Publicado 07 de Julho de 2015 - 17h10

Por Delminda Aparecida Medeiros

Obs: fotos da Camila feitas em 26/6.

Papo C com Lu Garcia

Delma Medeiros

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

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Bailaora, professora e pesquisadora incansável da cultura espanhola, em especial o flamenco, Lu Garcia completa 25 anos dessa história de paixão que começou meio por acaso. Sua primeira incursão na dança foi com balé clássico, modalidade em que se profissionalizou. Mas, o sangue espanhol falou mais alto e quando descobriu o flamenco, deixou de lado o balé e com o mesmo afinco se dedicou à dança espanhola. Criadora da primeira escola dedicada exclusivamente ao flamenco em Campinas, Lu é responsável pela profissionalização de muitos bailaores. Afastada dos tablaos devido a um problema no joelho, fez questão de comemorar o quarto de século na dança da maneira que mais gosta: bailando.

Caderno C: Você começou a dançar com balé clássico?

Lu Garcia: Isso mesmo, balé clássico. Comecei com 9 anos, na Academia Lina Penteado, logo que mudei para Campinas. Sou de São José do Rio Preto, mudei para cá com 9 anos e já queria fazer dança desde lá. Quando chegamos aqui minha mãe concordou porque viu que eu queria mesmo, não era fogo de palha.

E como foi essa guinada para o Flamenco?

Eu fui morar na Espanha. Era da companhia Íris Ativa. Primeiro estudei na Lina Penteado e depois fui para a Íris Ativa, era da companhia e dava aulas de balé. Aí fui morar na Espanha, em 1990. Chegando lá, pensei: “tenho descendência espanhola, vou ver o que é essa dança”. Minha mãe queria que eu fizesse e eu nunca quis, dizia que meu negócio era balé. Quando cheguei lá resolvi ver o que era, mais por curiosidade. Fiz um mês de balé e flamenco na mesma escola e larguei o balé. Falei: “não quero mais, o flamenco é o que quero para mim”.

Então você não foi para a Espanha estudar flamenco, mas o contrário?

Fui por causa do meu marido. Ele foi transferido para lá por causa do trabalho e fui acompanhá-lo. Cheguei e já me inscrevi numa escola de balé que tinha flamenco e resolvi fazer também. Em um mês parei o balé. Mas meu último curso foi com Fernando Bujones, encerrei bem essa fase (risos).

Começou a dar aulas de flamenco assim que voltou da Espanha?

Sim. Fiquei um ano lá. Voltei em 1991, comecei a dar aulas e segui até 1996, na Íris Ativa, na Tec Stúdio???, no Conservatório Carlos Gomes, na Corpo Livre, em Valinhos. Em vários lugares. Em 1997 montei o Centro de Arte Flamenca (CAF).

Como foi esse processo?

Tenho muito contato com a Liliana (Testa, diretora da Íris Ativa – Lina Penteado), somos muito amigas. Enquanto estava na Espanha ela dizia que quando voltasse daria aulas de flamenco na academia. Fui para a Espanha em junho de 1990 e voltei em julho do ano seguinte. Cheguei já com um curso de férias organizado.

Nem desfez as malas e foi dando aulas?

Dei o curso de férias e em agosto começamos o curso regular. Foi muito legal. Quando eu cheguei estava passando uma novela de ciganos (Explode Coração) e todo mundo se interessou pela dança por causa da novela. Nem tinha flamenco na novela, era mais dança cigana. Mas na época era tudo muito misturado.

Mas o flamenco tem uma relação com a cultura cigana?

Sim, tem, mas o flamenco é dos ciganos do Sul da Espanha. As pessoas queriam desesperadamente dançar igual na novela. Foi muito legal porque a gente começou num boom. Por causa da novela e porque não tinha flamenco em Campinas. Havia um grupo que não lembro o nome, mas que trabalhava o flamenco como dança folclórica. Eu trouxe o flamenco mais moderno, que estava acontecendo na época, porque o flamenco deixou de ser folclórico há muitos anos. Acho que isso também interessou às pessoas. Foi um sucesso, graças a Deus.

Diante desse interesse resolveu abrir a escola?

Tinha muita procura e eu sentia falta de um espaço onde tivesse um ambiente só de flamenco. E foi bem legal, a Liliana me apoiou bastante. Foi muito legal naquele momento.

A proposta da escola vai além da dança, não é ensinar só flamenco?

Não, não, a gente tem toda essa parte da arte. Mostramos para os alunos como é o cante, a guitarra, as castanholas. A ideia é que as pessoas entendam a cultura, não só a dança. Porque o flamenco é uma cultura, uma arte viva. Acabei de começar uma turma nova e falei para elas: “A primeira coisa que quero passar para vocês é a cultura flamenca. De onde vem o flamenco, como surgiu”. Apesar de não ser muito claro onde surgiu, tem uns estudos. Então eu gosto que o aluno mergulhe na cultura, senão vai só repetir passos. E isso não adianta, tem que saber o que está fazendo.

