Publicado 06 de Agosto de 2015 - 5h00


Para entendermos a anatomia do sistema nervoso central, convém recuarmos até o momento da concepção. Afinal, a partir de um pequeno número de células começa a formação do cérebro humano que leva anos para atingir seu potencial pleno em termos motores, sensoriais e intelectuais. Embora o trajeto não seja regular, há uma sequência bastante previsível.

Poucos dias depois de ser originada a primeira célula até a fase adulta, o cérebro de um indivíduo está em constante desenvolvimento. O processo de maturação cerebral é significativamente mais lento no ser humano do que em qualquer outra espécie. Contudo, esta lentidão significa uma vantagem, como a progressiva complexificação estrutural e funcional da rede neural.

Todo o sistema nervoso origina-se das paredes de um tubo que se forma no estágio inicial do desenvolvimento embrionário e que se transformará no sistema ventricular no adulto. A partir do entendimento de como esse tubo modifica-se durante o desenvolvimento fetal, poderemos compreender como o encéfalo organiza-se e como as diferentes partes se juntam.

As fundamentais primeiras semanas

Nos dias seguintes à concepção, o embrião é só um minúsculo aglomerado de células. No início, é um disco plano formado por três camadas celulares: o endoderma, que vai originar o revestimento dos órgãos; o mesoderma, que dá origem aos ossos e aos músculos; e o ectoderma, que origina o sistema nervoso e a pele.

O primeiro indício de formação do sistema nervoso consiste em um espessamento do ectoderma, formando a chamada placa neural. Em humanos, isso ocorre geralmente com três semanas de gestação.

Uma semana mais tarde, forma-se um sulco na placa neural – o sulco neural. As paredes do sulco (chamadas de cristas neurais) movimentam-se juntas e fundem-se, formando o tubo neural que permanece no interior do embrião, envolvido pela futura epiderme.

O tubo neural dá origem a elementos do sistema nervoso central, enquanto a crista dá origem a elementos do sistema nervoso periférico, além de elementos não pertencentes ao sistema nervoso.

A crista neural desenvolve-se em íntima relação com o mesoderma. Nesse estágio, forma proeminentes protuberâncias em cada lado do tubo neural chamadas somitos, a partir dos quais se formam as 33 vértebras da coluna vertebral e os músculos relacionados.

O processo de transformação da placa neural em tubo neural é chamada de neurulação, que começa por volta de 22 dias após a fecundação. Nessa fase, podem ocorrer defeitos congênitos como o fechamento inapropriado do tubo neural, causando doenças graves.

Defeitos do tubo neural

As falhas no fechamento correto do tubo neural são comuns, ocorrendo em

aproximadamente um em cada 500 nascidos vivos. O processo de formação do tubo neural é bastante complexo, dependendo de uma série precisa de mudanças das células.

A duração da neurulação depende de uma sequência específica de mudanças no ectoderma não-neural e no mesoderma. No nível molecular, o sucesso da neurulação é bastante sensível a elementos químicos ou deficiências químicas na circulação materna.

A fusão de pregas neurais para formar o tubo neural ocorre primeiramente no meio e então nas pontas. Falhas no fechamento anterior (rostal) resultam na anencefalia, uma grave malformação fetal que resulta na ausência de cérebro, calota craniana e couro cabeludo. A junção desses fatores impede qualquer possibilidade de o bebê sobreviver.

Metade desses bebês sofre uma parada cardíaca antes mesmo do parto e morre dentro do útero da gestante. Quando nascem, duram apenas algumas horas. A anencefalia pode ser detectada pelo exame de ultrassonografia, a partir da oitava semana de gestação.

Extremamente rara, a merocrania é um defeito menos acentuado da caixa craniana e o resquício do cérebro é coberto por uma membrana. Os merocrânicos conseguem ter uma sobrevida vegetativa maior, embora também muito breve. O tronco encefálico, quando bem formado, garante ao feto funções vitais como respiração e batimentos cardíacos.

Outra afecção é ancefalocele, também conhecida como “cranium bifidum”, que consiste em um defeito na ossificação da região posterior do crânio do embrião, caracterizada pela herniação do cérebro e das meninges por aberturas presentes no crânio.

Esta condição pode ser classifica em três tipos distintos:

Meningocele craniana: é a insinuação do encéfalo em crescimento para uma abertura anormal na caixa craniana. Neste caso, há a herniação de apenas as meninges, sendo, portanto, o tipo mais brando de encefalocele. A herniação é composta por pele e meninges, com líquido cefalorraquiano em seu interior.

