Publicado 08 de Agosto de 2015 - 19h05

Paixões podem tomar as pessoas até à primeira vista; porém, talvez sejam mais literárias se nascem em segundas, terceiras ou quartas, desde que levem ao encantamento. Assim foi que Binoel, um pacato sujeito cuja vida corria com a rotina de quem dela não espera nada além do apenas estar vivo e bem, se viu de repente envolvido num denso redemoinho. Que poderia conduzi-lo, se argúcia para isso tivesse, a concluir que sua existência, por mais longa pudesse vir a ser, estava definitivamente encapsulada no antes e no depois daqueles acontecimentos.

Binoel, como muita gente, tinha um melhor amigo. Conheciam-se desde os tempos de colégio, cresceram juntos, juntos arrumaram o primeiro emprego etc. Lá um dia, quando ambos percorriam as luminosidades dos 25 anos de idade, Mário arrumou uma namorada. Com quem, mais rápido do que seria razoável, resolveu casar. Ao comunicar a Binoel o fez assim: “Você será o padrinho”.

A cerimônia de fato ocorreu e a vida seguiu. Os dois amigos progrediram na vida e, um dia, entrados nos 40, Mário ofereceu festinha para comemorar o aniversário de Lumia, a esposa. Foi então que tudo começou. Binoel, que permanecia solteiro, participava da churrascada; onde de repente, não mais que de repente, a aniversariante, sentada diante dele, cruza as pernas. Pronto! Nosso herói descobre, de estalo, insuspeito “sex appeal” na esposa do amigo. Que se ampliou ainda mais ao cravar olhos no generoso decote, que abrigava protuberâncias de alentado formato. Geme um vago “meu Deus do céu”; entretanto, durante o resto da festa, acompanhou Lumia com sensações de fogo e febre.

Na sequência a coisa entrou em rota de martírio. Com um mês desde a visão da cruzada de pernas, Binoel quase não conseguia pensar em outra coisa. Não só acordado. Pois, ao dormir, lá vinham os sonhos de erotismo desconcertante. Por isso, resolveu se afastar na casa de Mário. E, assim, passa-se mais de ano. Até que, de repente, ficou sabendo, por terceiros, que seu velho amigo andaria gravemente enfermo. Uma dessas doenças que aparecem como que do nada. Estremeceu com o detalhe medonho: “Está com os dias contados”.

Agora, o pensamento que passou pela cabeça dele não poderia ser mais acachapante: Lumia poderia ficar viúva o que, ao fim e ao cabo, abriria algumas perspectivas. Isso de um lado. Pois, de outro, sabia da existência de um curandeiro, morador num escondido vale da Serra da Mantiqueira, que já tinha curado várias pessoas do mal a corroer as entranhas de Mário. Era uma poção feita com ervas da Mata Atlântica. Porém, veio o vacilo: queria, realmente, curar o enfermo ou, de alguma forma, torcia pela viuvez? Instalou-se conflito e sofrimento.

Naquela manhã de domingo, porém, batem na porta de Lumia, ela abre e dá de cara com Binoel. Que fala, erguendo o pacote que trazia na mão: “Aqui pode estar a solução para o caso do Mário”. Daí entrou e explicou, primeiro pra mulher, todos os detalhes. Após garantiu, olho no olho do enfermo: “Você vai ficar bom”.

De fato, o benéfico efeito do medicamento do mineiro não poderia ter sido mais impressionante. Com as cinco primeiras colheradas da infusão o abatido sentiu diminuição das dores. Na décima, sumiram definitivamente. Na vigésima as cores do rosto do desenganado voltaram. Na trigésima, para espanto dos médicos, completa-se a cura.

No seguimento, enquanto na residência tudo era festa Bionoel entrou em cava depressão. Os sonhos lúbricos com a bela Lumia aumentaram; ele, invariavelmente, acordava banhado em suor. Nessas condições, voltou a sumir da casa do amigo.

Naquele fim de tarde o angustiado assustou-se ao ver Mário entrar no escritório da sua firma. Escuta o convite: “Vim busca-lo para uma cervejinha; você não pode sumir deste jeito, rapaz”. Nessas condições, logo depois sentavam num desses bares de bairro que conservam o charme da discrição absoluta. Conversam longamente, o antigo enfermo fala da milagrosa recuperação. De repente, após secar mais um copo, pousa a mão no braço de Binoel:

— Você é meu amigo, salvou minha vida; por favor, não desapareça.

O outro responde qualquer coisa, porém Mário olha nos olhos dele afirmando que iria contar-lhe um segredo. Conta:

— Quando pensei que morreria fiz um pedido para minha mulher... Solicitei, sob juramento, que, em caso de viuvez, ela casasse com você; pois eu tinha certeza que nenhuma outra pessoa saberia cuidar dela...

Binoel primeiro arregala os olhos. E, ali mesmo, começa a chorar. Sem saber se as lágrimas caiam pela alegria de ter salvo o amigo; ou pelo arrependimento de ter ido às brenhas da Mantiqueira pegar o remédio...