Publicado 05 de Agosto de 2015 - 19h05

[CR_TXT_3LINH]João Nunes[/CR_TXT_3LINH]

[CR_TXT_PROCE]ESPECIAL PARA O CORREIO[/CR_TXT_PROCE]

Na França, até comédias despretensiosas ganham conotações intelectuais. Que Mal Eu Fiz a Deus? (Qu’est-ce qu’on a Fait au Bon Dieu?, França, 2014), escrito e dirigido por Philippe de Chauveron, aposta no exagero típico do gênero para usar e abusar do clichê a respeito de um tema político-social: a facilidade do país em absorver imigrantes.

Sim, isto é verdade, mas tanto quanto a onda conservadora que atua hoje no país (e no continente europeu), justamente, repudiando o imigrante. Na comédia, obviamente, o debate pende para o “bem”, ou seja, para mostrar que a França é um país amigo dos estrangeiros — há até uma fala dizendo exatamente isso, em outras palavras.

Pois bem, está no exagero o maior problema do filme — incluindo, aqui, os extensos diálogos; tudo é motivo para longas discussões. O casal católico e conservador Claude (Christian Clavier) e Marie (Chantal Lauby) tem quatro filhas e todas se casam com homens de raças distintas. Apesar de não curtirem nem um pouco essa situação inusitada, os dois aceitam todos os novos casamentos. Como se vê, uma leitura bem plana da realidade.

Por mais que entendamos que se trata de comédia, fica difícil acreditar numa premissa dessas, ainda mais se, nas entrelinhas, o tema ganha tratamento sério — como exaltar a política francesa da boa vizinhança, por exemplo, ou na maneira respeitosa como trata as raças, fazendo piadas leves e politicamente corretas. Até se entende tamanha cautela diante do histórico recente do país.

O primeiro genro é o empresário judeu David Benichou (Ary Abittan), seguido do advogado muçulmano argelino Rachid Benassem (Medi Sadoun) e do investidor chinês Chao Ling (Frédéric Chau). A esperança do casal reside na filha mais nova e cuja história tomará a maior parte do enredo; porém, esta segue o mesmo destino das irmãs.

Diante de uma premissa tão esquemática, o que podemos esperar? Piadas sobre judeus, árabes e chineses (e do quarto pretendente), quase todas um tanto batidas ou sem muita graça. Convenhamos, o politicamente correto pode ser correto, mas quase sempre é pouco engraçado.

O sucesso do filme na França, onde foi visto por 12 milhões de espectadores (veja outro número nesta página), demonstra como o espectador adora o lugar-comum e a correção política porque o entende e se sente confortável — ainda mais por se tratar de um tema tão sisudo.

Cinematograficamente não há muito a dizer. Com linguagem conservadora, enquadramentos tradicionais, ritmo de comédia ligeira, elenco afinado, mas sem grandes destaques, e um enorme esforço para que tudo fique como deve ser e não fuja daquilo que o grande público espera. Até as didáticas e preguiçosas legendas “um ano depois”, “dois dias antes do casamento” guiam o espectador como se este não entendesse de elipse ou passagem de tempo.

É a França preocupada com o cinema popular que fale para grandes plateias adultas e sem nenhuma preocupação (mínima que seja) com linguagem — igual às comédias brasileiras, só que sem apelos à vulgaridade tão cara às nossas.