Publicado 08 de Julho de 2015 - 20h48

Por Adriana Leite e Silva

Fotos de Maria Dorli de Oliveira (costureira), Fabricio Pessato (professor da Metrocamp), Pedro Luiz Brazolin (sapataria) e Clóvis Garcia Montrezor (oficina mecânica)

Adriana Leite

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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Sem dinheiro no bolso, o consumidor está aprendendo aquela velha estratégia dos pais e dos avós de consertar tudo aquilo que ainda dá para ser usado. A lista de produtos que ganha uma “recauchutada” é longa: do lençol da cama do quarto até a luminária da sala. Antes de comprar um novo, muitos consumidores recorrem aos prestadores de serviços para consertar. O resultado é que a crise passa longe das portas de costureiras, sapateiros, assistências técnicas e oficinas mecânicas. Os pequenos empreendedores calculam que nos últimos dois meses a demanda dobrou.

Os consumidores dizem que, na maioria das vezes, sai muito mais barato consertar ou repaginar a peça do que comprar uma nova. O custo do serviço pode ser até dez vezes menor do que comprar um produto novinho em folha. De acordo com pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a renda do brasileiro teve uma queda 5% em maio deste ano em relação ao ano passado. O valor passou de R$ 2.229,28 para R$ 2.117,10. O desemprego também assusta e é melhor manter o dinheiro no bolso do que gastá-lo. Optar por consertar também é um dos pilares do consumo consciente que vem se disseminando que outras partes do mundo como a Europa.

Os prestadores de serviços afirmam que os consumidores estão consertando tudo, mas os reparos são os mais simples. Quando a demanda é mais onerosa, o consumidor prefere adiar e esperar ter mais dinheiro no bolso. Na lista dos consertos mais procurados estão troca de peças de eletrodomésticos, revisões em carros, costura de barra em roupas e novos solados em sapatos. A tendência na área de vestuário e calçados é que os consumidores também comecem a apostar na repaginada de peças que estão boas, mas encostadas no guarda-roupa ou na sapateira.

A costureira, Maria das Dores de Melo, afirma que o movimento aumentou muito nos últimos dois meses. “Faço todo tipo de conserto em roupas e também faço peças sob medida. Houve um aumento do volume de pedidos nos últimos 60 dias. Mais do que dobrou a demanda. Os consumidores têm muitos pedidos de barra e ajuste nas roupas”, conta. Ela diz que gosta do que faz e a qualidade do serviço é fundamental para manter a freguesia.

A proprietária do Ateliê Agulha Mágica, Maria Dorli de Oliveira, comenta que as pessoas buscam conserto para todo tipo de peça. “Aqui no ateliê nós já consertamos de tudo. Desde lingeries, lençóis até vestidos de festas. Com a crise, os consumidores buscam mais pelos consertos. Temos muitos pedidos de barras, troca de zíper, conserto de calças jeans e customização de peças”, aponta. Ela salienta que “As pessoas estão arrumando mais as peças antigas do que ajustando novas”, observa.

No mercado, as costureiras cobram em média de R$ 18,00 a R$ 20,00 para fazer a barra de calça. A troca de um zíper, dependendo da roupa, custa de R$ 15,00 a R$ 25,00. O ajuste da peça fica entre R$ 20,00 a R$ 30,00, conforme o serviço. A repaginada de um vestido de festa pode ficar em R$ 150,00. As profissionais afirmam que o valor depende do tecido e das mudanças que o consumidor pretende fazer na roupa.

Sapatos

Os sapatos sempre ganham uma atenção especial do público feminino. E, em tempos de dinheiro curto na carteira, mais do que nunca é hora de arrumar aqueles pares que estão encostados com um salto quebrado ou aquela bolsa com a alça solta. Se antes, o destino dessas peças era a doação. Agora, o endereço é a sapataria. “Há um aumento da procura pelo conserto mais simples. Mas a tendência é que trabalhos mais que demandam serviços mais específicos como a transformação de uma peça também comecem a ter mais pedidos”, diz o sócio-proprietário da Sapataria Rápida Mug, Pedro Luiz Brazolin. Ele calcula que o movimentou subiu de 30% a 40% neste ano.

A dona de casa, Maria Fernanda Silva, afirma que sempre manda arrumar tudo que ainda dá para ser usado. “Em casa, essa é uma prática antiga. E mesmo as peças que decidimos doar mando arrumar se tiver qualquer avaria. Lógico que a crise faz com que a gente procure mais pelos prestadores de serviços. Na semana passada, arrumei uma bolsa e uma mala. Ficou bem mais barato do que se eu comprasse uma nova”, comenta.

RETRANCA 1

Nas oficinas mecânicas, o movimento também teve um incremento neste ano. Se antes o consumidor trocava de carros com maior rapidez, agora os motoristas preferem recorrer aos mecânicos para fazer ajustes nos veículos. “Neste ano, sentimos um crescimento pela procura de manutenção dos carros. Mas se houve subida na demanda, o valor do tíquete médio está menor. Os motoristas estão fazendo a manutenção básica e não uma revisão geral”, diz o proprietário da Castelo Automotive, Clóvis Garcia Montrezor.

Ele comenta que antes eram entre 90 a 100 carros por mês na oficina. O volume subiu para 130 a 140 veículos neste ano com a crise que afeta a economia. “Os consumidores estão sem dinheiro e gastam com os itens que são mais urgentes e necessários”, afirma. O empresário observa que a oficina faz todo tipo de serviço, mas os mais procurados são troca de filtros de óleo e freios.

O administrador, Antônio Luiz Marques, afirma que sempre trocava o carro a cada dois anos. “Viajo muito e dependo do carro para trabalhar. Queria trocar o carro neste ano, mas não vai dar. Então, estou apostando mais na manutenção preventiva. Procuro gastar o mínimo possível com a manutenção, mas sempre dentro de uma margem de segurança do veículo”, pontua.

RETRANCA 2

O professor da Metrocamp, Fabrício Pessato, afirma que existe uma tendência em várias partes do mundo de consumo consciente que prevê o aumento dos consertos em detrimento das compras desenfreadas. “Vivemos durante muitos anos um modelo de economia que insustentável de produção, consumo e descarte. Mas a tendência agora é ser mais consciente na hora de consumir. As crises trazem alternativas e mudanças de hábitos”, diz.

Mas ele observa que, de outro lado, nem sempre é viável conseguir consertar um produto. Pessato conta que está tentando arrumar um fogão e foi informado que existe apenas uma assistência autorizada em Campinas. “Fiz o orçamento e o custo do conserto é um pouco menor do que se eu comprar um fogão novo. Gostaria muito de consertar o que eu tenho em casa, mas terei que ficar com ele mais um tempo e depois comprar um novo”, afirma.

A Brastemp informa que “sua autorizada em Campinas conta com a estrutura necessária para atender de forma eficiente a todos os seus clientes. A marca ressalta que suas autorizadas praticam o preço de mercado”. (AL/AAN)

Elemento

48,9 bilhões

de reais

foi a massa de rendimento médio real habitual do brasileiro em maio de 2015

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Adriana Leite e Silva