Publicado 05 de Agosto de 2015 - 5h30

No semestre em que foi colocado em prática o ajuste fiscal e com a economia desaquecida, a indústria brasileira teve retração em todos os indicadores e manteve baixo o nível de atividade. De janeiro a junho deste ano, o faturamento real do setor teve queda de 7%, comparado com os seis primeiros meses de 2014, informou ontem a Confederação Nacional da Indústria (CNI).O uso da capacidade instalada da indústria de transformação ficou em 80,1% em junho, contra 80% no mês anterior. Apesar desta estabilidade, a CNI avalia que o índice segue em patamar baixo. Em junho de 2014, o uso do parque fabril estava em 80,7%.Os dados relativos ao trabalhador industrial também mostraram retração. O nível de emprego no setor registrou uma piora em junho, atingindo o menor nível desde dezembro de 2009. Na comparação com maio, houve retração de 0,7%. Em relação a junho de 2014, foi observado um recuo de 5,7%. No acumulado do primeiro semestre, se comparado com os seis primeiros meses do ano passado, o emprego acumula uma queda de 4,6%.As horas trabalhadas tiveram queda de 1,1% em junho ante maio, a quinta queda consecutiva. Na comparação com o mesmo mês de 2014, a redução foi de 5,3%. De janeiro a junho, o indicador apontou um recuo de 8,6% em relação ao mesmo período do ano passado.O peso do ajuste

Colocado em prática no fim do ano passado e com medidas ainda em curso, o ajuste fiscal é apontado como um dos responsáveis pela atual deterioração da indústria, de acordo com o gerente-executivo de Política Econômica da CNI, Flávio Castelo Branco. Ele pondera, contudo, que as medidas são necessárias para que as bases da economia sejam retomadas e haja capacidade de crescimento. “O quadro é bastante negativo e não há sinais de reversão. Vamos ter um quadro negativo para a indústria em 2015 com absoluta certeza. A intensidade é que ainda não sabemos”, avaliou.Salários

A massa salarial real, por sua vez, teve a primeira alta em quatro meses, subindo 0,8% em junho, na comparação com maio. De acordo com Castelo Branco, a aparente melhora no indicador é principalmente explicada pelo aumento do desemprego. “A medida em que as empresas reduzem seus contingentes e promovem demissões, têm que fazer alguns pagamentos relativos à dispensa. Isso termina criando esse paradoxo que é o aumento da massa salarial. É um aumento temporário e que não se sustenta”, avaliou. Em relação ao mesmo mês de 2014, houve queda de 4,7% no índice. No acumulado do ano até junho, houve um decréscimo de 4,5%.Na opinião de Castelo Branco, o cenário internacional atual é semelhante ao dos últimos cinco anos. “Não há agravamento no quadro internacional. Na verdade, houve um agravamento das condições internas”, afirmou. Entres os motivos que levaram aos dados ruins da indústria, ele aponta, além do ajuste fiscal, a aceleração da inflação, o reajuste dos preços administrados, a queda da confiança dos empresários e consumidores e a elevação na taxa básica de juros.Castelo Branco ressaltou que o câmbio valorizado tem efeito rápido sobre a redução das importações, mas uma defasagem de tempo sobre as exportações. “A taxa de câmbio vai ter impacto positivo no setor manufatureiro, mas isso demora um tempo para ocorrer. E depende do ambiente externo - se não há demanda lá fora para os nossos produtos, o efeito acaba sendo nulo”, disse. (Da Agência Estado)