Publicado 08 de Agosto de 2015 - 19h05

Quando o primeiro sinal do Teatro Municipal José de Castro Mendes soou na manhã da última sexta-feira, avisando que logo mais o espetáculo Pé na Tábua - Pernas Para Que te Quero finalmente ia começar, as crianças entre 6 a 10 anos que lotavam a sala foram ao delírio. Gritos e aplausos em tamanha harmonia que, por um momento, quem estava de fora poderia pensar que aquela bela e divertida reação tinha sido ensaiada. Não foi, claro, principalmente porque os alunos que aguardavam pelo início da peça, cerca de 400 pequeninos, eram de duas escolas públicas: as Emefs Odila Maia Rocha Dutra, localizada no Jardim São Domingos, e Benevenuto de Figueiredo Torres, do Jardim São José.

Mas se o susto com o primeiro sinal do teatro — algo repetido até a terceira e última campainha — foi compartilhado pelas crianças das duas escolas de forma involuntária, espontânea, há outras diversas características que conectam as instituições que, nem de longe, passam de coincidências. Começando pelo fato delas estarem ali, no último dia 7, prontas para conferir aquela apresentação.

Pé na Tábua - Pernas Para Que te Quero, mais do que um musical infantil, é um projeto social destinado a escolas da periferia de Campinas criado pela bailarina e publicitária Aline Muller. Formada graças exclusivamente ao Prodança, projeto que beneficiou mais de 5 mil crianças carentes ao nascer do trabalho voluntário de sua fundadora, Walkiria Coelho, nas escolas municipais de Campinas, Aline espelhou-se em sua trajetória para retribuir, com arte, tudo o que conseguiu na vida.

“Por ter vindo de uma escola pública e de um bairro não muito favorecido de Campinas, o Jardim Samambaia, sempre gostei de estar à frente de projetos para pessoas carentes que, de alguma forma, pudessem ajudá-las, assim como me ajudaram quando eu era criança”, diz a bailarina. “Foi graças a Walkiria, que levou monitores voluntários para administrar aulas gratuitas de dança na minha escola, a Emef Elvira Muraro, que eu conquistei tudo o que eu tenho hoje. Tanto que ministrei por muito tempo aulas em ONGs e escrevi projetos nas quais esse público era meu foco”, completa.

Aline começou a fazer aulas três vezes por semana aos 8 anos, adquirindo experiência suficiente para uma audição no Studio de Dança Christiane Matallo. “Fiz a audição aos 12 anos e passei, conseguindo bolsa integral na academia. Desde então minha paixão pela arte só cresceu, principalmente pelo sapateado.” Mesmo assim, lembra, a vida da bailarina não foi fácil. “Fiquei nove anos na Christiane Matallo, só que, apesar de ter a bolsa, muitas vezes eu não tinha nem o dinheiro da passagem. Tinha que me desdobrar para seguir com o curso. E foi o amor pela dança que me fez continuar, um amor que nasceu graças a pessoas preocupadas com crianças como eu, se dando ao trabalho de levar a arte onde ela, sem ajuda, normalmente não chega.”

A ideia

Além de atuar como professora voluntária durante anos, Aline Muller decidiu escrever, no ano passado, o Pé na Tábua, um musical que mistura sapateado, música e conscientização. A história, de 50 minutos, começa quando o jovem Théo (Tiago Rodrigues) tem um pesadelo horrível em que aparece lutando com quatro amigos por um copo d’água — o último do mundo. Ele percebe, ao acordar, que a situação não foi apenas um sonho, pois naquele dia algo estava estranho: não havia água no bairro todo. Dessa forma, Théo e seus amigos vão atrás de respostas sobre o problema, se metendo em muitas aventuras para tentar reverter o problema definitivamente.

“Eu queria me especializar em produção musical e envolver pessoas que são ou vieram do mesmo cenário que eu. Então nada mais interessante que fazer algo infantil, um espetáculo educacional em que fosse possível formar parcerias com escolas públicas da periferia que tivessem interesse em oferecer arte a seus alunos”, diz. Ela, então, inscreveu a ideia no Fundo de Investimentos Culturais de Campinas (FICC) para ter verba para montar o show, e conseguiu a aprovação no fim do ano passado. “E, aquele sonho antigo de levar arte com consciência a pessoas que mal sabem o que é isso se concretizou.”

O projeto, obviamente, ainda não acabou. Além da sessão das 10h do último dia 7, o musical foi apresentado às 16h para outras escolas do município. Além disso, no dia 20 de agosto, no Espaço Cultural Maria Monteiro, na Vila Padre Anchieta, Pé na Tábua terá mais duas sessões fechadas exclusivamente para escolas públicas, totalizando mais de 1 mil alunos da periferia de Campinas contemplados pela iniciativa. Sem contar que, no dia 19, a sessão, no mesmo local, é voltada para orfanatos da cidade.

E quem quiser conhecer a iniciativa de Aline, haverá ainda uma apresentação aberta ao público no dia 16 de agosto, às 18h30, no Castro Mendes. Os ingressos têm valor popular: R$ 10 inteira e R$ 5 meia. “Não tivemos dificuldade em achar público, porque todas as escolas da periferia são necessitadas por projetos, por cultura. Os orfanatos sempre precisam de ajuda, de voluntários, de arte. Todos nos agradecem pelo convite. E eu me sinto realizada por repassar tudo o que eu aprendi para essas crianças.”

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