Publicado 03 de Agosto de 2015 - 15h37

Por Rogério Verzignasse

ÍíFotos

Carlinhos fez foto nova dos dois entrevistados, tendo ao fundo o Centro de Convivência

Fotos antigas no Adiantamento da revista

Ruy Novaes,

Teatro Municipal fachada

Alan joga no adiantamento foto interna do teatro, com as galerias lotadas.

Tem o teatro em ruínas

Se precisar de mais imagens para compor, pode usar o Palácio dos Jequitibás

Uma história, além do teatro demolido

As imagens do prédio em ruínas habitam há décadas o imaginário popular. Para as gerações que se sucederam, a controversa demolição do Teatro Municipal, em setembro de 1965, foi o maior crime cometido contra a história cultural da cidade. E o prefeito da época, Ruy Hellmeister Novaes, nunca foi perdoado. O cidadão _ que cumpria seu segundo mandato no Executivo _ carregou para o resto da vida a reprovação de muita gente, por ter mandado para o chão um edifício belíssimo, símbolo maior de uma Campinas rica, culta, elegante.

Hoje, no entanto, passados 50 anos, um grupo formado por historiadores e agentes culturais inaugura uma campanha com o objetivo de resgatar a memória do ex-prefeito que, na visão deles, é vítima de uma injustiça histórica.

A Associação Reconvivência nasceu há três anos, com o objetivo de promover debate público e fiscalizar ações culturais da Administração. Seu presidente, Giovanni Galvão, explica que o grupo se ocupou de fazer um levantamento detalhado da documentação de época. Nos arquivos do Museu da Imagem e do Som (MIS), foram coletados depoimentos e cópia de laudos técnicos que concluíam, à época, que o teatro corria mesmo o risco de desabar. O prédio não tinha deficiências estruturais que podiam ser sanadas com reformas pontuais.

Na sua opinião, os campineiros tinham, sim, toda liberdade para questionar as perícias. O prefeito, no entanto, simplesmente tomou uma decisão responsável, alertado pelo disposto nos laudos. A própria tragédia do Cine Rink, 15 anos antes (o teto desabou e matou 14 crianças na matinê), com certeza colaborou para que Novaes decidisse pela demolição do teatro. “O prefeito não podia correr risco e desobedecer orientações técnicas”, fala.

E, para Galvão, ainda que a demolição tenha sido polêmica (e continue sendo), o episódio de maneira nenhuma pode manchar a história de Ruy Novaes à frente da Prefeitura.

No primeiro mandato (1956-1959), ele executou o plano de melhoramentos urbanos alargando avenidas do Centro; ampliou e pavimentou as estradas que davam acesso a Sousas e Paulínia; disponibilizou o terreno público para a construção do Aeroporto de Viracopos. No segundo (64 a 69), instalou a Companhia de Habitação Popular (Cohab), que lançou empreendimentos gigantescos (Vila Rica, 31 de Março, Castelo Branco...) e eliminou cortiços da região central.

O comerciante Eugênio José Alati (vice-prefeito e secretário de Educação no governo Orestes Quércia) representa hoje o departamento de história da Associação Reconvivência. E ele faz questão de ressaltar ações sociais preciosas do segundo mandato de Novaes. “Ele inaugurou 13 escolas-parque de período integral. Havia salas equipadas, piscina, campos de futebol. Era um modelo inédito, eficiente. O governo seguinte, do qual eu fiz parte, as transformou sete delas em centros comunitários, frequentados pelas famílias aos sábados e domingos. Mas com o tempo as escolas foram fechadas. Pura oposição política a uma ideia genial”, fala.

Ruy Novaes, afirma Alati, também foi responsável por uma estratégia revolucionária de administração pública. Ele se aproximou das sociedades de bairro, e transformou o povo em consultor para projetos públicos executados. “As camadas populares mais humildes passaram a ter voz direita no governo. E Ruy nem precisava de base de apoio entre os vereadores. Ele tinha o respaldo das bases”, fala.

Com toda a documentação pesquisada, a associação vai sugerir a Câmara e à Prefeitura que Ruy Novaes receba uma homenagem digna. Os agentes vão sugerir que o ex-prefeito vire denominação do Palácio dos Jequitibás. A sede da Prefeitura que, por sinal, foi planejada e começou a ser construída no governo Ruy Novaes. “Ruy merece até um memorial. As novas gerações precisam aprender sobre a vida de cidadãos importantíssimos para a história da cidade”, afirma Alati.

O campineiro Ruy Novaes nasceu em 1924. Depois de deixar a Prefeitura, ele se dedicou exclusivamente ao ramo agrícola. Só voltou a concorrer ao Executivo em 74, mas foi derrotado por Lauro Péricles Gonlçalves. Ele deixou a política de vez. Em 1975, participou de um programa estadual para o fomento ao cultivo de seringueiras no Planalto Paulista. Morreu aos 75 anos, em março de 2000, após alguns anos com a saúde abalada devido a um derrame cerebral.

SAIBA MAIS

As pessoas interessadas em obter informações sobre os projetos da Associação Reconvivência podem entrar em contato por meio do endereço eletrônico [email protected]

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Rogério Verzignasse