Publicado 04 de Agosto de 2015 - 18h27

ÍíCecília Polycarpo

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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A Prefeitura de Campinas fechará contrato até o final deste mês para a construção do centro de diagnósticos do Hospital do Câncer de Barretos, no entorno do Hospital Municipal Dr. Mário Gatti. A Administração tem como opção três terrenos nas imediações da Avenida Faria Lima, e baterá o martelo em relação ao local nos próximos dias.

A direção do hospital, que é referência nacional no tratamento de câncer, esteve em Campinas na semana passada para visitar os pontos. O Correio apurou que um deles é um campo de futebol ao lado do prédio da Receita Federal, em frente ao Mário Gatti. O prédio da Casa de Saúde, na Rua Duque de Caxias, foi descartado pela Secretaria de Saúde. A nova unidade de 2,6 mil metros quadrados terá o diagnóstico de quatro tipos de câncer (colo de útero, pele, mama e pulmão), além de pequenos procedimentos, como punções.

O projeto prevê ainda a compra e montagem de três carretas equipadas para diagnóstico que rodarão a cidade. Ao todo, o investimento será de R$ 69,9 milhões, bancados com parte da indenização por danos morais coletivos pagos pelas empresas Raízen Combustível S/A (antiga Shell) e Basf S/A, no episódio de contaminação do meio ambiente e de trabalhadores em uma fábrica de agrotóxico em Paulínia, que ficou conhecido como Caso Shell. O contrato deve prever a realização de 350 mil exames diagnósticos em cinco anos.

O secretário de Saúde, Carmino Antonio de Souza, afirmou que foi um pedido da Prefeitura que a estrutura fixa em ficasse próxima ao Mário Gatti para facilitar o encaminhamento dos pacientes diagnosticados com câncer para tratamento, como quimioterapia, radioterapia e cirurgias. O centro de diagnósticos não terá, em um primeiro momento pelo menos, os tratamentos para a doença. O espaço terá uma estrutura administrativa, laboratório e uma área para pequenos procedimentos, como punções e biópsias. Já as estruturas móveis serão equipadas para fazerem exames como mamografias, colonoscopias, tomografias e biópsias. “Será como se fosse um mutirão, que vai rodas a cidade, as periferias. A carreta será transformada em um centro de diagnóstico ambulante”, explicou.

Depois da escolha do terreno, Souza afirmou que será necessária a criação de uma lei municipal para doar o terreno ao Hospital do Câncer. A instituição de Barretos será responsável pela contratação de médicos, enfermeiros e funcionários que trabalharão na unidade. “Por isso temos que definir qual será o terreno logo, para darmos andamento em todo o trâmite jurídico e criarmos a legislação. A Procuradoria do Trabalho, acompanha todo o processo, pois é responsável pela ação de indenização”, disse.

Carmino contou também que a direção do Hospital de Barretos queria a construção da unidade em um local periférico, mas o secretário argumentou que um ponto central seria mais interessante à população. “Para não ficar muito distante de qualquer região de Campinas. Eles concordaram”.

O presidente do Mário Gatti, que conduz as negociações com o Hospital do Câncer, afirmou que procedimentos de alta complexidade, como quimioterapias e cirurgias, continuarão a serem feitos na rede pública de Campinas, como o próprio Mário Gatti, o Hospital de Clínicas da Unicamp e o Hospital e Maternidade Celso Pierro, da PUC-Campinas.

O Correio fez contato com o Hospital do Câncer ontem, mas não obteve uma posição sobre a construção da unidade até o fechamento desta edição.

RETRANCA

As indenizações de R$ 200 milhões do caso Shell são resultado do maior acordo da história da Justiça do Trabalho brasileira. A conciliação encerrou a ação civil pública movida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) em Campinas no ano de 2007, depois de anos de investigações que apontaram a negligência das empresas Raízen Combustíveis S/A (Shell) e Basf S/A na proteção de centenas de trabalhadores em uma fábrica de agrotóxicos no município de Paulínia.

A Shell iniciou suas operações no bairro Recanto dos Pássaros na metade da década de 70. Em 2000, a fábrica foi vendida para a Basf, que a manteve ativada até o ano de 2002, quando houve interdição pelo Ministério do Trabalho e Emprego. O processo, que possui centenas de milhares de páginas derivadas de documentos e laudos, prova que a exposição dos ex-empregados a contaminantes tem relação direta com doenças contraídas por eles anos após a prestação de serviços na planta. Desde o ajuizamento da ação, foram registrados mais de 60 óbitos de pessoas que trabalharam na fábrica.

Mais de mil pessoas se beneficiaram do acordo, já que ele abrange, além de ex-trabalhadores contratados diretamente pelas empresas, terceirizados e autônomos que prestaram serviços às multinacionais, e os filhos de todos eles, que nasceram durante ou após a execução do trabalho na planta. Além da indenização por danos morais coletivos no valor de R$ 200 milhões, ficou garantido o pagamento de indenização por danos morais individuais, na porcentagem de 70% sobre o valor determinado pela sentença de primeiro grau do processo, o que totaliza R$ 83,5 milhões.