em 1978, ficou até 2004, depois voltou em 2007. Como foi esse processo?

Isso não é segredo nenhum. A Bombril passou por um momento complicado, quase faliu porque o controle acionário da empresa foi para um grupo italiano, que esvaziou a empresa. Ficou por um triz de falência. Nessa época não tinha dinheiro para investir em publicidade e encerrou meu contrato. Fiquei um ano fora, fazendo trabalhos para outras empresas. Nesse tempo a Bombril passou por uma administração judicial e começou a se reerguer - agora está em ótima situação, de vento em popa. Fui chamado e voltei para a Bombril. Ainda estou contratado. O que tenho feito agora é mais voltado para mídia digital, para o site da Bombril, coisas de internet. O que está aparecendo na TV e mídia impressa é a campanha que estão fazendo com a Ivete Sangalo, mas continuo contratado.

Em paralelo com o contrato da Bombril você desenvolveu outros trabalhos como ator?

Sim, nunca parei de fazer teatro, fiz algumas coisas em televisão, em cinema, mas o forte da minha carreira mesmo é no teatro. Sempre fiz. Aliás, os últimos trabalhos que fiz consegui eu mesmo produzir, o que é uma situação que a Bombril me proporciona.

Este espetáculo que traz para Campinas, Florilégio Musical II – Nas Ondas do Rádio, você montou primeiramente com a Mira Haar, que era do Pod Minoga. Foi uma espécie de retorno as origens?

Acabou o grupo, mas a gente tinha uma convivência muito forte, não só do trabalho, de tudo, de lazer, viajava junto, foi uma convivência marcante, determinante na nossa vida e carreira. Eu fiquei mais próximo da Mira, como amigos. Mas a gente nunca mais tinha feito nenhum trabalho junto. Em 2009 resolvemos fazer um trabalho para comemorar nossa amizade, voltar ao palco juntos, e montamos o primeiro Florilégio, com um repertório que tinha mais a ver com músicas de amizade, de amor, de flores, de natureza. Foi uma coisa despretensiosa e de repente deu muito certo, estreamos no final de 2009 e ficamos até 2013, fazendo temporadas, viajando. Isso nos estimulou a fazer um segundo Florilégio - Nas Ondas do Rádio. Nesse, decidimos focar num repertório de música popular brasileira desse período que são os anos 1930/40 e 50, considerados a era de ouro do rádio brasileiro. Até o advento da televisão o rádio era o veículo de comunicação de massa mais poderoso, tinha todos os programas: humorísticos, de esportes, as famosas rádio-novelas e também os programas musicais. Na minha opinião foi a época mais fértil e rica da música popular. Claro que até hoje existem cantores e compositores maravilhosos, mas nessa quantidade e qualidade, acho que nunca vai ser igual. O espetáculo tem um repertório primoroso, foi dificílimo fechar num roteiro devido à quantidade de músicas.

Você também é diretor da Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz)?

Eu sou voluntário da Abraz. Na gestão anterior tive uma participação mais ativa porque a então presidente me chamou para participar da diretoria de divulgação da Abraz. Mas sou voluntário, não diretor. Antes tinha o título, mas não era de fato, nem sei ser diretor, ofereço o que sei fazer para ajudar a Associação que é maravilhosa, as pessoas têm que conhecer. Tem uma regional da Abraz em Campinas e divulgo isso com o maior entusiasmo porque sei o quanto é importante o trabalho que ela presta. O quanto foi importante para mim. Quando você tem o diagnóstico de Alzheimer na família, fica num desespero. Todo mundo brinca “estou com o alemão, esquecendo”. Mas o desconhecimento, a falta de informação é enorme e é muito importante saber como lidar com a doença, para aceitar e conviver com ela, ter informação. E nisso a Abraz é primorosa.

Qual o principal fator para tratar uma pessoa que está enfrentando essa doença?

Depende muito do estágio que a pessoa está. Uma coisa que chamamos atenção é sobre o diagnóstico precoce, que normalmente é confundido como coisa normal da idade. Mas uma coisa é ter um envelhecimento saudável, com eventuais esquecimentos. Outra é notar fatos que podem comprometer a vida cotidiana da pessoa. É importante perceber se a pessoa está tendo esquecimentos que comprometem sua vida e então levar logo no médico. Podem fazer diagnóstico de Alzheimer neurologistas, psiquiatras ou geriatras. O Alzheimer ainda não tem cura, mas existe tratamento, tanto medicamentoso como de terapias ocupacionais e outros que retardam a evolução da doença. É o caso da minha mãe. Ela está diagnosticada há 10 anos e, claro que há evolução da doença, mas muito lenta. Ela precisa estar monitorada 24h por dia, não pode ficar sozinha, mas ainda reconhece todo mundo, conversa, é divertida, tem autonomia para fazer a higiene, se alimentar. Tendo o diagnóstico o mais cedo possível, dá para lidar melhor com a situação e ter uma qualidade de vida melhor, tanto para o paciente como para o cuidador. No estágio mais avançado é desgastante, puxado, especialmente para o cuidador. Lidar com a doença de Alzheimer é um aprendizado, porque a pessoa perde sua identidade, sua história. Não é para ser trágico, mas é um luto prolongado, porque aquela pessoa que você conhecia, não existe mais, ela já se foi. Você tem que aprender a viver o presente, o dia, sem abrir mão da linguagem do afeto.

Além da temporada e viagens com Florilégio, tem outros projetos no forno?

Por enquanto a gente está preparando a receita. Temos uma ideia de fazer o Florilégio 3, com outro repertório, outro foco de inspiração. Pode ser um repertório mais voltado para o público infantojuvenil, ou usando trilha de cinema. Acontece que a família Florilégio vai aumentando. Primeiro era só eu e a Mira, aí entrou a Patrícia Gasppar que ajudou na criação do espetáculo. Depois ela saiu para fazer um outro trabalho e agora entraram a Helô Cintra e a Adriana Fonseca. O Jonathan Harold, que é nosso músico, arranjador e faz a direção musical, está com a gente desde o início, assim como o Elias Andreato, que dirigiu os dois. Todo mundo que entra, fica. De repente vamos fazer um grande musical, uma super produção de Florilégio.

Escrito por:

Delminda Aparecida Medeiros