Publicado 07 de Agosto de 2015 - 19h52

Alberto Dines

Cedoc/ RAC

Alberto Dines

“Chamem um constitucionalista, a coisa tá feia !”. Assim é que se debelavam as crises antes de 1964. O desespero repetiu-se em Março de 1985 quando Tancredo Neves, eleito pelo Congresso e derrubado por uma diverticulite não pode ser formalmente empossado como presidente.

Ainda não se sabe quem foi o Paciente Nº 1 deste novíssimo surto de constitucionalite, o certo é que na sexta, com a maior naturalidade alguns comentaristas políticos vespertinos já estavam mergulhados na faina de aventar insólitas soluções legais para serem convertidas em remendos da Carta Magna.

A única solução legal para a atual crise consiste em remover aqueles que ostensivamente ameaçam a governabilidade com golpes, chantagem e sabotagens legislativas. O inspirador e operador desta nova subversão é o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, conspirador-trainee, incluído pela Procuradoria Geral da República na lista de políticos que sujaram as mãos com o dinheiro fácil do petróleo.

Irremediavelmente sob suspeita, sem condições morais, técnicas e legais para presidir uma das casas do Congresso, especialmente num momento de tamanha gravidade. O licenciamento do cargo enquanto seu nome estiver arrolado na Operação Lava-Jato seria o procedimento obrigatório para evitar um perigoso conflito de interesses onde um servidor público tenta utilizar o seu poder para livrar-se das acusações oriundas de outro poder.

A defesa de Cunha ontem na “Folha de S. Paulo” é uma das mais incríveis exibições de caradurismo dos últimos tempos. Comparado com Cunha, o mestre Paulo Maluf parece um aprendiz em matéria de hipocrisia e cinismo. A atual crise política tem nome e assinatura — Eduardo Cosentino da Cunha — e também uma patologia: onipotência aguda.

Se os compulsivos remendeiros constitucionais renderam-se de repente aos encantos do parlamentarismo que o adotem ao fim do atual mandato. Antes, seria usurpação, golpe. Os três anos restantes deveriam ser utilizados para fazer as necessárias adaptações, sobretudo na esfera eleitoral, hoje convertida numa adoidada colcha de retalhos de autoria do mesmo Cunha.

Embora o presidente da Câmara seja o pivô da crise política e o principal sabotador do plano de salvação da economia, alguns episódios coadjuvantes não podem ficar na sombra. Ao recusar os convites para conversar com o comando do PT, a cúpula do PSDB alegou sua ojeriza a conchavos. Fez bem.

Mas não deveria patrocinar as manifestações do próximo dia 16, no mês dos desgostos. Mesmo vacinado contra superstições, um partido maduro, experimentado e responsável não deve estimular a partidarização dos protestos de rua. As jornadas de junho de 2014 entraram para a história justamente graças à sua imunização ideológica.

E se os comandos do PT e do governo levam a sério uma aproximação com o principal partido da oposição deveriam abrir mão da maldição de “nós e eles” ainda perceptível no programa de propaganda política da quinta-feira. A perversa exacerbação deste antagonismo no último pleito é o responsável direto por uma polarização que persiste até hoje, um ano depois.

A hora não é de conchavos, nem de jeitinhos constitucionais. Muito menos de paranoias e radicalizações.