Meningoencefalocele: neste caso, há a herniação de meninges e parte do encéfalo (cérebro e/ou cerebelo, ou medula espinhal. Uma vez que contém tecido nervoso em seu interior, o quadro é considerado mais grave.

Meningohidroencefalocele: da mesma forma como a meningoencefalocele, há herniação das meninges, de parte do sistema nervoso central, carregando junto consigo uma extensão do sistema ventricular.

A única forma eficaz de tratamento, até o momento, é a cirurgia reparadora, que geralmente é feita durante a infância. A extensão da correção fica na dependência de cada caso.

A espinha bífida

Falhas no fechamento da porção posterior (caudal) do tubo neural resultam numa condição chamada espinha bífida, uma grave anormalidade congênita do sistema nervoso.Esta lesão ocorre na parte final da coluna, pois é a última porção da coluna a se fechar, criando uma saliência nas costas do bebê.Quando isso acontece, o tecido nervoso sai através do orifício, formando uma protuberância mole, na qual a medula espinhal fica sem proteção.

Há diferentes tipos de espinha bífida:

Oculta: que se caracteriza pelo fechamento incompleto da coluna vertebral, sendo que não há envolvimento da medula espinhal e das estruturas que a protegem. Pode passar despercebida, geralmente não apresenta problemas neurológicos e é mais frequente na parte inferior da coluna, entre as vértebras L5 e S1, podendo ocorrer presença anormal de cabelo e uma mancha nessa região.

Cística do tipo Meningocele: é a forma mais leve de espinha bífida cística, pois a saliência nas costas do bebê envolve apenas as estruturas que protegem a medula espinhal, ficando a medula espinhal dentro das vértebras, como é normal. A saliência é revestida pela pele e neste caso o bebê não apresenta problemas neurológicos porque a condução dos impulsos nervosos ocorre normalmente.

Cística do tipo Mielomeningocele: é a forma mais grave de espinha bífida cística, pois a saliência nas costas do bebê contém, além das estruturas que protegem a medula espinhal, parte dela. A saliência não é revestida pela pele, encontrando-se aberta e, neste caso, o bebê apresenta problemas neurológicos porque não acontece a transmissão dos impulsos nervosos.

O tratamento para espinha bífida depende do seu tipo. A espinha bífida oculta, na maioria dos casos, não necessita de tratamento.

Em caso de espinha bífida cística, o tratamento consiste na cirurgia que deve ser realizada nos primeiros dias de vida da criança para voltar a reintroduzir todas as estruturas no interior da coluna vertebral e fechar o defeito na coluna. 

O ácido fólico e a formação do tubo neural

Como visto, a formação do tubo neural é um evento crucial no desenvolvimento do sistema nervoso e acontece muito cedo: cerca de três semanas após a fecundação, muitas vezes quando a mulher sequer sabe que está grávida.

A boa notícia é que pesquisas recentes indicam que muitos desses defeitos decorrem de falta da vitamina ácido fólico (também conhecido como folato ou vitamina B9, do complexo B) na dieta da mãe.

O ácido fólico tem um importante papel em várias vias metabólicas, incluindo a biossíntese do DNA, que naturalmente deve ocorrer na divisão celular.

Seu nome deriva do latim “folhas”, pois foi primeiramente isolado das folhas de espinafre.

Além das folhas verdes dos vegetais, outros alimentos são ricos em ácido fólico, como aspargo, abacate, feijão seco, beterraba, brócolis, cenoura, couve-flor, repolho, lentilha, fígado,ovos, suco de laranja, amendoim, ervilha seca e verde, suco de tomate e germe de trigo.

Como apenas a alimentação pode não ser suficiente, recomenda-se a suplementação nas semanas seguintes à concepção, o que pode reduzir a incidência de defeitos em 90%.

O bebê é beneficiado quando a mulher é saudável e possui o peso ideal para engravidar. Por isso, mulheres que pretendem engravidar devem tomar ácido fólico três meses antes e no primeiro mês de gravidez para reduzir os riscos de defeitos no tubo neural.

Na próxima edição, vamos avançar mais no desenvolvimento do sistema nervoso, ainda durante a gravidez. Até lá.

Envie sua pergunta ao Dr. Feres Chaddad Neto, pelo e-mail [email protected]

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