Publicado 08 de Agosto de 2015 - 6h18

Por Marcelo Sguassábia

DIA DO ENTEADO

MARCELO SGUASSABIA

DIA DO ENTEADO

 Nunca foram tão maus os bocados vividos pelo comércio. Cada porta ainda aberta se vira como pode para não ter que passar o ponto. Ou virar igreja. Com sorte ou persistência se arranja um fundinho de ânimo para prosseguir respirando com a ajuda de aparelhos.

Vai daí que, de novo, a necessidade vem se revelando a mãe da criatividade. Por meio de pesquisas, descobriu-se um fato surpreendente e até o momento não explorado no calendário promocional: há mais enteados no mundo do que qualquer outra coisa - incluindo aí pai, mãe, avós, irmão, namorado, sogra, cunhado e quem mais se queira elencar como homenageado no calendário promocional.

A razão é simples. De uma obviedade que dá até raiva, e que nos faz perguntar como é que nenhuma associação comercial de não sei de onde nunca pensou nisso antes. Considerando que mais ou menos 90% dos casamentos de hoje acabam em divórcio, divórcio esse que não raro resulta em outro - ou outros - casamentos, é lógico que o número de enteados tende a ser enorme e a crescer absurdamente. Imagine, por exemplo, uma sequência de cinco casamentos. E que, nas primeiras núpcias, o casal teve um filho. Esse menino só vai ter evidentemente um pai e uma mãe, mas vai ser enteado de quatro madrastas e quatro padrastos, se seus pais se casarem outras quatro vezes. Fez a conta de onde pode parar a brincadeira? Existindo o Dia do Enteado, os quatro pais e as quatro mães postiças não vão ter cara de não dar presente para o pimpolho. Isso se for um só, porque a tendência é ir aumentando a renca conforme os casórios se sucedem.

Um amigo comerciante já tem até o mote publicitário para uma primeira campanha: "ENTEado também é ENTE querido". Desse jeito mesmo, o "ENTE" em maiúsculas para frisar o trocadilho. O tema é quase uma chantagem emocional, uma espécie de desagravo ao enteado nacional - esse injustiçado pela sociedade de consumo.

Já um outro conhecido meu, também do setor comercial, argumenta que, instituído o dia comemorativo, este será apenas mais uma data no combalido calendário de efemérides. E que sendo tantos os enteados, o interessante mesmo seria dividir os presenteados ao longo dos meses, para que o aumento das vendas contemplasse o ano todo. Dessa forma, teríamos o "Dia do Enteado nascido em janeiro", o "Dia do Enteado nascido em fevereiro" e assim por diante. Bem pensado. Resta saber se vai pegar ou não.

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Marcelo Sguassábia