Publicado 08 de Julho de 2015 - 14h57

Por Adagoberto F. Baptista

Temos fotos do persona Julian

Eric Rocha

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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Inflação, reajuste fiscal, dólar em alta e desemprego são algumas palavras que pareciam distantes da realidade de jovens entre 20 e 30 anos até recentemente. Pouco atingidos pela crise internacional de 2008, esta parte da população vive agora em 2015 a primeira recessão econômica da vida. São recém-formados ou profissionais ainda com pouca experiência que precisaram aprender a entender a situação financeira do País e passaram a sentir na pele os efeitos de um mercado interno pouco aquecido.

Olhar de perto o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial, ajuda a entender um pouco desse contexto novo para alguns. Entre maio de 2009 a junho de 2010, quando alguns jovens desta faixa etária ainda estavam estudando, houve alta nos preços praticados pelo mercado, mas ele ficou em 4,84%. Cinco anos mais tarde, os valores dispararam e o índice atingiu os atuais 8,89%, no cálculo do período compreendido entre maio de 2014 e junho de 2015. Vários itens muito utilizados pelos jovens registraram altas expressivas nos últimos 12 meses (veja no quadro ao lado). Já o Produto Interno Bruto (PIB), que mede a riqueza e o nível de atividade econômica, mostrou um Brasil que cresceu 7,6% em 2010. Um panorama completamente diferente do esperado pelo mercado para este ano: a expectativa é que haja uma recessão de 1,5%.

E se os preços estão em alta e a economia não gira, as empresas não faturam e quem sofre são os empregados. A taxa de desemprego, que fechou 2014 em 4,8%, já chegou a 6,7% em maio. O publicitário Julian Renzulli, de 29 anos, afirmou ter sentido um pouco os efeitos de 2008, quando trabalhava como vendedor em uma loja de tintas, mas que nada se compara ao que vive hoje. “A agência onde eu trabalhava vinha perdendo clientes desde o início do ano passado”, disse. Os maus resultados da empresa acabaram fazendo com que ele fosse demitido em fevereiro e a busca pela realocação no mercado até agora tem sido um processo nada fácil. “Tá muito difícil porque a quantidade de ofertas diminui muito e, quando tem, querem pagar menos. Todo mundo fala que está sem dinheiro”, comentou o Renzulli, que segue fazendo um curso de pós-graduação para tentar se diferenciar dos outros profissionais. O jovem está de casamento marcado para setembro e a perda do emprego provocou alguns cortes na festa. Ele pode também perder cerca de R$ 35 mil que investiu para começar a comprar um imóvel na planta, uma vez que teme não conseguir o financiamento.

Uma arquiteta de 25 anos, que prefere não se identificar, contou que o escritório onde trabalha em Campinas ainda tem um grande volume de projetos, mas que os clientes têm optado por fazer as obras por etapas, adiando pagamentos que antes vinham de uma vez só. A solução da direção foi cortar salários e diminuir as cargas horárias dos funcionários em 20%, caso o contrário poderiam haver demissões. “Tive que recalcular as coisas do meu dia a dia, vou ter que dar uma cortada. É complicado porque eu conheço várias pessoas que são recém-formadas e não têm trabalho. A longo prazo tende a melhorar, sempre é assim. Tem o alto e o baixo, e acho que vamos ficar nele por um tempo considerável”, contou a jovem, que atua como profissional liberal.

A medida tomada pelo escritório onde ela trabalha se assemelha ao conjunto de medidas autorizadas pelo Programa de Proteção ao Emprego (PPE), lançado na semana passada pelo governo federal. A partir dele, empresas vão poder reduzir 30% dos salários e das cargas horárias dos funcionários. O trabalhador, no entanto, terá metade desta redução paga com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). O objetivo é frear as demissões e os gastos do Estado com o seguro-desemprego.

“O mundo está ensaiando uma recuperação e o Brasil está entrando na crise. O governo apostou muito em que se criando a demanda, a oferta iria atrás. Só que na prática isso não é assim, porque temos um capitalismo enfraquecido. As empresas preferem esperar para ver o que vai acontecer”, avaliou o professor de economia brasileira da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) Pedro de Miranda Costa. Na visão dele, o País está enfrentando “a própria crise”, e não há uma situação externa que sirva de desculpas. O docente orientou que os jovens impactados pelo momento econômico devem “tirar um pouco o pé” neste momento e pensar em reduzir os gastos e poupar dinheiro. Assim, se vier o desemprego, já haveria um fôlego para se manter sem os rendimentos.

Recuperação e qualificação

A antropóloga social e demógrafa do Núcleo de Estudos da População da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Joice Melo Vieira, acredita no poder de recuperação dos jovens diante dos resultados econômicos ruins. Para ela, muito disso poderia ser visto através das redes sociais, que permitiram novas formas de organização e podem gerar a busca de novas alternativas. “São jovens que não conheceram uma crise como esta, mas também são jovens que cresceram na democracia. Pode não ser as formas de participação que outras gerações conheceram, mas creio que eles serão menos passivos do que o senso comum pode supor. Eu tendo a acreditar que toda esta adversidade pode ser convertida em algo positivo”, explicou a pesquisadora que estuda a transição para a vida adulta.

Ela cita ainda que esta reação dessa camada da população vai depender, no entanto, de sua posição dentro da estrutura social. Quem ainda é recém-formado e ainda é mantido economicamente pelos pais, pode investir em qualificação, com cursos de pós-graduação, especializações e programas de intercâmbio. “Sabemos que estas possibilidades são para poucos. Muitos jovens de classe média baixa e baixa verão as possibilidades econômicas da família se deteriorar. Mesmo os que ainda são estudantes podem precisar ajudar a complementar a renda familiar”. De acordo com a especialista, as famílias tendem a apoiar os jovens nos momentos de crise, mas que esta ajuda está limitada no momento porque mercado de trabalho está complicado para qualquer profissional, independente do estágio da carreira. “Isso afeta muito a margem de manobra das famílias e o quanto elas podem amortecer o choque que os jovens estão tomando com esta crise”, comentou.

Quadro – Alta nos preços em todo o País de itens “jovens” em junho, em São Paulo (acumulado dos últimos 12 meses)

ALIMENTAÇÃO FORA DE CASA – 5,65%

CERVEJA – 1,41%

OUTRAS BEBIDAS ALCÓOLICAS – 3,55%

ALUGUEL RESIDENCIAL – 4,57%

ROUPA MASCULINA – 2,11%

ROUPA FEMININA – 0,60%

CINEMA – 5,12%

BOATE E DANCETERIA – 3,84%

ENSINO SUPERIOR – 7,14%

PÓS-GRADUAÇÃO – 5,02%

TELEFONE CELULAR – 1,72%

Fonte: IBGE

Escrito por:

Adagoberto F. Baptista