Publicado 04 de Agosto de 2015 - 5h00

Por Manuel Carlos Cardoso

Manuel Carlos - correio

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Escrevendo a história de um meninozinho que um dia descobriu a dor, José Mauro de Vasconcelos escreveu “O meu pé de laranja lima”. Sua grande tristeza acontece ao final, quando cortaram seu pé de laranja lima, mas como disse um dia Álvaro Duarte, os livros de José Mauro têm o perfume das matas, a beleza dos pássaros, a amenidade dos rios e o fragor das cachoeiras. Tudo cheira a Brasil!

Não vivi a história triste de Zezé, nem sua infância miserável, mas já adulto tive uma lição de vida para nunca mais deixar de refletir ao fazer minhas escolhas.

Em minha chácara, bem ao fundo beirando a represa, havia um frondoso eucalipto.

Era uma árvore enorme, bem diferente do pequeno pé de laranja lima de Zezé e quando ventava mais forte seus galhos mais altos inclinavam tanto, que parecia que suas raízes não aguentariam.

Na chácara ao lado, um bom e calmo vizinho pedia-me com relativa insistência para cortar o tão temido eucalipto. Dizia-me que a queda da árvore poderia atingir sua casa e mesmo assim, sempre duvidei que uma árvore tão grande não possuísse raízes compatíveis com seu tamanho. A natureza é sábia, a árvore não corre nenhum risco, dizia-lhe sempre.

No meu trabalho, também tinha um belo jardim e uma grande quantidade de árvores e estas eu vi crescer durante meus 25 anos de serviço naquele local.

O belo jardim sempre recebeu os cuidados de meu xará, carinhosamente chamado de Mané.

Além de jardineiro era também um grande violeiro, que se dedicava a cantarolar as mais famosas modas de viola, mesclando com algumas composições de sua autoria. Formou dupla com Loirinho, um outro jardineiro, e Moreno e Loirinho chegaram até a gravar um CD.

Certo dia, desafiei Mané: — Você que é tão bom em plantar árvores, seria capaz de cortar uma?

— É mais fácil, Loirinho e eu cortamos qualquer árvore. Destruir a natureza é muito mais simples do que preservá-la.

Na semana seguinte, pegamos o rumo da chácara, parando no caminho para comprar um pedaço de corda. Achei aquela escolhida por Mané um tanto fina, mas ele disse que era apenas “para dar o tombo no lugar certo”.

Eucalipto amarrado, começaram as machadadas e depois de algum tempo, resolvi esperar dentro de casa fazendo algumas orações.

Um grande estalo e o forte barulho da queda do gigante. Corri para a porta e lá estava ele deitado exatamente sobre a casa do vizinho.

Algumas horas depois, enquanto a dupla de violeiros trabalhava para tirar a arvore de cima da casa, telefonei ao vizinho e o diálogo aconteceu mais ou menos assim: —

Seu Jorge, aqui é Manuel, seu vizinho de chácara, como vai o senhor?

— Vou bem. Corta ou não corta o eucalipto?

— Estou telefonando para dizer que cortei.

— Que bom, Manuel, que notícia boa.

Aproximando-se as eleições da OAB, o episódio volta em minha memória lembrando-me como são importantes nossas escolhas.

Vamos eleger aqueles que cuidarão de nossa entidade pelos próximos três anos.

Votar sem fazermos uma análise profunda das propostas apresentadas pelos candidatos será infinitamente pior do que fiz no passado para cortar meu pé de eucalipto.

Escrito por:

Manuel Carlos Cardoso