Publicado 04 de Agosto de 2015 - 19h05

Uma pequena preciosidade foi lançada em DVD e CD, esplêndido registro de uma parcela da obra do poeta apocalíptico Zé Ramalho, pedra bruta lapidada a cada verso, a cada nota. O responsável pelo feito é Zeca Baleiro, cronista do improvável, “profanador” de convicções, um músico que as trata com o merecido desrespeito.

Chão de Giz - Zeca Baleiro canta Zé Ramalho (Som Livre, Canal Brasil, Fidellio Produções) foi gravado no Teatro Castro Alves, em Salvador. Contou com a participação da ótima banda Cavalos do Cão, integrada pelo craque Tuco Marcondes (guitarra, violão, cítara, banjo, vocais e mandolin, que tem formato parecido com o do bandolim e a mesma afinação, mas de timbre mais agudo) e por Pedro Cunha (teclados, acordeom, sampler, escaleta e vocais), Kuki Stolarski (bateria, pandeiro, zabumba, violão e efeitos), Fernando Nunes (baixo, violão de sete cordas, triângulo e vocais), Adriano Magoo (teclados, acordeom, violão e vocais) e o próprio Zeca Baleiro (voz, violão e guitarra).

O DVD tem competente direção de Monique Gardenberg, que caprichou na iluminação e na escolha das imagens projetadas. Destaque para as que ilustram Kryptônia (Zé Ramalho), com cenas do filme Ivan o Terrível, de Eisentein.

Aberta a cortina, o azul cobre o palco. Zeca está de costas para a plateia. Iniciada Ave de Prata (ZR), acendem-se luzes brancas. É o primeiro momento, dentre tantos outros ao longo do DVD, em que a banda mostra o peso de seus instrumentos, numa pegada certeira e fortemente roqueira.

Para A Terceira Lâmina (ZR), o palco está envolto em luz vermelha. A guitarra de Tuco, totalmente roquenrrol, soa intensa. Imagens de guerra surgem no telão e a luz verde inunda o palco. Lindo efeito.

Guitarras tocam a introdução de A Dança das Borboletas (ZR e Alceu Valença). O arranjo é puro rock. A voz de Zeca soa com efeitos. Duas guitarras têm também o registro de efeitos e acentuam o tempo forte da música. Belo arranjo.

Uma percussão inicia Beira Mar (ZR). Tuco Marcondes toca banjo, Zeca, guitarra. Teclados, baixo e bateria puxam para um baião porreta. O acordeom resfolega. A luz vai do amarelo esverdeado ao ocre. Zeca assobia em uníssono com o acordeom. Grande final.

Com focos brancos vindos de cima, tem início Chão de Giz (ZR). Zeca, que até agora mantinha uma guitarra nas mãos e a usava com economia, ao final solta os braços e se mostra à vontade, musical e corporalmente.

As loucuras de Zé têm eco em Zeca, que se desdobra em versos como os de Táxi Lunar (ZR, Alceu Valença e Geraldo Azevedo), Vila do Sossego (ZR), Eternas Ondas (ZR), O Rei do Rock (ZR e Zeca Baleiro) e Avôhai (ZR) — “Pares de olhos tão profundos/ Que amargam as pessoas que fitar/ Mas que bebem sua vida/ Sua alma na altura que mandar/ São os olhos, são as asas/ Cabelos de Avôhai”.

Trovadores, Zeca e Zé vão feito anjos loucos pregando na densa consciência perdida do mundo. Quatro olhos a mirar o futuro através das sombras do passado.