Publicado 13 de Julho de 2015 - 18h08

Por Adagoberto F. Baptista

Fotos: Dominique

Gustavo Abdel

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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Americana registrou desde o início desse ano pelo menos quatro mortes de moradores em situação de rua, segundo dados colhidos pelo Correio entre os próprios moradores que vivem na região central. Os casos teriam ocorrido em um período de aproximadamente quatro meses, e dois dos óbitos causados por overdose. No entanto, o Serviço Especial de Abordagem Social (Seas), da Prefeitura, não confirmou as mortes, mas informou que realiza um trabalho de conscientização, assim como o lançado em Campinas no mês passado, sobre os malefícios da ingestão do etanol e também retomou cadastro dos moradores nessas condições.

As mortes, segundo os moradores, ocorreram na região central de Americana, onde concentra a maior parte dessa população, segundo recente levantamento do Seas. Um dos casos foi o do morador Cleiton, conhecido como “Cleitinho”, de aproximadamente 18 anos, encontrado morto no mês passado em uma rua próximo à linha férrea que corta o município. Colegas da vítima disseram que ele passou mal após consumo de drogas e morreu. A mãe foi chamada para reconhecer o corpo, e “entrou em pânico”, disse a moradora de rua Fabiana Prates Medeiro, de 20 anos. “Ele era gente boa e andava nessa região. Foi muita droga e deu overdose. A mãe chorava muito quando foi reconhecer ele”, disse a jovem, que frequenta as ruas de Americana desde a infância.

O outro caso de overdose foi o de um senhor de aproximadamente 65 anos. Ele tinha dificuldades para andar e estava debilitado há pelo menos quatro meses, disseram dois moradores de rua e um comerciante. Ele bebia muito e teria sido encontrado caído próximo à Praça Comendador Muller, no Centro.

Porém, a Prefeitura não confirmou nenhum dos casos. Já a Secretaria de Saúde informou através da assessoria de imprensa que não distingue o atendimento de moradores em condição de rua das demais vítimas que são atendidas no Hospital Municipal Waldemar Tebaldi, e por isso não seria possível precisar quantas mortes ocorreram.

Entretanto, um recente levantamento elaborado pela Prefeitura apontou que mais da metade dos moradores de rua consome drogas ilícitas, e o crack lidera a lista em Americana. A pesquisa faz parte de um mapeamento feito pela Secretaria de Habitação e Promoção Social, que retomou os trabalhos de abordagem às pessoas em situação de rua na cidade através do Seas.

Dentre os trabalhos de abordagem e encaminhamento feito por dois agentes e um técnico, o Seas passou a explicar sobre o efeito devastador que a ingestão do etanol provoca no organismo. Os moradores que vivem nas ruas adotam essa prática para se “esquentar” do frio e pelo fato do álcool na bomba ser mais barato do que uma garrafa de pinga.

LEVANTAMENTO - De acordo com o secretário da pasta, Marco Antonio Alves Jorge, nos cinco primeiros meses desse ano o Seas já cadastrou 78 pessoas, entre moradores da cidade e migrantes, que costumam viver em cidades diferentes e passaram por Americana nos últimos meses. Desse total, 48 deles admitiram que consomem álcool, sendo que 42 afirmaram que ainda fazem uso de drogas psicoativas. Esse levantamento indicou ainda que 47 são do próprio município.

Exemplo de migrantes que transitam entre cidades está o morador em situação de rua Vladimir José Dias, de 42 anos. Ele chegou em Americana anteontem, após uma “temporada” de 20 dias em Campinas. “Sou de Americana, mas não fico parado. Pego papelão nas ruas e ganho a vida assim. Minha família não quer minha presença, e por isso estou na rua”, disse. Sem desgrudar a Bíblia da mão esquerda, com a outra fumava um cigarro e dizia na manhã de ontem: “Rezo todos os dias para que nada aconteça comigo andando por aí”, resumiu.

Vladimir disse que não foi consultado pelos agentes da Prefeitura, mas caso fosse aceitaria o acolhimento, já que está vivendo na linha do trem em “situação extremamente precária”, segundo ele. De acordo com o secretário Marco Antonio, a Casa de Acolhimento Municipal (CAM) é o local para onde são encaminhados os moradores que aceitam o acolhimento. A equipe do Seas também é responsável por fazer o direcionamento das pessoas abordadas para serviços de saúde, assistência social e orientação jurídica. A demanda também é atendida no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas).

RETRANCA: Grávida quer sair das ruas

Sentada em uma cadeira de plástico debaixo do viaduto da Rua Rio Branco, em frente ao terminal metropolitano, Fabiana Prates Medeiro,fuma um cigarro enquanto fala da sua gravidez de sete meses. É menino, mas o nome continua indefinido. “Quero cuidar dele e voltar a estudar e fazer faculdade de Direito”. Aos 20 anos, vive desde criança nas ruas de Americana. A mãe, “se perdeu nas drogas” e faz anos que não tem notícia dela.

Fabiana está há cinco meses vivendo em um albergue, e até dar à luz não sairá de lá. “Usava crack, cocaína e até injeção de remédio para cavalo para dar barato. Mas agora estou me limpando. Mas olha minha barriga, ela não cresceu muito por que sou usuária disseram os médicos”, mostrou.

Durante o dia Fabiana ajuda a olhar uma loja de utensílios domésticos que fica embaixo do viaduto, na Avenida Dr. Antônio Lobo. Dali tem contato com os demais moradores em situação de rua que passam a tarde na sombra das estruturas de concreto do viaduto. “Penso em sair dessa vida”, frisou.

Ela não se recordava da data, mas que no mês passado a morte do colega Cleitinho entristeceu muitos colegas de rua. “Ele era novo, e falam que foi overdose. A mãe dele entrou em desespero”, lembra-se. “Outros morreram também, escutei muitos comentarem”, finalizou.

BOX: Classificação dos moradores em situação de rua, em Americana:

Uso de substâncias psicoativas - 42

Uso de álcool - 48

Venda de produtos nas ruas - 12

Saúde mental - 7

Itinerante - 20

Mendicância - 31

Moradores de rua - 26

Pessoas com deficiência - 4

Pessoas de Americana - 47

Total em situação de rua - 78

*A somatória das classificações ultrapassa 78 pessoas pois muitos estão enquadrados em mais de uma categoria

Fonte: Secretaria Municipal de Habitação e Promoção Social

BOX: Regiões com maior concentração:

Área 1 - (Centro) - 35

Área 4 - (São Vito, São Manuel) - 17

Área 5 - (Jardim América, São Luis) - 9

Área 8 - (Jardim Ipiranga, Jardim São Paulo) - 9

Fonte: Secretaria Municipal de Habitação e Promoção Social

Escrito por:

Adagoberto F. Baptista