Publicado 09 de Agosto de 2015 - 5h30

O avô da minha mãe se chamava José Bento dos Reis, de quem só tenho lembrança por uma foto que perdi, infelizmente. Minha mãe contava que ele era filho de um alemão. E dizia também que eu era muito parecido com ele – por conta da barba que também deixei crescer.

Foi um dos últimos bandeirantes, o meu bisavô. Desbravou grande parte das terras da alta mogiana. Chegava com um grupo de famílias, assentava todo mundo nas terras sem dono e partia para nova empreitada. Pequenas cidades foram fundadas por aqueles tempos...

Já o pai da minha mãe, Adolfo Guilherme dos Reis, era um homem elegante. Tinha quase um metro e setenta e cinco do mais puro calo. Usava chapéu panamá e roupas brancas. Tinha aroma de fumo de corda e laranja. E tinha mãos abençoadas para fazer cocadas, paçocas e amendoim torrado. Já idoso, aposentado, construiu um forno de barro no quintal de casa e vendia a sua arte no Circo e Teatro Irmãos Almeida. Eu tinha uns dez anos e gostava de buscar o saco de amendoim guardado num canto da área de serviço. Acho que foi assim que aprendi a dar abraços nas pessoas.

Meu pai também era um homem muito elegante. Também andava de terno branco e chapéu panamá. Sempre calçando sapatos marrons, cromo alemão. Fumava cigarros Lincoln, sem filtro - coisa que à época não existia (dez anos atrás, escrevi Lincon, sem o último éle, e um raro e atento leitor me corrigiu – e assim me corrijo agora.).

Suas roupas eram engomadas e o friso da calça parecia uma lâmina de navalha Solinger. Minha mãe foi amada por esse homem e até o dia de seu encantamento sua falta foi reclamada com olhos marejados de paixão, solidão de travesseiro e lençol por quase trinta anos.

O catalão e tapeceiro Arturo Molina foi um outro pai que tive. Ele me “adotou” quando recebeu a notícia de morte de seu filho catalão, na Espanha, um moço que tinha a minha idade: 25 anos. E lá se iam quase dois anos de amizade. Por essa época ganhei, também, um novo pai, o poeta e compositor Oswaldo Guilherme. E fui pela vida com a coragem de ser protegido por dois destemidos e corretos homens.

Tive tantos pais e hoje não tenho mais. Apenas os conselhos e os carinhos que ganhei. E hoje sou pai de dois filhos naturais, dois enteados e uma filha por adoção.

O dia de hoje pretendo louvá-lo como um filho que sempre fui da vida. A paternidade é alguma coisa que compreendo pela natureza das coisas. Tenho a impressão que a instituição paternal reside apenas em antigos homens que foram bisavôs, avôs e pais, pelas lembranças deixadas.

Tenho um pedaço de fumo goiano, médio, uma boa palha e um excelente canivete, presente do seu Antonio Ribeiro, o agora saudoso pai da minha companheira – além de um outro que herdei do meu avô Guilherme. Farei um picadão em memória deles todos. E farei um esboço de samba-canção ao Oswaldo Guilherme e uma lembrança de cuba libre para o meu saudoso catalão.

E antes que os meus filhos me ofertem presentes, antes darei a eles as lembranças do meu pai biológico e de tantos outros que me adotaram pela vida; que eles saibam que serão eles, meus filhos, sempre, o meu único presente. E que assim continuem e se façam sempre filhos.

Não faço ideia do que pensam os filhos de José Dirceu, Lulla, Dilma e de tantos outros corruptos que estão presos pela operação Lava Jato. Talvez não pensem nada. Talvez achem que seus pais são perseguidos pelas suas virtudes políticas e que a História os tornará heróis do povo brasileiro. Não estarei vivo, é claro, para ver tal aberração, mas, bem sei que os meus netos saberão avaliar o que esses políticos fizeram com um velho Brasil de avós e pais honestos, de filhos e netos bem informados. Não sou homem de boa herança financeira. Mas a cada um deixarei uma panela de bons argumentos democráticos. Apenas isso.

PS. No próximo domingo, 16 de agosto, tem panelaço democrático no Largo do Rosário. E devemos fazer isso em nome de nossos avós, pais, filhos, netos...

Bom dia.