Publicado 06 de Agosto de 2015 - 19h05

[CR_TXT_3LINH]João Nunes[/CR_TXT_3LINH]

[CR_TXT_PROCE]ESPECIAL PARA O CORREIO[/CR_TXT_PROCE]

Beijei uma Garota (Toute Première Fois, França, 2014), de Noémie Saglio e Maxime Govare, traduz uma fantasia feminina que imagina o milagre de um gay “virar” hétero (como se tal movimento fosse mera opção) — o inverso também se passa na cabeça dos homossexuais.

Em tempos em que igrejas vendem a “cura” para pessoas atraídas por outras do mesmo sexo, o filme ratifica essa possibilidade, mesmo brincando com o tema. Não é impossível de acontecer, mas, quando acontece, a exceção só confirma a regra.

Trata-se de uma comédia francesa com todos os clichês do gênero — como o policial negro e gay, e as soluções telenovelescas, só para ficar em dois exemplos —, mas com um conteúdo, digamos, mais criativo. Uma boa definição seria uma comédia romântica ao avesso do avesso.

Saem a mocinhas e mocinhos héteros e entram os homos — só que, invertem-se os papéis, porém os encontros e desencontros continuam exatamente iguais. E, neste caso, um dos rapazes está em séria crise de identidade.

O nome dele é Jérémie (Pio Marmaï), moço de 34 anos, que acorda certa manhã ao lado de uma bela e sedutora sueca (Adrianna Gradziel). Até aqui, nenhum problema. Ocorre que o rapaz está de casamento marcado (para a alegria dos pais dele); porém, a “noiva” é um homem, seu companheiro de dez anos, Antoine (Lannick Gautry).

A não ser pelo fato de que estamos diante de um casal gay, nada diferencia o filme de qualquer outro do gênero — levando em conta que a história fica apimentada justamente com a chegada de uma mulher ao triângulo.

Assim, temos um filme comum — ressalvando o tema gay — na sua feitura. Nenhuma ousadia, como se podia esperar; afinal, não há mesmo espaço para isto. Na verdade até haveria, pois o tema arejado permite.

Contudo, os diretores parecem mais preocupados em narrar uma história de amor diferente, mas de modo conservador e, assim, não abandonar o previsível de todas as comédias românticas.

Como tal, eles apostam no riso — um esforço quase inútil, pois conseguem muito pouco. Não é fácil fazer rir, mas aqui, há ênfase enorme colocada no romantismo. Curiosamente, atinge-se o êxito num outro quesito: ao inverter os papéis, o roteiro traz à tona situações bizarras que, sim, tem lá seu apelo ao riso.

Caso do pai de Jérémie que fica chocado quando o filho anuncia que está apaixonado por uma mulher — e a mãe tem uma crise de choro. E o amigo Charles (o bom Franck Gastambide) aproveita para fazer uma das boas piadas do longa.

A França adora assistir aos próprios filmes. Anualmente, mais de 40% dos lançamentos do circuito do país são nacionais. Uma das razões, certamente, são produções como Beijei uma Garota (um título brasileiro meio enigmático), ou seja, com roteiro no lugar, elenco bacana e todos os outros quesitos técnicos mais que aceitáveis.

A diferença é que o filme anseia por ser popular, pois os produtores investem no desejo do francês de querer se ver na tela. Nem que para isto tenha de copiar despudoradamente o que o cinema americano tem de mais comercial. Bom para os produtores.