A escola também promove alguns eventos especiais?

Sim. Tem o Tablao, todo último domingo do mês no Restaurante Nosotros; fazemos bazares aqui em que vendemos roupas e artigos temáticos: sapatos, brincos, abanicos, tudo de flamenco. Costumamos fazer duas vezes por ano e, se os alunos pedem, edições extras. Faço cinema, tenho telão e passo filmes, depois discutimos, tiramos dúvidas. É bem abrangente.

Tem a Feria de Abril também?

Isso, a Feria de Abril, uma festa típica da região de Sevilha que a gente reproduz aqui. Fui a primeira a fazer, em 2000.

Hoje são três escolas exclusivas de flamenco em Campinas.

Eu fui a professora das diretoras. São lindas, trabalham super bem. Acho que campinas é um polo forte de flamenco por causa das três escolas, cada uma com seu estilo. Mas as três trabalham muito bem o flamenco, com consciência, vontade, trazendo gente de fora para apresentações e workshops.

Você ficou um tempo sem dar aulas por conta de um problema no menisco. O que aconteceu?

Rompi o menisco em 2011, num curso em que fazia cinco horas de flamenco loucamente com a espanhola Carmen La Talegona. Eu a trouxe para Campinas umas três vezes. Na terceira, eu louca, fazia cinco horas de aula bem puxada com ela. No penúltimo dia do curso rompi o menisco. Já vinha sentindo dores ha tempos. Esse joelho me dá problemas desde o balé. Era julho, eu tinha uma viagem para a Disney, para levar meu filho pela primeira vez. O médico queria me operar. Rompi no sábado, segunda fui ao médico e ele queria me operar na terça. Disse que não dava por conta da viagem, que faria na volta e marquei para agosto. Só que lá eu fiquei de tênis o tempo todo, tranquila, descansei, passou a dor. Ele rompeu, mas não soltou. Quando voltei não tinha mais dor. E meu pai que já estava doente começou a piorar, então desmarquei a cirurgia para cuidar do meu pai. E fui parando de dançar, continuei dando aulas, mas poucas para cuidar do meu pai. Ele faleceu em outubro e então parei as aulas completamente para cuidar da minha mãe. Ela quebrou o fêmur com meu pai no hospital, ficamos dois meses com os dois internados, uma cama ao lado da outra. Foi bem puxado. Meu pai faleceu, tive que cuidar da minha mãe e estrear o espetáculo de fim de ano. Meu pai faleceu em 21 de outubro e estreei o espetáculo em 21 de dezembro, dois meses depois. Fiquei meio desencantada e no ano seguinte resolvi só administrar e cuidar dos eventos, o que já toma bastante tempo. Curti fazer essa parte de bastidores. Fiquei até o ano passado nos bastidores.

Ai não resistiu e voltou às aulas e ao baile?

Decidi voltar a dar aulas, comecei com aulas de castanhola, tranquila. As meninas (professoras) e os alunos insistiam que devia voltar a dançar, havia alunos que nunca tinham me visto dançar, que entraram depois que parei. “Está bom, vou voltar a dançar.” Voltei...e o joelho está aqui, não operei (risos), fiz musculação, fortaleci. Agora que voltei a dançar não sei o que vai dar, não estou sentindo nada, se voltar a doer, terei que operar, mas por enquanto está aqui quietinho (risos).

Você também é diretora cultural da casa de Espanha que todo ano promove a Semana Espanhola. Para este ano já tem algo pensado?

Este ano está complicado. Estamos nos organizando, mas tivemos muitos problemas na Casa de Espanha, de pessoas que faleceram, que estão doentes, porque são mais idosas. Estamos nos reestruturando, montando uma nova diretoria. A Semana Espanhola vai sair, mas como ainda não sei, mais sai em outubro.

Ano passado trouxemos um bailaor espanhol, o Isaac (de Los Reyes), que deu aulas abertas e fez um espetáculo com profissionais de Campinas. Este ano acho que não vai ter nada internacional, não vai dar tempo.

E o festival da escola, sobre o que será este ano?

Será dia 1º de dezembro no Teatro Brasil Kirin. Estamos amadurecendo ainda, mas a ideia é falar sobre sentimentos, sobre todo tipo de sensações, pele, frio, calor, cheiro, tristeza, alegria, a gente vai tentar trabalhar sobre isso.

Você retomou as aulas de castanhola e de baile?

De baile também para iniciantes. Agora no segundo semestre quero começar a dar aulas de bata de cola (vestido com cauda) e abanico. Os alunos estão pedindo e vamos trabalhar isso no espetáculo. Há que comemorar os 25 anos de flamenco em alto estilo (risos).

Escrito por:

Delminda Aparecida Medeiros