Publicado 05 de Agosto de 2015 - 5h00

Por André Fernandes

André Fernandes

Cedoc/RAC

André Fernandes

Todo homem pode e deve perguntar para si mesmo sobre os motivos de nossa existência e do sentido mais profundo do mundo que nos cerca. Muitas das crises de depressões dos consultórios são crises de falta de sentido. Para aquele fim, é necessário o desenvolvimento de um conjunto de atitudes básicas para que a dimensão reflexiva possa produzir seus frutos ao longo da vida. Do contrário, outros fatores externos poderão corrompê-la, a ponto de não se ter a vida examinada da pesada sentença de Sócrates. Aliás, hoje, será a vez dele.

Uma atitude muito importante – e isso não é fácil na fogueira das vaidades do ambiente acadêmico – é fomentar a humildade intelectual. Não há espaço para uma estimativa exagerada de nossas capacidades intelectuais. Dizia meu professor de química dos tempos de Porto Seguro que, quanto mais se estuda, menos se sabe... Realmente, quando se resolve enfrentar a fundo um campo do saber, logo se nota que uma vida inteira, muitas vezes, é insuficiente para conhecê-lo com profundidade.

Mesmo que uma pessoa tenha uma experiência rica e uma compreensão profunda da vida humana, jamais deve perder o sentido da realidade: o indivíduo que tem uma vida de reflexão não é um sábio por excelência. Apenas ama a verdade, sente uma necessidade de compreender os últimos porquês do mundo que o rodeia e busca relações de sentido entre as coisas.

A antiguidade clássica sempre viu no ato de filosofar ou de refletir um ato de amor à sabedoria e à uma sabedoria que jamais chegará a ser possuída completamente. Uma pessoa que vive a humildade intelectual é consciente de não saber nada. Sócrates já admitia que só sabia que não sabia.

Hoje, é muito difícil que alguém saiba tudo, nem mesmo num campo mais especializado do saber. Começa-se a estudar algo, mas não se chega a um fim. Constantemente, descobrem-se mais campos de investigação. A especialização torna-se cada vez maior. Um amigo já descreveu esse fenômeno como sendo o “pontilhismo científico”: com o universo de pesquisa reduzidíssimo, as ciências, sobretudo as experimentais, transformaram-se numa espécie de pintura pontilhista vista de perto e sem uma imagem-tema.

Um cardiologista não entende nada de oftalmologia. Um advogado criminalista não tem a menor noção de direito previdenciário e um psiquiatra não entende de farmacologia. Essa especialização cria um risco maior de manipulação das ciências, porque um monte de dados soltos só dá uma imagem geral quando, como num mosaico, temos uma ideia prévia de onde encaixar as diversas peças, o significado de cada uma e a importância de sua contribuição para o todo.

Por outro lado, o esfacelamento científico ajuda-nos a desmistificar esse quadro atual de fé cega na ciência, pois demonstra que o ser humano tem uma mente limitada e que é incapaz de abarcar o todo. E Sócrates não se limitou a afirmar a própria ignorância: disse que jamais fora mestre de nada. Ou seja, não é possível dividir a humanidade em duas grandes classes, a dos que sabem, composta pelos sábios, e a dos que não sabem, formada pelos ignorantes. Todos estamos buscando a verdade e ninguém a possui completamente. Cada um de nós pode aprender dos demais e mesmo dos ditos ignorantes, porque – outra contribuição socrática – a ignorância é a base para o conhecimento válido.

Ficamos um tanto céticos ante as construções sistemáticas do saber moderno: assistimos à derrocada de sistemas ideológicos inteiros e à revisão dos fundamentos de vários campos do saber. Ao mesmo tempo, presenciamos o sepultamento de um sem número de tradições fundamentais da cultura ocidental.

Esses revezes podem ser benéficos para uma pessoa e mesmo para a sociedade, porque uma crise não é sinônimo de catástrofe: pode ser útil para se voltar a tomar consciência dos próprios fundamentos vitais. Uma oportunidade de ouro para um espírito comodista transformar-se num espírito reflexivo.

Mas sem se esquecer de que uma boa pitada de humildade é o condimento necessário para uma vida de reflexão sadia. A mesma humildade que produz um efeito irônico na relação ao outro, ao criar o atrito que, por sua vez, gera a centelha do diálogo. Moral da estória: mais Sócrates e menos Prozac. Com respeito à divergência é o que penso.

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