Publicado 06 de Agosto de 2015 - 5h00

Por Jorge Massarolo

ig - Jorge Massarolo

CEDOC

ig - Jorge Massarolo

Não adianta, não consigo me acostumar. Em toda partida o coração dói. É como se sempre fosse a primeira vez. Sei, sei, você vai dizer que criamos eles para o mundo. Claro, mas ainda não acostumei. Aliás, quanto mais velho, mais este sentimento fica forte. Bem, estou falando de filhos que saem de nossas asas e vão para o mundo.

A distância não importa. Pode ser 50 ou mil quilômetros, o sentimento é o mesmo.

Jamais vou esquecer da primeira vez em que levamos nossa filha para estudar em uma universidade a cerca de 300 quilômetros de Campinas. Ela tinha 17 anos, saiu do Ensino Médio direto para a universidade. Lá fomos levá-la para sua nova casa, que seria dividida com uma colega desconhecida. A aflição minha e de minha mulher era gigantesca. Quem será essa pessoa? Como nossa filha vai se alimentar? A cidade é violenta? Como ela vai andar numa cidade estranha, pegar ônibus, voltar para casa sozinha à noite?

Jamais vamos esquecer a cena de ela acenando da varanda do apartamento quando fomos embora. Andamos algumas quadras e minha mulher chorando, queria voltar e levá-la para casa. Ficamos nos convencendo de que esse era o destino, a vida exigia isso, afinal, ela estava entrando na universidade, vida nova, cheia de descobrimentos e sonhos, buscando uma definição, um rumo. Um processo pelo qual eu e ela também passamos.

Pensávamos que ela estava “logo ali”, a 3 ou 4 horas de viagem. E podíamos falar com ela pelo celular, skype, a qualquer momento. Comunicação não era problema. A ausência física sim. Os dias, os meses seguintes foram pontilhados de saudades misturadas com preocupação em saber como ela estava.

Claro, ela também sofria, mas sempre sorria e nos dizia que estava tudo bem e que estava aprendendo muito com a nova vida. Sim, um mundo de novidades se abriu para ela. Apesar de sentir saudades de casa, da família, era necessário dar este passo em direção ao seu futuro. E assim o tempo foi passando.

Impossível não pensar na mesma dor que meus pais sentiram quando também saí para estudar a mil quilômetros de casa. Uma viagem de ônibus durava mais de 14 horas. Naquela época, década de 80, o sistema de telefonia era precário e caro. Celular, skype, computador? Rs, rs, rs.

Hoje, no papel de pai, fico imaginando o quanto era doloroso para eles saber que se algo grave acontecesse teriam dificuldade imensa em chegar até mim. Imagino quantas noites mal dormidas tiveram.

Bem, em seguida, foi a segunda filha que saiu para a universidade. O processo se repetiu. Mesmas aflições, preocupações, medos..., com quem vai morar?, a universidade é longe?, você está se alimentando bem?, quando vem nos visitar? Enfim, um desejo imenso de estar junto para enfrentar esta nova etapa da vida.

E isso também aconteceu com nosso filho, que saiu para casar… mora praticamente ao lado de casa e está feliz no casamento e realizado profissionalmente.

Por fim, o gostoso é saber que esses filhos foram para o mundo e estão vencendo esta luta existencial, que estão criando suas próprias vidas, suas identidades, suas famílias, suas profissões, suas realizações. Sabíamos disso desde o começo, mas somos sentimentais, somos tolos e não adianta.

Toda vez que nos despedimos, um pedaço nosso vai junto com eles, para protegê-los, para amá-los, para sermos seus anjos da guarda, e assim seremos eternamente. Somos pais. Por sorte ainda temos um caçula de 11 anos, que vai demorar mais um tempinho …

Escrito por:

Jorge Massarolo